Após um lançamento atribulado do videojogo Cyberpunk 2077, em 2020, que apesar de conter uma história e um mundo verdadeiramente interessantes, continha também um monte de bugs e glitches que estragavam a experiência ao jogador, nunca pensaria que, tal como uma fénix, esta franquia poderia renascer das cinzas, e que este jogo poderia voltar a ganhar o hype que já havia tido, antes do tal lançamento. Porém, para prazer meu, Edgerunners foi anunciado, um anime desenvolvido pelo Studio Trigger, responsável por séries animadas como Kill la Kill, Little Witch Academy, ou até mesmo um episódio do Star Wars: Visions, baseado no universo de Cyberpunk 2077, e tornou-se o sucesso que eu esperava que fosse.

Este estúdio sempre foi bastante famoso por animes completamente over-the-top, em que tudo de maluco podia acontecer num episódio, como explosões, lutas de naves espaciais, batalhas intermináveis de vida ou morte, entre outros, porém, recentemente numa entrevista entre Joey (TheAnimeMan) e o diretor do Studio Trigger, Masahiko Otsuka, ele próprio contou que era uma das primeiras vezes que iam desenvolver um anime para adultos, com gore e conteúdo sexual, ambos já bastante presentes no videojogo Cyberpunk 2077, visto que a cidade em que o jogo se ambienta, Night City, é “governada” pela criminalidade, violência e sexo, com o slogan de “não confies em ninguém em Night City”.

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Então, antes de entrar no conteúdo do anime, quero só rapidamente mostrar o meu amor incondicional por Cyberpunk 2077, o tão criticado videojogo. Comprei-o à volta de um ano atrás, em promoção, e devo dizer que qualquer cêntimo que gastei valeu a pena, já que recebi uma das melhores experiências de sempre que tive com um jogo de vídeo, desde a história incrível em que seguíamos a nossa personagem, V, na sua jornada de se livrar do “engrama” de Johnny Silverhand do seu cérebro, até ao soberbo side-content que o jogo continha, isto claro, estando também muito mais polido do que na altura de lançamento, já com poucos bugs, sendo que nenhum arruinava diretamente a experiência de jogo.

E, talvez essa seja a principal razão por que gostei tanto de Edgerunners. O sucesso deste anime não vem só da sua animação, mas sim da história, das personagens e do mundo, todos orquestrados da mesma, porém excelente, maneira que a CD Projekt Red mostrou logo com a franquia The Witcher. Night City, a cidade que tanto Edgerunners e 2077 são ambientados, respira charme por todos os lados, trazendo uma junção de sci-fi “à-lá” Blade Runner, de um estilo cyberpunk e de cultura japonesa de uma forma praticamente perfeita, com obviamente todas as luzes néon predominantes deste género, que criam uma cidade não só visivelmente maravilhosa, mas mais importante do que isso, credível, que mostra muito bem o que poderia ser uma grande cidade num mundo futuro.

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Tal como Cyberpunk 2077, Edgerunners traz também uma história cujo principal foco é em relações humanas. Isto é um pouco irónico, já que como referi anteriormente, Night City não é de todo a cidade para “fazer amigos”. Porém, em 2077 acompanhamos a relação de V com variadas personagens, como Panam, Judy, Jackie Welles, e principalmente, Johnny Silverhand, e em Edgerunners acontece o mesmo, já que após a morte da sua mãe, David Martinez depende da sua fiel equipa para “renascer”, com o objetivo de se tornar numa lenda de Night City, de honrar a sua mãe, que dificilmente conseguia pagar as contas e a inscrição de David na academia da Arasaka, e principalmente de cumprir o desejo de Lucy, e de a levar à Lua, algo que ela apenas tinha conseguido fazer com uma neuro-dança, uma espécie de simulação.

No geral, a história de Cyberpunk Edgerunners gira então à volta deste tal David Martinez que, depois de perder a sua mãe e ter sido expulso da Academia da maior corporação do mundo, a Arasaka, está sozinho e sem rumo, porém possui um implante Sandevistan removido de um cyber-psicopata, e então resolve instalar esta máquina militar, que reduz o tempo à volta do portador, e torna-se então um Edgerunner, um mercenário que se junta a uma equipa e passa a realizar alguns trabalhos sujos em troca de Eurodólares, a “moeda” de Night City. Porém, usar este implante alberga diversos perigos para David, incluindo o desgaste do seu cérebro ao longo do tempo, que aumenta as possibilidades de cyber-psicopatia.

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Algo que aprecio imenso neste paralelismo entre as histórias de Cyberpunk 2077 e de Edgerunners é a presença de uma, ou várias personagens “de conforto”, cujo propósito é não só contribuir para a evolução da história, mas também trazer a tal sensação de conforto para quem está a assistir o anime, ou a jogar o videojogo. Em Cyberpunk Edgerunners, esta personagem é indisputavelmente Lucy, que funciona como o ponto de “mudança” para o nosso protagonista. David acaba por conhecê-la numa viagem de metro, onde a encontra a furtar os chips dos transeuntes presentes no metro. Dessa forma, ele acabou por se juntar ao grupo de mercenários onde ela se encontrava, e acabaram por criar uma relação adorável entre os dois, fazendo a Lucy subir no ranking dos fãs de “best anime girl of the year”.

No geral, Cyberpunk Edgerunners é composto por variadas personagens que contribuem imenso para o desenvolvimento da trama, quer sejam membros do grupo de David, como a favorita dos fãs Rebecca, ou também os antagonistas. Apesar de Faraday ter sido indicado como o principal vilão da história, tal como em Cyberpunk 2077, o principal “mal” presente foi a Arasaka, ou até mesmo as corporações no geral, já que a Militech e a própria Trauma Team não deixam de ser caluniadas na série.

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Atualizacoes-da-segunda-temporada-de-Cyberpunk-Edgerunners-havera-outra-temporada  

Além destas personagens, estiveram também presentes alguns elementos importantes na história do videojogo, desde pessoas até lugares. Não direi aqui quais são, já que todo o sentimento de felicidade ao encontrar os pequenos “easter-eggs” vem a partir da descoberta, mas eu próprio posso dizer que fiquei muito entusiasmado ao ver uma certa personagem, num certo bar, mesmo que tenha sido durante poucos segundos…

E, obviamente, não posso falar deste anime sem falar na arte e na animação. Devo dizer que foi a primeira vez que realmente fiquei impressionado com a qualidade que um anime do Studio Trigger poderia chegar, já que qualquer um destes pontos foi feito de uma forma absolutamente perfeita. Foi posto um esforço enormíssimo em cada frame de Edgerunners por uma equipa de animadores e artistas incrivelmente talentosos, já que possivelmente criaram a melhor experiência audiovisual do ano, sem qualquer exagero da minha parte.

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Isto porque não foi só visualmente que Cyberpunk Edgerunners dominou esta temporada de anime, mas também em termos de qualquer aspeto sonoro. Todos os sons possíveis de ouvir nesta cidade imaginada davam-lhe um senso de realismo inimaginável, e todos os tiros ou explosões que se ouviam só deixavam as cenas de ação mais imersivas e emocionantes. Consequentemente, devo afirmar que as dobragens foram excelentes também. Qualquer um dos atores tanto japoneses, como ingleses, foram genialmente escolhidos, já que não houve nenhuma voz que parecesse forçada, ou como se não pertencesse ali, ao momento.

Por fim, também a banda sonora foi um total “banger”, mas isto era algo que já podíamos esperar devido à qualidade da mesma em Cyberpunk 2077. Desde a música de abertura, a “This Fffire“, de Franz Ferdinand, até ao tema que nos fez a todos chorar, “I Really Want to Stay at Your House“, de Rosa Walton, foi uma aventura recheada de boa música, agora disponíveis para ouvir uma e outra vez, continuamente, lembrando o quão bom este anime foi. Algo que quero notar aqui foi, tal como em Cyberpunk 2077, a presença de títulos de músicas como os nomes dos episódios (no caso do jogo, os nomes das missões). Uma “trend” que eu próprio segui com esta análise, com o subtítulo de (Don’t Fear) The Reaper, dos Blue Oyster Cult, uma música que acho que resume muito bem estas jornadas, tanto a de V, como a de David Martinez: não temas a morte.

CONCLUSÃO
Over The Edge
10
cyberpunk-edgerunners-analiseCyberpunk Edgerunners foi tudo o que esperava, e o que queria que este anime fosse. Com uma animação excelente, uma banda sonora de outro mundo, e uma história que encoraja a reflexão da mesma, esta série aumenta a fasquia para o que um anime deve fazer corretamente de forma a ser um sucesso tremendo, e ganha assim o lugar de possivelmente a melhor série animada do ano.