Muito recentemente, a adaptação televisiva das aventuras de um Son Goku ligeiramente mais adulto, que encheu de dinamismo os lares de todo o mundo, completou o seu 30º aniversário. Longe estaríamos nós na altura, de imaginar que tal adaptação viesse a se tornar responsável por ser a régua qualitativa e quantitativa de um movimento e cultura que acompanhamos até hoje nas vossas vidas.

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Dragon Ball Z começou uns anos mais tarde após a série inicial. Son Goku vive feliz com a sua mulher Chichi (Kika), e ambos são pais de um rapazinho de 5 anos chamado Son Gohan. Mesmo com a ameaça de Piccolo (Coraçãozinho de Satã) constante no ar, o mundo parece mergulhado numa era de paz e harmonia. No entanto, este foi um período efémero. No espaço, uma misteriosa cápsula dirige-se a toda a velocidade para o Planeta Terra. O seu tripulante, parece ser um guerreiro muito poderoso, e o mais preocupante de tudo é que alega conhecer Son Goku, inclusive afirma ser seu irmão.

Nesse mesmo espaço de tempo, Goku decide viajar até a casa de Mutenroshi (Tartaruga Genial), o seu mentor e amigo para apresentar-lhes o seu filho. De visita está também Bulma. Este encontro entre velhos amigos e companheiros de dezenas de aventuras, foi completamente abalado por Raditz, o alegado irmão de Son Goku, que chega à ilha e indica-lhe que o defensor da Terra, não é afinal oriundo deste Planeta, mas sim do outrora Planeta Vegeta.

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Goku apenas conseguiu fugir ao seu destino, por ser enviado para a Terra, para exterminar a raça terrestre. Para solidificar estas chocantes revelações, Mutenroshi, afirma que é tudo verdade, já que este foi um segredo que o avô adoptivo de Son Goku, confiou-lhe antes de morrer. Mesmo ciente da sua natureza, Goku mede forças contra Raditz, mas o nosso corajoso herói que parecia invencível acabou derrotado com um único golpe!

Antes de abandonar a ilha, Raditz rapta Gohan, e deixa o seguinte desafio a Goku. Este tem de eliminar 100 seres humanos, para provar a sua aliança com o seu irmão. Mesmo sendo uma luta perdida, Mutenroshi e Kuririn preparam-se para acompanhar o seu amigo no salvamento do seu filho, quando nesse instante aparece Piccolo e aceita formar uma aliança temporária com o seu inimigo de forma a eliminar uma ameaça maior.

Este foi o princípio das lutas completamente frenéticas, onde o humor característico de Akira Toriyama, que se tinha vindo a perder continuamente na série anterior, desaparece por completo. Aqui o foco são duelos entre os Guerreiros Z e inimigos consequentemente mais perigosos. A série apenas volta a tentar colocar um pouco de humor na última parte, através de algumas personagens e situações características das mesmas, que embora repetitivas foram divertidas.

Dragon Ball Z , pode dividir-se em 4 grandes partes, que partindo de eventos conclusivos das sagas anteriores, preparam a narrativa para as seguintes, com um decréscimo progressivo de personagens principais.

A primeira e mais curta parte, é o Saiyan Arc (o arco dos Guerreiros do espaço). Nesta parte o elenco permanece praticamente idêntico ao que conhecemos da série original. Gohan revela ser uma criança digna do seu pai, e junta-se ao seu mentor Piccolo e aos guerreiros da terra para defender a chegada de Napa e Vegeta, dois Saiyans sobreviventes muito poderosos. Consequentemente a este encontro, e para ressuscitar os seus amigos, Bulma, Kuririn, Gohan, e mais tarde também Goku, viajam até ao planeta natal de Piccolo, quando descobrem a verdadeira natureza do lagartinho verde e as das bolas de cristal.

Quem também está nesse planeta, é Vegeta, mas este nutre más intenções, e sobreviveu a uma luta intensa contra Goku, e o ser mais cruel do universo, o Frieza (Freezer). Este último não só é mestre do orgulhoso guerreiro do espaço, como foi o responsável por toda a aniquilação do planeta dos Saiyans. Tanto o tirano como o Vegeta, desejam obter a imortalidade.

Começa então uma corrida pelas Super Dragon Balls, disputada pelas três frentes em jogo.

Esta parte é bastante importante para o percurso de Dragon Ball Z, já que é aqui que Goku, emerge como Super Saiyan (Super Guerreiro). O seguinte Arco, passa-se novamente na terra, e tem como base impedir um futuro, no qual nem Goku sai ileso. Neste, humanos artificiais conhecidos também como Androids (Cyborgs) tomam conta do planeta, e entre esses encontra-se Cell. Um ser criado através das Células dos guerreiros mais poderosos do universo.

A última parte, um pouco diferente das anteriores, é a do Majin Buu (Boo Boo). Aqui o feiticeiro Babidi viaja para a Terra, para recolher energia de forma acordar o Majin Buu, entre muitas transformações, fusões e misturas, a galáxia acaba por conseguir a sua ansiada paz.

Enquanto as três primeiras partes, são as mais violentas e gráficas, na última notamos um desgaste e uma falta de rumo, não só pela parte da produção como também pelo próprio autor. Este facto dá-se, por Toriyama desejar terminar Dragon Ball Z com o final de Namek, contudo isto não significa que os arcos seguintes sejam muitíssimo inferiores, nada disso. Num ponto pessoal, as minhas partes favoritas foram a primeira e a terceira, ou seja, Saiyans e Androids. Enquanto a primeira é o que considero um ‘Magnum opus’ de uma obra shounen, na terceira o sentido de urgência é tremendo, o fluir de acontecimentos é crescente e muito bem inserido. Realmente esta última é um milagre, dada a pressão do autor em conseguir uma narrativa tão coesa para os ‘standards’ de Dragon Ball.

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Já no Arc de Namek, e Majin Boo, o enredo muito vezes não soube que via seguir, e o fluir de acontecimentos tornou-se muito demorado, e por sua vez bastante exaustivo. Atenção, que não estou a referir-me aos fillers e aos olhares vidrados, que ao contrário de muitos, gostei e considero importantes na série. Garantidamente, os fillers entre duelos contribuíram para aumentar a tensão, através da eterna troca de olhares, ou ter o efeito oposto, aliviando a mesma através de episódios mais de carisma mais cómico, como quando Goku e Piccolo vão tirar a carta de condução. Também de certa forma, contribuíram para o desenvolvimento de personagens, através dos treinos intensivos aos quais as mesmas foram submetidas.

O meu senão, principalmente no arco do Majin boo, é o seu fluir e um pouco de falta de identidade. Episódios mais cómicos, outros apenas à base de lutas, treinos, enfim, até mesmo a perda de uma identidade mais séria, tudo contribuiu para acentuar ainda mais este efeito. Por último, o foco cada vez mais decrescido em personagens vindas da série anterior. Foi uma pena, Dragon Ball Z a certa altura foi só regido e movimentado pelos Saiyans, mas esse não é um defeito desta adaptação, mas sim de parte da obra do próprio autor.

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Tecnicamente, Dragon Ball Z é visto como uma miscelânea de sabores. Tal como na primeira parte de Dragon Ball, diversos estúdios externos contribuíram para animar as lutas do bem contra o mal, devido ao seu extenso número de episódios e correspondente periodicidade. O resultado são diversos estilos e animações.

Enquanto o Studio Junio, mostrava um Goku muito próximo do traço característico de Toriyama, no estúdio Last House, proporções, arte e detalhes muito duvidosos encheram os nossos ecrãs. Enquanto para alguns, este pode ser um factor totalmente negativo, na minha óptica, o génio de Keisuke Matsunaga e o talento do Studio Cockpit, foram uma evolução do estilo original da série. Este estúdio, geralmente era chamado para animar episódios mais intensos cheios de acção. Se quiserem uma memória visual dos mesmos basta assistirem novamente as lutas de Goku contra Cell, Gohan contra Darbura, ou ao primeiro confronto de Goku contra Kid Buu.

Se a animação de Dragon Ball Z foi um factor divisório, o mesmo não podemos dizer da sua fantástica banda sonora. Composta na sua maioria pelo mestre Shunsuke Kikuchi, foi responsável por transmitir todo o heroísmo, perigo, emoção, desespero, e desenvolvimento das personagens ao longo de toda a série. Um bom exemplo é o tema de Piccolo Daimao, de início é assustador, chegando mesmo a ser sinistro, mas à medida que humanidade foi brotando no seu coração, o tema subtilmente torna-se mais leve, polvilhado com um heroísmo crescente, calmo até por vezes triste.

Dragon Ball Z

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Enquanto algumas faixas foram recorrentes da série original, outras foram leves (remisturas) para não só demonstrar um estilo mais sério, como um ambiente mais distinto. Para terem uma ideia deste efeito, basta compararem os trechos do arco de Namek, com as do arco dos Androides, cujas faixas são compostas não só por temáticas mais tecnológicas, como por uma instrumentalização mais metalizada.

Na última parte de Dragon ball Z, e como já foi dito, quase todas as faixas de Kikuchi, enveredam para uma via mais festiva e de heroísmo, que atenção, até não é má, mas simplesmente é diferente, perdendo um pouco o seu estilo e identidade característica. Para juntar ainda mais dinamismo e emoção a toda a obra, tanto encerramentos como aberturas foram cantadas na sua maioria por Hironobu Kageyama, que literalmente antes de qualquer episódio, nos enchia de adrenalina! A banda sonora num todo, tornou-se uma imagem de marca tão grande, que penso que foi um dos senãos de Dragon Ball Super, além de muito identificativa, assentava que nem uma luva em todos os momentos.

Sem surpresa Dragon Ball Z e como todos sabem, foi transmitido no nosso país via SIC traduzindo-se num enorme sucesso. O país literalmente parava para assistir aos berros dos nossos heróis quer de manhã, quer ao final da tarde! O seu sucesso acentuado não ficou ignorado e passou também a ser transmitido num horário fora de comum aos fins de semana depois do Jornal da Tarde. Este fenómeno, deve-se naturalmente não só à série, como ao incrível trabalho e dedicação que os actores colocavam nas suas personagens, umas vezes herdando a tradução francesa, outras um humor muito característico e social.

“Não percam o próximo episódio porque nós também não.”

Existia também uma enorme coesão entre espectador e equipa de dobragem. Parecendo que não, a característica frase, citada aqui acima, conjuntamente com o auto-critério do seu sucesso, criava um elo muito inconsciente. Tanto, que me lembro de vibrar com alguns desfechos, de celebramos os mesmos como se um golo numa fase decisiva da selecção se tratasse.

Não vamos também esquecer as fortunas que gastávamos em fotocópias, cromos e cartas, as figuras que comprávamos na loja dos 300$00, ou ainda das cassetes VHS que passamos semanas a reunir dinheiro para adquirir. Realmente Dragon Ball Z marcou alguns dos melhores períodos das nossas infâncias, alguns que recordo com um enorme saudosismo. Dragon Ball no geral, criou tanto impacto na nossa cultura, que uma menção honrosa no nosso país não era assim tão fora do comum. Mesmo passados 20 anos da nossa transmissão, o país não esqueceu a série por um momento, nem mesmo pela fresquinha como o nosso amigo Vegeta dizia.