Do criador de Penny Dreadful e Pure Genius, chega-nos Away, uma produção Netflix que promete levar-nos numa incrível e emocionante viagem através do espaço e até Marte! Uma série que me despertou imenso interesse mas que, infelizmente, e após apenas passado um mês do seu lançamento, já foi cancelada devido à pouca popularidade da mesma. Posto isto, e visto que óptimas séries têm vindo a ser canceladas por tudo e por nada ultimamente, porque não analisarmos se esta mereceria outra oportunidade?
Away leva-nos a bordo de Atlas, uma nave espacial inspirada no modelo real da SpaceX desenvolvida pela NASA. A bordo encontramos uma equipa internacional que junta o melhor de cada nação que actualmente compete pelas conquistas espaciais: Rússia, China, América, a que se junta a Inglaterra e a Índia. Cada país é representado por um tripulante que é simplesmente o melhor na sua área.
Desde já, tenho uma grande admiração pela personagem de Lu Wang, uma mestre em química, interpretada brilhantemente por Vivian Wu. Sendo que o que mais gostei de Away foi as camadas humanas que vão sendo desvendadas a cada episódio, Lu carrega um papel algo controverso, e que nos mostra o quanto certos países ainda têm de evoluir enquanto sociedade. Esta é também uma das personagens com maior evolução ao longo da temporada.

A par de Lu temos o cosmonauta e engenheiro Misha Popou, interpretado por Mark Ivanir. Um personagem bastante durão, mas muito, muito humano por dentro, que só procura se redimir dos erros do passado e deixar a família orgulhosa do seu Popou. Kwesi Weisberg-Abban, interpretado por Ato Essandoh, tem um enorme peso às costas com um personagem Judeu de nacionalidade Britânica e de origens do Ghana. Este é o botânico a bordo que tem como missão plantar um jardim em Marte.
Por último temos Ram Arya, interpretado por Ray Panthaki, o médico indiano a bordo, e a líder da equipa desta expedição, Emma Green, interpretada pela actriz vencedora de um Oscar, Hilary Swank, que representa a NASA.

Como já seria de esperar, Andrew Hinderaker leva-nos numa jornada extremamente complexa, onde acompanhamos não só os perigos e peripécias que a equipa do Atlas enfrenta na sua trajectória para Marte, mas também os desafios emocionais das ligações que ficaram na terra. Nisto, o maior foco é, sem dúvida, a família de Emma, com Matt, o seu marido, também ele engenheiro na NASA, e Alexis, a sua filha adolescente, que terá de crescer rapidamente para superar a ausência da sua mãe e tomar conta do seu pai.
Esta trama sobre a família de Emma Green funciona, sobretudo, para dar maior consistência à humanidade desta estória, e aqui e ali, até que nos sentimos envolvidos e intrigados com o seu desenvolvimento, não servindo, portanto, totalmente só para encher chouriços. Diria mais que Matt é, sim, uma personagem que se sente a mais. Aliás, o actor não é capaz de expressar qualquer emoção ao longo da temporada inteira e, ainda por cima, vemos erros como este a mexer as pernas quando é suposto estar paralisado. Mas já Alexis tem uma verdadeira jornada.

Com todas as cartas em cima da mesa, a atmosfera e a evolução das situações ao longo da temporada funcionam melhor que pão com manteiga. Praticamente não te sentes a consumir O2 sempre que há algum problema com a nave, sendo estas cenas espaciais altamente intensas e realísticas. A adicionar, não consegues deixar de te sentires envolvido emocionalmente com todas as personagens e as suas tramas, à excepção do Matt, que passa os episódios inteiros com cara de enjoado.
No entanto, há um grande defeito na escrita destes episódios, que se reflecte como um reset quase total das personagens a cada episódio. Temos episódios em que estas se abrem totalmente e evoluem dentro do espírito de Away, mas estupidamente no episódio a seguir “nada se passou”. Não é que os acontecimentos sejam ignorados totalmente, mas sente-se uma desconexão entre, por exemplo, a Lu do episódio anterior, e a Lu no seguinte.

Colocando agora a estória e personagens de lado, toda a produção de Away foi incrivelmente exigente e, contudo, bem executada na sua generalidade, apesar de algumas lágrimas escorrerem indevidamente quando deveriam flutuar, mas são erros ponctuais como o movimento das pernas de Matt logo após ser diagnosticado.
A nível de banda sonora, praticamente não a sentes, mas sobressaem alguns trechos aqui e ali, nomeadamente de Rocket Man de Elton John, Achy Breaky Heart de Billy Ray Cyrus e On Brûlera de Pomme para exaltar o mood das cenas no ecrã.

Apesar de já ter sido cancelada, Away demonstra na sua primeira temporada uma elevada qualidade de entretenimento, e em apenas 10 episódios, cumpre com todas as premissas a que se propôs, com um desfecho completamente satisfatório para a ausência de sua continuação.
Away já está disponível na Netflix.





























