Se Assassinos da Lua das Flores pudesse ser resumido numa única expressão, seria: obra de arte. Esta expressão não é alheia ao repertório do cineasta, mas a verdade é que esta é uma obra que, apesar da necessidade de se limar umas (poucas) arestas, é uma obra soberba, e que não deve ser ignorada pelo grande público. Mas além de soberbo, este filme tem outro adjetivo a ele atrelado: importante.

Martin Scorsese é um realizador que se questiona a si próprio nas obras produz. Em mais do que uma ocasião, revisita os temas que já trabalhou anteriormente, dando-lhes uma nova visão de alguém que, além de evoluir dentro da indústria, cimentou o seu nome como uma lenda do cinema norte-americano. Se nas décadas de 1970 e 1980 o realizador começou uma jornada de glorificar a violência do crime organizado nas suas obras de maior renome, com a alvorada do novo século, Scorsese começou procurou reinventar-se, num eco do seu repertório. Se em Tudo Bons Rapazes e Casino o realizador ressaltava a realidade do crime, glorificando uma violência, por vezes, exagerada, n’O Irlandês a violência já é mais comedida, cansada, um eco. As questões relativas à fé que o realizador levantou n´A Última Tentação de Cristo não são as mesmas que em Silêncio. O passado e o presente vivem simultaneamente na obra de Scorsese, o que torna esse filme ainda mais entusiasmante.

Pela primeira vez, aos 80 anos de idade, Martin Scorsese realiza um western. Mas não da forma mais comum ao género, cheio de ação e com um protagonista silencioso, mas mortal. Pelo contrário, este filme é uma antítese aos blockbusters modernos. Ávido crítico da “fórmula Marvel” e da supremacia dos filmes de super-heróis, Martin Scorsese desenhou uma obra intimista, focada tanto nas personagens como no próprio cenário e época em que a narrativa se desenrola.

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Assassinos da Lua das Flores é uma adaptação da obra de não ficção do autor David Grann, e, com recurso à redundância, é um filme violento. Mas não da forma que um filme como Casino o foi. Se a violência nessa película era fria, visceral e desprovida de empatia por parte do espectador, aqui a abordagem é outra. Scorsese é um realizador maduro, e este “pseudo-relato histórico” procura resgatar o real sentido desta palavra tão defasada na boca de todos nós. Porque sim, por mais que saibamos o que significa, a palavra “violência” não tem o peso que deveria ter.

À semelhança do livro do qual se baseia, o filme retrata um triste episódio da história dos Estados Unidos, onde a ganância e a crueldade do povo branco dos Estados Unidos esteve na origem do genocídio de diversos membros da tribo Osage, no Oklahoma. Após terem sido deslocados do seu território natal, a tribo Osage descobriu petróleo nas suas terras. Como tal, a sua riqueza expandiu, assim como a sua influência. Os Osage andavam de carro com motorista, investiam na cultura, tinham herdades, petrolíferas, mordomos e acesso a tudo aquilo que o “ouro negro” poderia fornecer. Naturalmente, largas comunidades procuraram estas comunidades de Osage, fazendo de tudo para receber alguma parcela da riqueza da tribo.

Foi o caso de Ernest Burkhart, interpretado por Leonardo DiCaprio. Ernest é um veterano da Primeira Guerra Mundial, e, retornado a casa, procura ganhar dinheiro de qualquer forma. Como tal, procura trabalho junto do seu tio William The KingHale, interpretado por Robert De Niro. Após a sua chegada a Oklahoma, Ernest conhece Mollie, uma mulher Osage, interpretada por Lily Gladstone. Pouco após conseguir estabelecer contacto com Mollie, Ernest procura fazer de tudo para conseguir criar uma relação com a mulher Osage, enquanto os assassinatos aos restantes membros Osage disparam a uma velocidade galopante.

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A história de “Assassinos” procura estabelecer quem foi o culpado pelos assassinatos dos Osage. Scorsese sabe que uma abordagem rasa a esta história seria desrespeitoso, simultaneamente, para com os Osage como para com os espectadores. Aqui, a abordagem é outra. Sim, o homem branco foi o culpado. Sim, foi uma tragédia o que aconteceu aos Osage. E sim, não foi um acontecimento isolado que desencadeou esta tragédia, mas um acumular de ações que se estenderam ao longo de décadas. E, no centro da narrativa, está Ernest.

Ernest não é um homem bom. Nem o Scorsese o procurou retratar como tal. Mas há muito mais do que se diga em relação à personagem. Claramente a guerra teve um efeito na forma como Ernest interage com as pessoas. Com um semblante mais sisudo, o Ernest de DiCaprio é alguém que, simultaneamente é mau, mas que carece tanto de inteligência em algumas situações que o próprio espectador se poderá questionar relativamente à moralidade das suas ações. Sim, o que a personagem faz ao longo da película é imperdoável, mas também há uma certa inocência em Ernest. Na forma em que age, pensa, fala e vislumbra toda a violência à sua volta. Parece que tudo aquilo que sente e pensa lhe foi incutido por alguém. Sem querer entrar em muitos detalhes, mas numa das primeiras cenas em que vemos a personagem de DiCaprio podemos ver este pensamento em ação. E quando questionado, o próprio se sente atrapalhado no ato da resposta.

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O mesmo não pode ser dito em relação ao “King”. Se Ernest já era fascinante de um ponto de vista psicológico, a personagem de De Niro é a mais interessante de todo o filme. William é o retrato da América do século XX. Cheio de preconceitos, esquemas e com uma moralidade tão dúbia e deturpada que o espectador nunca sabe ao certo o que é que a personagem está a pensar. Quando o filme começa, somos levados a pensar que existe uma culpa dentro do “King”. Que talvez tenha acontecido algo no seu passado que tenta remediar junto dos Osage. O auxílio é tanto que, por um instante, acreditamos na bondade da personagem. Mas, com o passar da película, Scorcese vai revelando mais e mais sobre a personagem, e mais perturbador fica. Seja pelos esquemas, pelo ego da personagem ou pela pura ausência de uma bússola moral. É fascinante, e De Niro interpreta este papel na perfeição.

Apesar de compreender o papel que desempenha dentro do argumento, a personagem de Mollie não foi tão fascinante como as supracitadas. Não que tenha sido uma personagem mal desenvolvida, longe disso. Mollie serve, simultaneamente, como uma ponte com a cultura Osage e como a bússola moral da narrativa. É a primeira a questionar a natureza destes assassinatos, enquanto desempenha o papel de mulher de Ernest, de filha que trata da mãe doente e de mãe. Tudo isto, enquanto tem um alvo nas costas. Contudo, dada a situação em que a personagem se encontrava, achei apenas que a personagem poderia demonstrar mais emoção. Por diversas vezes, era estoica demais em momentos que puxavam por mais emoção.

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Sabendo da génese da tragédia em questão, Scorsese procurou representar a cultura Osage de uma forma respeitosa. O realizador apresenta-a de uma forma natural. Não ressalta as diferenças, mas apresenta-as como se o espectador já estivesse familiarizado com a cultura Osage. Se, por um lado, muitos detalhes ficam sem explicação, por outro, o realizador convida o espectador a interpretar cada um dos elementos presentes no ecrã com base naquilo que já foi apresentado.

Por outro lado, a abordagem à cultura americana também foi interessante. A história tem início no começo da década de 1920, e a prosperidade económica da nação americana reflete-se num entusiasmo e a alegria um pouco por todo o Oklahoma. Contudo, no decorrer da película, Martin Scorsese começa a apodrecer a soberania da América. Os gritos de entusiasmo são substituídos por gritos de preconceitos raciais, os passeios na rua assumem outro caráter e a inocência do começo do filme fica maculada, e a morte e a angústia tomam conta das ruas. E o realizador retrata estas mudanças de uma forma bastante subtil, porém perceptível.

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Contudo, o filme tem alguns pontos menos positivos. A banda sonora, por exemplo. Apesar de bastante estilizada (e acompanhada por alguns dos sucessos da época), é uma banda sonora ambiente. Muito provavelmente o espectador vai sair do filme a cantarolar alguma música na cabeça.

A criação do FBI também merecia mais algum destaque. Apesar desta não ser uma história sobre o FBI ou o papel que desempenhou nesta história, teria sido interessante ver um pouco mais do modus operandi desta instituição tão controversa ao longo da História. Afinal, aquando do começo da película, o FBI ainda se encontrava na sua “infância”. Só a partir do terceiro ato é que o espectador de facto vê o FBI a desempenhar um papel de relativa importância.

Por vezes, a História tem algumas “vírgulas” com uma importância imensa, mas apagadas pelo tempo. Histórias de grandes tragédias, genocídios e grandes perdas são descartadas por não terem o mesmo apelo que outras ainda maiores, por mais mórbido que seja. Os Osage sofrem até hoje com os assassinatos retratados no filme, porém são poucos que conhecem este capítulo da história americana numa escala global. É por isso que o cinema é importante, porque apresenta estas “verrugas” ao grande público. E é por isso que Assassinos da Lua das Flores é importante. Este não é um relato 100% verídico da história dos assassinatos, já que apresenta algumas incoerências para com a realidade. Mas é importante por uma miríade de motivos. Por apresentar esta tragédia a um público ainda maior que o livro alguma vez o poderia fazer. Por ser um pedido de desculpas de um realizador que passou décadas a glorificar a violência. Por ser um grito de reconhecimento de uma cultura tão maculada pela ganância do homem branco.

CONCLUSÃO
Obra de arte!
9
assassinos-da-lua-das-flores-analiseQualquer obra de arte fica com os espectadores após o consumo da mesma. E Scorsese produziu uma obra de arte.