Existem milhões de ideias para videojogos, o principal problema é conseguir materializá-las, ainda para mais quando os custos de produzir um videojogo estão constantemente a subir. Para uma equipa conseguir desenvolver um jogo, ou utilizam poupanças pessoais, ou consegue financiamento de investidores, o que muitas vezes depende da visão dos investidores, ao invés da qualidade dos jogos.

Para o destaque de hoje temos a história de Matthias Linda, um dev a solo que há 7 anos atrás começou a trabalhar num jogo que visualizou como o seu RPG ideal. Ora, Matthias, ao contrário das duas opções que mencionei, recorreu à corajosa opção do kickstarter para tentar financiar o seu jogo. Felizmente, tudo correu bem e Linda, juntamente com a comunidade conseguiu concretizar a sua visão, resultando em Chained Echoes, um dos melhores RPGs dos últimos anos.

História

A nossa aventura decorre em Valandis, um continente devastado pela guerra que decorre entre Taryn, Gravos e Escanya, os três principais reinos (olá 1984). Normalmente a palavra devastado é utilizada de forma incorrecta, pois nem sempre reflecte a escala dos acontecimentos, mas em Chained Echoes creio que encaixa que nem uma luva, pois a guerra entre os três reinos decorre há centenas de anos, passando de geração em geração, tornando-se no quotidiano do comum cidadão.

Começamos com um breve prólogo 5 anos antes da acção principal, onde Glenn e Kylian, 2 mercenários e pilotos Sky Armor (os Gundam de Chained Echoes), despoletam um acontecimento de tal magnitude que leva a uma tensa trégua entre todos os intervenientes do conflito. Esta trégua não assenta bem com alguns cidadãos, levando-os a tentar encontrar a grand grimoire, a pedra que causou a catástrofe. Glenn e Kylian, à semelhança de inúmeros outros cidadãos, partem numa jornada pela grand grimoire, iniciando uma aventura que cruza caminhos com vários futuros membros da nossa equipa.

Chained Echoes tem uma duração um pouco excessiva quando comparado aos famosos RPG de 16-bits, no entanto, a história nunca se sente desnecessária. São apresentadas novas personagens com frequência, tanto aliados como vilões, tendo todas um passado ou motivos que se interligam de forma natural com a progressão da história. Encontramos ainda um pouco de tudo, humor, tragédia, mistério, e nenhum destes elementos prolonga a sua estadia em demasia, oferecendo um bom equilíbrio. Existe também uma clara diferença para quem apenas queira ver o desenrolar da história, que dura cerca de 30 horas, e quem almeja à glória suprema, visto que esta duplica o tempo de jogo.

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Mundo

Chegámos à minha parte favorita: a exploração. Chained Echoes raramente nos dá a mão no que toca aos passeios pelo mundo. Para além de explorarmos as belas terras de Valandis, temos ainda a oportunidade de explorar os céus através dos Sky Armor. Temos vistas variadas e recheadas de brindes para quem vira todas as pedras, sejam cavernas escondidas ou simplesmente aldeões que requerem a nossa ajuda, ou, pelo meio, podemos tornar-nos no suprassumo do pedra papel tesoura, um título mais que digno.

Claro que não seria um bom RPG se não tivesse em conta o incrível legado de Suikoden. Brincadeira (mas a sério, joguem Suikoden), mas, ainda dentro do tema, a partir do momento em que lá chegamos, tomamos controlo de uma ilha que serve como quartel general para a nossa armada, onde podemos a recrutar novos membros para as fileiras.

Estes membros irão ajudar-nos de diversas formas, seja com habilidades próprias como Vesta, que nos ajuda a localizar baús por escondidos ou por abrir, ou Linus, um cão que passeia pela Underground City que se junta a nós caso o consigamos apanhar, emitindo depois vários sons aleatórios quando interagimos com ele. Entre estas habilidades ou simples buffs para as batalhas, será do vosso maior interesse recrutar o máximo de NPCs.

No entanto, não se devem ficar pelo recrutamento. Alistem-se na Adventurer’s Guild, de forma a poderem caçar monstros únicos com recompensas que farão o trabalho valer a esforço.

Jogabilidade

Se alguns jogadores acham que quatro membros numa party já são bastantes, não precisam de imaginar ter o dobro, pois é exatamente o que Chained Echoes permite. Escolhemos oito corajosos para liderar as hostilidades, sendo que nas batalhas estes se dividem em dois grupos, os titulares e os suplentes. Podemos trocar de personagem em qualquer altura, no entanto, as trocas têm limites, ou seja, só podemos trocar as mesmas personagens uma vez, e se desmaiarem não as podemos trocar de todo, o que acredito já estar implícito mas convém avisar na mesma.

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Embora vastamente inspirado nos clássicos, Matthias decidiu reinventar algumas mecânica que na minha opinião melhoram o tradicional combate por turnos.

O sistema Overdrive tanto funciona a nosso favor como prejuízo. Este é potenciado pelas diversas habilidades, sendo que se utilizarmos as correctas, o medidor passa para a zona verde onde recebemos imensos benefícios como redução do custo das habilidades. Caso utilizem as habilidades “erradas”, o medidor passa para a zona vermelha onde o oposto acontece. Basicamente têm de utilizar as habilidades que avancem o medidor para a zona verde, o que ajuda a refrescar o combate, evitando o tradicional X, X, X, X para acabar rápido com os turnos.

Quando as batalhas terminam todos os membros ativos da equipa recebem SP, um recurso que permite melhorar as habilidades. Para além disto, recuperam de quaisquer danos sofridos, que embora incomum, é bastante aliviante pois não tive de me andar a encher de poções.

Chained Echoes é desafiante no que toca à dificuldade, mas com a preparação certa, não haverá batalha em que não triunfem.

Audiovisual

Bem, se ainda não viram pelas imagens, deixem-me reforçar: Chained Echoes é lindíssimo.

Mesmo através dos 16-bits, o ecrã preenche-se de pequenos pormenores que ajudam a rechear a viagem, fruto de uma atenção ao detalhe que merece todo o meu louvor. Não chegasse a qualidade visual, também as animações são eloquentes e transmitem a quantidade certa de emoção, vincando a personalidade das várias personagens.

Embora o diálogo não tenha voz, a brilhante banda sonora colmata isso com tremenda facilidade. Composta por Eddie Marianukroh, é diversa e adequada aos vários momentos, com 50 faixas de range entre o épico e o sereno.

Breviário

À semelhança de muitos outros, Chained Echoes puxa inspiração dos clássicos, mantendo no entanto o factor mais importante intacto: a sua identidade. Com reviravoltas e humor na narrativa, um belíssimo mundo por explorar e um sistema de combate dinâmico, não se deixa cair vítima do sobreuso e refresca a fórmula com adições que permitem longas sessões de jogo de pura aventura.

Chained Echoes já está disponível para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e na Steam para PC, Mac e Linux.

CONCLUSÃO
Épico
9.1
chained-echoes-analiseSão poucas as pessoas que conseguem conceber um produto final sem prejudicar a sua visão portanto creio que Matthias Linda se pode sentir bastante orgulhoso de Chained Echoes.