Foi ainda com o espírito do Halloween em mente que decidi entrar pela Bly Manor adentro e ver que mistérios e horrores esta nova série da Netflix tem para nós reservados. Sendo esta uma sequela da mediática Maldição de Hill House, desde já esclareço que estas nada partilham em termos de contexto. Dito isto, vamos ver se realmente A Maldição de Bly Manor será o que andas à procura.

A Maldição de Bly Manor trata-se de uma narração que nos é contada no calor de uma longa noite de Inverno, em antecipação de um grande evento. Esta estória traz-nos novos mistérios, intrigas apaixonantes, e uma maldição a quebrar, com uma trama que me fez absorver o seu enredo como um longo fio de esparguete. Por muitas voltas que este tenha dado, e por muitas voltas que troque ao espectador (pois acredita que os plot twists são bastantes), este revelou-se um puzzle delicioso de se encaixar, com algumas surpresas, e muitos momentos de tensão.

“És tu,

sou eu,

somos Nós”

Tudo tem início quando a nova educadora dos órfãos Wingrave, Dani Clayton (Victoria Pedretti) chega a Bly. Esta é uma jovem professora americana que procura fugir do passado que a assombra e, por isso, decide mudar-se para Inglaterra, e dar uma nova oportunidade a si mesma. Após certos acontecimentos arrepiantes, Dani procura agora uma vida calma e um sítio onde possa recomeçar, quando se depara com o anúncio de uma vaga como educadora para duas crianças órfãs que vivem numa imensa mansão em Bly.

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Flora e Miles são duas crianças extremamente doces e encantadoras que nos conquistam desde o primeiro episódio, especialmente Miles com o seu jeito muito cavalheiresco. Amelie Smith e Benjamin Ainsworth são absolutamente adoráveis nos seus papéis, que nada têm de simples e de planos. De facto, conseguiram criar um certo trilho de migalhas que conduz o espectador a descobrir as verdadeiras facetas das suas personagens, mas sempre nos deixando na incerteza em relação ao carácter que demonstram.

Estas, infelizmente, já passaram por muitas amarguras na vida quando têm o primeiro contacto com Dani, experiências que, no entanto, não lhes apagaram a sua luz. Para começar, em tão tenra idade, já se despediram dos seus pais, que partiram em viagem e nunca mais regressaram. Agora a sua única família é um tio alcoólico que se demonstra sempre demasiado ocupado para atender às necessidades das crianças. 

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A agravar a situação, a dupla assistiu ainda recentemente ao desfecho trágico e misterioso da sua última educadora, Miss Jessel. Descrita como uma jovem brilhante e ambiciosa, que captivou o coração destas crianças e… Se suicidou inesperadamente. Esta é, contudo, uma personagem que não me disse muito, especialmente sendo-nos apresentada ao mesmo tempo que também conhecemos o carácter de Peter Quint, que me deixa com sentimentos mistos, além de este ser um borrachão.

No entanto, tudo isto é passado, e na sua mansão enorme, os órfãos Wingrave convivem agora com estas amarguras e com meio punhado de gente, que no entanto para estas crianças são o mundo inteiro. Temos connosco o charmoso chefe Owen, interpretado por Rahul Kohli, a sempre distante, mas prestável, governanta Mrs. Grose, com interpretação de T’Nia Miller, e a jardineira Jamie de Amelia Eve. Ao contrário do que possas pensar, os dias passam, as crianças brincam, e a alegria floresce, embora sempre com a sombra destas mortes a pairar sobre a trama.

Singing “Oh willow waly” by the tree that weeps with me

Singing “Oh willow waly” till my lover return to me

A par e passo que as crianças brincam, há um segredo horripilante que crepita pelas paredes da mansão e toda a sua extensão. A cada episódio de A Maldição de Bly Manor, este consome ainda mais o espectador, à medida que o véu é lentamente levantado. Devo, contudo, dizer que certas suspeitas que tive desde o primeiro episódio se confirmaram, pelo que desde o início acredito que o espectador possui a chave para rodar algumas engrenagens e decifrar parte deste imenso mistério. Isto, falando nomeadamente da parte do puzzle que é visível, e com a qual temos contacto, porque a outra metade oculta em grande parte da série, a origem da maldição de Bly Manor, é simplesmente uma surpresa bizarra e impossível de ser previamente decifrada. 

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Dando-nos oxigénio suficiente para respirarmos a atmosfera de Bly Manor e de absorvermos cada um dos seus recantos, devo dizer que cada episódio é particularmente interessante, especialmente dado o foco particular que a narradora decide tomar a cada capítulo. Com efeito, tens vários capítulos que são mais focados em Dani, mas também tens capítulos onde outras personagens assumem o papel central. Desta forma, consegues tomar partido das suas mais variadas personalidades e das suas motivações, bem como ir descobrindo o que é que estas sabem sobre a mansão, a morte dos pais das crianças, o desaparecimento de Peter Quint, e inevitavelmente, sobre o suicídio inesperado de Miss Jessel. 

Consoante exploras cada episódio de A Maldição de Bly Manor, sentir-te-ás cada vez mais em casa e em família com este elenco, na medida em que consegues reconhecer os espaços físicos, explorá-los como a palma da tua mão, e saber exactamente para onde é que o coração da personagem pende para agir.

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Tal é, sem dúvida, derivado de uma excelente direcção, mas igualmente de uma escrita genial e deliciosamente cativante. No entanto, o ritmo imposto por Mike Flanagan revela-se algo lento, a esticar cada episódio, e como referi anteriormente, em certa parte previsível. Mas se vamos começar a falar na previsibilidade do enredo, há algo em que esta série peca irremediavelmente: nos seus jump scares. Esses não são nada de por aí além, pois esta é mais uma série de suspense do que de terror.

No entanto, se há maior fragilidade a apontar à mesma, é que A Maldição de Bly Manor tenta ser algo que não é. Como resultado, denota-se uma falta de criatividade em perseguir esse género de registo nos momentos de maior sobressalto, e tenta excessivamente fazer-nos saltar do sofá quando já reviramos os olhos. 

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Sem spoilar, como disse anteriormente, Dani vive diariamente angustiada pelo passado que a persegue, e nomeadamente é quando se olha ao espelho que esse geralmente a encontra. Posto isto, cada vez que a personagem se encontra perante o seu reflexo é sempre utilizada a exacta mesma receita para provocar um momento de susto gratuito, sem excepção, sem vergonha! Como podes antever, rapidamente deixarás de achar piada a ver a mesma treta de construção de momentum entrar em plano. 

Por outro lado, há jump scares que funcionam, por isso, prepara-te. Bly Manor é povoada por criaturas bizarras que se escondem nos fundos do cenário, e essas sim são estranhas, interessantes, e algo aterradoras à primeira vista, propiciando momentos em que o teu coração quase que salta para fora do peito. Contudo, quando nos é finalmente revelada a entidade que aterroriza Bly Manor, sinto que não houve build-up suficiente para nos impactar no momento em que damos de caras com a sua verdadeira forma. Embora os próximos encontros já nos façam saltar do sofá, é uma pena, pois já conhecemos o seu aspecto e não nos assusta tanto. No entanto, a forma como nos prende a respiração, é de quase arrepiar os pêlos no pescoço.

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Em relação à história de origem da maldição, digo que fiquei algo desapontada, honestamente. Sei que a série é baseada no livro The Turn of the Screw de Henry James, mas, bolas, podia ter sido muito mais interessante! 

No final, acho que mesmo aqueles que procuram uma boa estória de terror, acabarão por sair daqui algo satisfeitos, sendo que gratuitamente levam consigo uma bela estória de amor, e toda uma inesquecível atmosfera que vai deixar saudades. A banda sonora que nos acompanha também ela tem toda uma atmosfera própria, capaz de nos degolar.

Conclusão da Análise
Vais dormir... Acordar... Caminhar... Dormir...
6.4
Apaixonada pelo mundo do cinema e dos videojogos. A ficção agarrou-me e não me largou mais! A vida levou-me pelo caminho da Pós-Produção, do Marketing e da organização de Eventos de cultura pop, mas o meu tempo livre, dedico-o a ti e à Squared Potato.