Normalmente faço uma pseudo-apresentação do jogo cuja análise irei fazer, mas no caso de uma propriedade como Avatar, com mais de 5(!) mil milhões em bilheteira, e três sequelas por chegar, seria como chuva numa piscina.

Quando comecei Avatar: Frontiers of Pandora, embora tivesse lido bastantes comentários positivos sobre a experiência, não esperei ficar tão imerso no lindíssimo mundo de Pandora. A Massive Entertainment, equipa por trás de The Division, usou o seu motor Snowdrop para trazer às consolas uma aventura que poucas outras o conseguiriam fazer.

A história de Avatar: Frontiers of Pandora, embora decorra em paralelo com a narrativa de Way of Water, não requer ao jogador que tenha visto ou sequer ouvido falar sobre o mundo. Assumimos o papel de um membro do clã Sarentu que se encontra no programa TAP, uma espécie de lavagem cerebral para os Na’vi são raptados enquanto bebés e treinados para passarem a ser mais humanos. Enquanto isto, os humanos “originais” ocupam-se com a destruição de Pandora através de várias instalações industriais, o que leva a uma insurreição no programa para que possamos regressar a casa e começarmos a restaurar a harmonia ambiental.

É-nos oferecida a possibilidade de personalizarmos os nossos Na’vi, e embora as opções sejam bastante limitadas, existe margem de manobra para não andarmos todos iguais. Após a clássica introdução durante a fuga das instalações onde éramos educados, somos largados em Pandora para reunirmos forças e tomar de volta o que os humanos estragaram.

Um grupo de pessoas em frente a uma tela de computador analisando o jogo Avatar "Frontiers of Pandora".

Contrariamente aos filmes, e numa boa lufada de ar, os humanos são praticamente figurantes na participação e desenvolvimento da narrativa. Claro que temos pontos de contacto como Priya, que nos podem orientar para o objetivo, mas são raras as vezes em que o que fazemos “tem” de passar por eles. Aliás, quase todas as missões que nos são atribuídas por humanos são fetch quests, ou tempo gasto em tudo menos desenvolvimento emocional, pelo que aconselho a manterem-se focados nas tribos Na’vi.

Já os Na’vi, foram demasiados para conseguir decorar os nomes de todos. Sinceramente? Lembro-me de 3, e é porque vendiam coisas fixes ou tiveram um momento dramático. Acaba por ser uma situação oito ou oitenta, em que os humanos pouco participam e no que participam é de forma negativa, e os Na’vi são sobrexpostos, não numa perspetiva geral, mas mais pessoal, ou seja, claro que vão existir imensos Na’vi com que temos de falar, mas as missões principais obrigam-nos a passar por demasiados nomes e que pouco relevância têm mais tarde.

Em suma, o desenvolvimento narrativo acaba por seguir vários clichés à trama Hollywood, no entanto, cria momentos bastante emocionantes e procura dar peso ao desenrolar das missões, ao invés de nos dar tarefas separadas que nada têm em comum.

Lê mais:  Metal Gear Solid: Master Collection Vol.1 | Análise
As mãos de um avatar alienígena em um quarto escuro.

Como crescemos no programa TAP, não temos qualquer noção das tradições Na’vi, muito menos do que é fazer parte de um clã. Assim sendo, a Massive envolve a narrativa muito bem com a jogabilidade, ensinando-nos a ser Na’vi. Desde lutar, colher frutos e plantas para cozinhar, caçar e imediatamente respeitar devidamente as presas, criar laços com um Ikran para voar, entre muitos outros.

Normalmente desprezo por completo os sistemas de crafting que estes jogos oferecem, mais porque prefiro a vertente de exploração do que achar que os sistemas estão mal feitos, mas em Avatar, como o tema da natureza é tão presente, acaba por nos incentivar a querer saber que plantas existem e o que é que podemos ganhar com as mesmas. Claro que o que podemos fazer acaba por cair na gíria Ubisoft: armaduras melhores e/ou comida, mas mesmo na vertente da caça, temos de acertar no ponto fraco dos animais para conseguirmos extrair os recursos de forma imaculada.

O tempo em Pandora é raramente mal passado, seja a destruir estações ridiculamente poluentes, procurar pontos de desenvolvimento para as nossas habilidades ou caças a tesouros, não faltam motivos e pontos de interesse ao explorar o mundo. Para além destas atividades secundárias, temos claro, atividades terciárias como equipamento perdido ou murais de clãs, que embora em menor número, também estas têm animações próprias e desvendam locais lindíssimos. Foi um dos jogos em que mais me diverti a explorar, principalmente pela vertente co-operativa que o jogo também inclui, o que permitiu que eu e o Diogo Lopes passássemos o jogo todo em conjunto.

Aqui vem o meu calcanhar de Aquiles: o combate. Não é que desgoste de combate nos videojogos, mas sinto que neste caso, principalmente as armas de fogo eram evitáveis. O que não falta são exemplos para tirarem ideias de como lidar com robôs gigantes, aliás, Horizon Forbidden West é bastante gabado por isso mesmo. Ao invés disto, o combate resume-se a arcos ou armas de fogo. Podemos ainda colocar armadilhas mas em nada nos adianta em instalações com dezenas de inimigos. Perdeu-se uma excelente oportunidade para introduzir combate corpo a corpo, principalmente quando fomos treinados por uma célula militar. Isto leva a que muitas vezes tivéssemos de recorrer a ação furtiva, e quando éramos apanhados, nem tínhamos tempo de fugir tal era a bananada que levávamos. Não só mancha a pegada que Pandora traz consigo como as próprias animações nem se enquadram no resto do jogo.

Lê mais:  EA SPORTS WRC | Novo vídeo Deep Dive revela recursos empolgantes

Podemos desbloquear dezenas de habilidades em vários caminhos, mas ainda assim fica a oportunidade de se distanciar do tradicional shooter, algo que não conseguiram fazer. Como os pontos de habilidades se encontram distribuídos pelo mapa, conseguimos facilmente preencher a árvore completa, evitando ter uma abordagem específica. Para além das comuns, existem ainda habilidades Ancestrais, sendo estas buffs passivos ou interações novas, como por exemplo não gastarmos recursos a fazer fast travel ou conseguirmos puxar os pilotos que se encontram dentro dos AMPs (robôs gigantes).

Quando mencionei o quão lindo este jogo se apresenta, não era uma hipérbole, arrisco-me até a afirmar que é, de longe, uma das melhores experiências visuais desta geração. Pandora não só comporta vários biomas, como ainda os complementa com um ciclo dia-noite completo e um sistema meteorológico, ou seja, a mesma zona é completamente diferente durante o dia e à noite.

Claro que ajuda ter uma base visual já por si bastante forte, que é o caso dos filmes de James Cameron, mas mesmo a bioluminescência do ambiente transforma as noites num espectáculo visual praticamente ímpar. Mesmo a vegetação, sendo exuberante, reage ao nosso toque, o que nos permite observar todos os detalhes e que carta de amor que estes detalhes são. Claramente que houve muito tempo passado na wiki de Avatar porque o fan-service, desde as tribos às plantas, é sublime.

Enquanto exploramos e apanhamos plantas é tudo lindíssimo, os problemas começam quando abrimos o mapa… Não percebo como é que algo tão simples como uma legenda não foi incluída na navegação, pois cada vez que queria perceber onde estava o objetivo no mapa, tinha de sair do mapa (só aqui já começa o fartote), usar os sentidos Na’vi para fazer uma volta 360 até encontrar o ponto, voltar ao mapa e andar sempre em frente até encontrar um ponto que nem sequer era destacado, era só uma mini nuvem basicamente. O optimista em mim via isto como uma aventura dentro de uma aventura mas muitas vezes não havia optimismo que chegasse.

Em suma, creio que o rótulo Ubisoft afastou muitos críticos, acreditando ainda que muitos deles nem jogaram cinco horas, o que levou a críticas injustas, culminando com uma pontuação dos utilizadores superior à da média na Metacritic, o que é bastante raro. Avatar: Frontiers of Pandora é um título que respeita, e em algumas vertentes eleva a criação de James Cameron, trazendo assim cotovelos para fazer frente aos muitos titãs deste incrível ano na indústria dos videojogos.

CONCLUSÃO
Digno de Eywa
8
avatar-frontiers-of-pandora-analiseA Massive Entertainment afasta-se da sua especialização e ainda assim consegue trazer uma das melhores experiências em primeira pessoa de 2023. Avatar: Frontiers of Pandora é uma obra que presta homenagem ao material de origem e aproveita a liberdade dos videojogos para expandir a imersão em Pandora.