A animação japonesa é mundialmente conhecida pelo seu metamorfismo, apresentando-se de formas extravagantes como os famosos Dragon Ball ou Attack on Titan, ou de forma mais subtil, como o icónico Death Note. A verdade é que já uma grande parte da população mundial tem noção do que esta representa, seja para gerações mais antigas ou as mais novas. Esta análise (não quantitativa) responde também à pergunta: quem é que popularizou a animação japonesa no Oeste?

Nada mais nada menos que a obra de arte de Katsuhiro Otomo: Akira.

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Para além de popularizar a animação japonesa no Oeste, este teve um papel fundamental na criação de muitos blockbusters que todos conhecemos, sejam eles The Dark Knight, Minority Report, Matrix ou até mesmo Inception (curiosidade: dois destes filmes são de Christopher Nolan – retirem as vossas ilações).

O filme começa com uma explosão nuclear, indicando-te, de seguida, que o mesmo se passa em 2019, 31 anos depois da Terceira Guerra Mundial. Este é apenas o primeiro paralelismo de Akira com o desenvolvimento de um Japão pós-guerra. Ao longo do filme existem inúmeras metáforas e comparações que tornam este filme em muito mais que um simples eye candy. Akira não é só apresentação vistosa; é, também, um retrato da evolução psicológica do país onde a acção decorre.

És, então, apresentado a neo-Tóquio, uma cidade altamente futurística, num estilo cyberpunk, caracterizada por néons e arranha-céus dos quais nem se vê o topo. A sequência inicial introduz Kaneda, o líder de um dos gangues de motoqueiros que aterrorizam a cidade, acompanhado pelo seu grupo, enquanto entram em confronto com outro gangue rival. Este desacato leva a que Tetsuo, amigo de Kaneda, encontre uma criança com ar envelhecido na estrada e se despenhe. Desde logo, numa sequência excelentemente animada, percebes a facilidade com que o mestre Otomo sabe captar a atenção do espectador.

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Tetsuo, inconsciente, é, então, levado por uma agência militar, onde realizam diversos testes, levando a que este acorde com poderes sobrenaturais que não possuía antes, como por exemplo, a telecinesia. A partir daqui verificas um rápido crescimento do mesmo, à semelhança da forma como o Japão se re-ergueu após a Segunda Guerra Mundial. Existem muitos mais paralelismos, mas para manter esta análise sem spoilers, terás de as descobrir por ti próprio durante e/ou após o filme, pois este é muito mais inteligente do que o que transparece.

O que impede Akira de ser flawless acaba por ser a narrativa. O facto de o manga ser extensivamente detalhado, torna impossível de ser representado num filme de 1 ou 2 horas. Isto leva a que a mesma acabe por se condensar de tal forma que deixa mais perguntas do que respostas no fim, o que é certo que espicaça a curiosidade do espectador, mas obriga em parte a recorrer à leitura posterior.

Com o protagonismo divido, tenho ainda a apontar que Kaneda podia ter mais sumo, no sentido em que age como age sem motivações. Certo que também deriva do ambiente onde cresceu, mas acaba por derrotar o propósito de te afeiçoares ao objectivo das personagens. Mesmo no caso dos anti-heróis encontras sempre uma motivação. Tetsuo é, claramente, o vencedor na disputa pela evolução moral e psicológica. Tanto Kaneda como Kei, uma rapariga que pertence a uma agência e se torna o próximo desejo de Kaneda, têm um papel e evoluções muito mais preponderantes no manga (que, posteriormente, será analisado em comparação ao filme).

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Embora a narrativa acabe por se atropelar, Akira excede todas as expectativas na vertente técnica. Tem em conta que os visuais são todos desenhados à mão, portanto, existe um detalhe acrescido em todo e qualquer plano, o que potencia imenso o que o autor quer transparecer em cena. A cidade é, simplesmente, deslumbrante e as alucinações que atormentam Tetsuo são horripilantes – isto apenas para mostrar o nível de contraste visual que Otomo procurou.

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Um dos pontos principais na concepção do filme foi o uso da luz como indicador do ambiente que precisava de ser transparecido, mesmo numa altura em que estariam dentro de divisões, as próprias janelas reflectiam néon – isto para simbolizar a personalidade forte que o mesmo quis dar a neo-Tóquio, sendo que de acordo com o próprio a cidade é também uma personagem fulcral para o filme.

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Com uma equipa e o seu conjunto de técnicas de alto calibre e uma mente tão complexa como a do Katsuhiro Otomo, todos os departamentos actuam de forma genial sempre que necessário, seja na representação visual ou sonora. Akira desenvolve-se a um ritmo desenfreado, não deixando um único segundo morto nesta tarefa hercúlea.

Sucedido de inúmeras homenagens, esta longa-metragem de pouco mais de duas horas conquista o Oeste sem nunca o pretender, mas como nunca ninguém o fez.

Não só ímpar na revolução que trouxe à animação, Akira introduz um paralelismo genial entre o desenvolvimento de um Japão depressivo e ansioso no período pós-guerra, e todos os receios que se pudessem concretizar. Com um pontapé na porta, Otomo entrou triunfante para a história do cinema, deixando uma marca que, muito dificilmente, será esquecida.

Akira encontra-se disponível na Netflix.


E tu, já viste ou pensas em ver Akira? O que mais apreciaste neste filme?