No passado dia 18 de Fevereiro recebi da Devir uma caixinha, com entre outros o primeiro volume de Dandadan em Português. Esta análise vai ser apenas do volue 1 do manga de Tatsu Yukinobu.

Como disse no unboxing que foi publicado e que também vai estar abaixo, gosto muito de Dandadan mas nunca tinha pegado o manga para ler. Comecei a ouvir rumores de que estava a fazer sucesso na Jump antes do anime ser anunciado e sempre me pareceu bastante energético e caótico, sempre a acontecer alguma coisa bizarra para agarrar a nossa atenção. Antes da primeira temporada do anime sair, houve em Portugal um evento em que havia uma mostra dos primeiros três episódios juntamente com uma entrevista com o diretor e os atores de voz. Não só adorei os três primeiros episódios e mais tarde o anime inteiro quando o maratonei, mas também achei muito intrigante ouvir do diretor Fuuga Yamashiro, do estúdio Science Saru, que houve vários desafios a adaptar o manga para anime devido a por exemplo o sentimento de surpresa quando se vira uma página e aparece algo assustador, algo que mais tarde vim a comprovar que o manga faz bastante bem.

Reza a lenda que foi pedido a Tatsu Yukinobu que lesse 100 mangas Shojo para poder compreender a demografia e englobar traços dessas obras na sua história para atrair tanto público feminino como masculino e para incorporar tropos românticos famosos na sua obra. No primeiro volume é ainda muito cedo para dizer caso isto tenha resultado ou não mas é interessante que tanto a Momo Ayase como o Okarun, os dois protagonistas, são personagens com uma história e objetivos bem apresentados e com motivações para fazer o que os leva ao início da sua jornada juntos, o que cria juntamente com o leitor uma relação de empatia que mais tarde nos faz torcer por eles quando passam por dificuldades e também querer que ambos fiquem juntos devido à química que ambos os personagens têm e o que represengam um para o outro.

A história começa com Momo Ayase, uma rapariga do estilo gyaru do ensino secundário, a perceber que o rapaz com quem ela estava a namorar há muito pouco tempo é um traste que lhe dá o seguinte ultimato: ou pagas todo o nosso encontro para mim, ou vamos fazer coisas mais íntimas. Ela depois de o agredir, mostrando que náo leva desaforro para casa queixa-se dele às amigas e percebemos que ela escolhe este tipo de rapazes pois lhe lembram o seu ídolo Ken Takakura, um ator representativo de masculinidade e de um homem às antigas. Ela sai amuada e depara-se com um rapaz, o outro protagonista, Okarun, que está a sofrer bullying na sala de aula. Como está irritada com pessoas más que usam as outras para se sentir melhor ela decide acabar com aquilo e vai conversar com ele afim de impedir que o bullying continue. Esta ação despoleta uma discussão visto que ele acredita em extraterrestress e ele não acredita em fantasmas. Ambos fazem uma aposta, cada um vai tentar provar que a crença do outro não existe… E estavam os dois enganados: tanto extraterrestres como fantasmas existem. Okarun é amaldiçoado e Momo é raptada por extraterrestres afim de fazerem experiências com ela.

O mais interessante é que existe profundidade no meio do caos: Momo não acredita apenas em fantasmas e maldições por achar giro ou interessante, mas sim porque a sua avó é uma médium e a relação entre as duas está bastante estragada por causa disso. Ela precisa que seja real para que ela possa pedir desculpas à avó e assumir que estava errada. Por outro lado, Okarun é um excluido, tanto que se auto-exclui de situações por causa da sua insegurança. Ele sente-se tão sózinho que desistiu das pessoas, voltando-se para amigos no espaço. O problema é que, as suas excentricidades unem-nos: Momo é a primeira amiga de Okarun, e Okarun é o primeiro rapaz que a tratou como uma igual e não como uma louca ou um objeto; e quando o que ambos mais queriam acaba por magoar esta nova pessoa que parece ser diferente do resto, eles não têm escolha sem ser unir-se e lidar juntos contra os problemas de ambos os universos que podem até ser mais comuns do que se pensa.

Se me permitem aprofundar um pouco mais. Muitas das críticas que vejo online sobre a história é o quão tolos os temas são: mais tarde na história fala-se muito da perda do genital do Okarun, ou da sexualização da Momo, principalmente com os aliens do primeiro capítulo. Apesar de tudo eu penso que estas coisas não são por acaso ou apenas caos e o farm de engajamento que se pensa sem se fazer alguma análise mais a fundo. Acredito piamente que o problema do Okarun se deva a emasculação face aos critérios do que é ser um homem de verdade, tanto que a própria protagonista começa a série atraída por um tipo de homem completamente diferente. E esta é uma jornada para ele encontrar confiança, sentir-se e ser visto como um homem de verdade, além de uma história de adolescentes que normalmente lidam com problemas nesse aspeto. No caso da Momo, penso que os vilões usarem alguma violência sexual ou objetificarem-na é proposital não só como algumas raparigas adolescentes se sentem nessa idade, como também mostrar que o homem bom que ela não encontrou é o par romântico que foi emasculado e que ela não considerava sequer por não encaixar no seu padrão de homem.

Dandadan

Umas das coisas que notei foi o traço do Tatsu Yukinobu. Os paineis são bastante detalhados para um manga semana, principalmente os spreads de página dupla. Contrariamente à sua adaptação para anime, os aliens e espíritos estão muito mais desconcertantes e arrepiantes, e as transições são repentinas e eficazes no impacto sempre que mudas a página, algo que teve de ser mudado para a adaptação de anime para fazer movimentos mais graduais por causa da diferença do meio.

O ritmo continua alucinante como esperado, sempre alguma coisa a acontecer. Acho que é muito díficil alguém ficar aborrecido com esta história porque ou temos os personagens a interagir ou temos algum monstro horripilante na página. No entanto detetei alguma falta de ilusão de movimento na quadrinização, tendo estes cortes quase passando à frente algumas ações dos personagens; talvez seja do manga que estava a ler antes ser bastante bom nisso mas quando um personagem está a fazer uma ação, às vezes gosto quando se detalha a ação em vários quadros porque a minha cabeça consegue imaginar o movimento como se fosse animado. Penso que este não seja o forte desta obra e está tudo bem. Alguns quadros de rotina diária parecem-me demasiado populados, embora não sejam muito importantes, talvez não seja a melhor ideia ter os personagens em chibi à frente de um cenário hiper condensado num quadro pequeno.

Quanto à localização da Devir, gostei bastante de ler em Português e nunca quebrou a minha imersão os diálogos rápidos e os arrufos entre a Momo e o Okarun; ficou bem em Português dentro do possível sendo uma língua completamente diferente. Gostei das notas de tradução pois elas podem dar ao leitor uma aprendizagem sobre coisas da cultura japonesa que não são triviais e não vão ser explicadas no contexto porque fazem parte da realidade dos japoneses, como por exemplo o programa Bakatono (traduzido à letra seria o Lorde Idiota). Uma coisa que tenho a apontar que não me lembro se nas outras edições em Português é assim é a inversão de apelido e nome: eu percebo que os japoneses colocam o apelido à frente do nome e às vezes quando dizemos o nomo completo dos personagens pode sair assim tipo “Ayase Momo” ou “Takakura Ken” porque é como ouvimos sempre nos animes e fazemos parte da fandom e eles são japoneses; não tenho bem um pensamento formado mas foi estranho para mim. Entendo que por um lado os autores de manga não fazem isso quando o personagem não é japonês, mas, por outro lado se o conteúdo está em português, não seria melhor manter o apelido no fim e o nome próprio no início? Fica a reflexão.

Espero continuar a dar-vos as minhas opiniões à medida que os mangas de Dandadan vão saindo.

CONCLUSÃO
Encontrar a rapariga dos teus sonhos é fácil, tens de ser apenas amaldiçoado e ela raptada por aliens
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dandadan-volume-1-analiseDuas faces do oculto: aliens e espíritos. Caos e barulho num romance adolescente frenético.