Entre orcs gigantes, trolls, e temíveis criaturas com enorme potencial de sobressaltar constantemente o jogador com adequados desafios, tudo se torna vago quando a maior dificuldade de superação passa não por derrotar carradas de inimigos, mas por gladiar com constantes problemas de progressão que Dungeons & Dragons nos entrega de forma constante.

Juro, caro leitor! Tentei, de facto — primeiro em grupo e mais tarde a solo —, pelo menos terminar a campanha, para verificar o que me entregaria o endgame. Infelizmente, não consegui. Esta minha impossibilidade poderia ser originada pelo tédio genérico que este título nos entrega? Certamente, ainda que contornável. No entanto não foi o caso, foram mesmo os problemas técnicos e as quebras de progressão em várias fases: ora primeiro em grupo, quando um dos meus companheiros foi impossibilitado de entrar na arena final de um mapa, e mais tarde, quando uma maldita “parede invisível” nos fez correr literalmente o mapa da fase, todo, de trás para a frente, até que alguma mente pensadora (decerto que não a minha) teve a ideia de nos suicidarmos colectivamente com veneno que, por acaso, se encontrava em algumas zonas do nível. Sim, isto aconteceu.

Foi a partir desse momento, já fatigados pelo aborrecimento extremo do level design e inimigos genéricos, que decidimos desistir de jogarmos Dungeons & Dragons em conjunto.

Um dos exemplos de bug de progressão que nos aconteceu!

Ulisses:  Permite-me uma interrupção, Igor! Sê bem-vindo à análise mais dinâmica que leste até hoje, caro leitor, pois é o Ulisses quem escreve agora. Tendo sido companheiro do crítico em destaque nada mais natural que executar algo diferente na Squared Potato.

 

Começo por confirmar o tédio descrito acima, sentido desde o primeiro momento em que a aventura começou. Deu, inclusive, para despoletar uma cavaqueira em alegre cooperação por voz na Xbox. Caso a jogabilidade ou o enredo fosse interessante esse bate-papo (olá, Brasil!) nunca teria acontecido.

 

Todas as cinemáticas estão bem executadas mas são desinteressantes.

É curioso afirmar isto pois estamos a falar de Dungeons & Dragons, propriedade conhecida por ser primordial no desenvolvimento de uma boa história. No entanto, antes de permitir o progresso natural da análise confirmo, com grande infelicidade, que problemas técnicos foram eles também sentidos na minha Xbox Series S (fui a vítima impossibilitada de entrar na área final).

Igor: Ora, mais tarde, lá fui eu novamente tentar a minha sorte, já de forma desesperançosa. Desta feita, numa Xbox One X, que aproveito para desaconselhar devido às quebras de taxa de quadros e carregamentos ultra longos.

Comecei a solo exactamente onde terminamos em grupo, e comecei a próxima missão que me demorou cerca de 45 minutos a completar. Disse “completar”? Nada disso! Assim que entrei na arena superficial onde o boss da fase supostamente aparecia, a consola entrou numa espiral sonoro irritante de tal forma, que me enviou de volta para a dashboard inicial. Por estas razões decidi lançar esta análise a cru e focar-me no que vi, da mesma forma que nos chegou o jogo até nós, directamente do gamepass.

Ulisses: Tomaste uma decisão acertada e até considero que foste um pouco simpático; não mencionaste o brutal tempo de início para carregar o jogo na tua One X conforme nos confessaste.

Igor: Dungeons & Dragons: Dark Alliance começa por nos dar a escolher uma das quatro personagens principais:

  • Um Anão guerreiro com função de tanque, e uma esponja de pancadaria.
  • Uma Arqueira focada em ataques à distância e cura, que é talvez a classe mais forte e mais desequilibrada do jogo.
  • Um Guardião com função de ser mapeado para críticos, como um assassino silencioso.
  • Um Bárbaro que é praticamente a função de DPS da equipa.
Lê mais:  Jogos do Mês | Edição de Junho 2021

A partir daí, como qualquer looter/action rpg, a estrutura é a mesma dos jogos convencionais. Cada classe tem as suas habilidades muito características e as suas vantagens, com um nível de personalização razoável e esquemática. As missões são muito straight to the point, e sempre com um formato idêntico, avançar no mapa enquanto derrotas carradas de inimigos, com alguma opção de exploração; onde podes encontrar desde coleccionáveis, armas e mais bugs.

Depois de cada missão, serás transportado para o HUB do jogo, que consiste sucintamente num acampamento. Será aí que poderás aprimorar as tuas armas, equipamentos e até consumíveis, com os cristais que colectas durante as dungeons e quests. Também será nesse HUB que poderás testar as tuas habilidades de combate e calculares quais os golpes que farão parte do teu cardápio, ou melhorar as habilidades do teu personagem com pontos de atributos (Força, Condição, Destreza, Inteligência, Carisma…), uma vez que ao entrares nas áreas de missão, essas personalizações acabam.

Ulisses: Compreendo que bater na tecla dos problemas técnicas seja desaconselhado, mas tenho de referir o seguinte: neste pólo central da aventura encontram-se, como referido, pontos para testar as tuas habilidades; aqueles sítios onde consultas o teu DPS, praticas as tuas combinações de ataque, etc. Foi num dos training dummies que a minha personagem ficou presa por cinco minutos até que, graças à boa vontade dos deuses da física, conseguiu desprender-se em segurança. Picuinhice minha? Talvez, mas foi mais um ponto negativo.

Igor: A vertente mais entusiasmante de Dungeons & Dragons passa pelos conjuntos de equipamentos, vulgo sets, já que permitem imensas possibilidades de builds com os teus equipamentos certos. Existem sets elementares que te permitem por exemplo resistência contra gelo, fogo, trovão e até ácido. Depois, existem os sets exclusivos de cada personagem. No caso do meu anão Bruenor, poderia escolher o set Keeper of Secrets, que com 8 peças do mesmo build equipado, me daria 10% extra de dano base, e 35% dano contra elementar. Ou então, caso fosse mais cauteloso e quisesse realmente ser o papel de tanque da equipa, teria escolhido o set Battlerager, que me garantia 15% de dano reflectido, e ainda dano de corte por cada golpe reflectido. Estes são apenas dois dos exemplos de muitos dos sets disponíveis.

Ulisses: Concordo. Nesta amálgama conhecida, Dungeons & Dragons: Dark Alliance, um dos pontos mais entusiasmantes foi, comum a títulos do seu género, os conjuntos de armadura. No caso da minha profissão (arqueira) utilizei sets para aumentar a resistência natural ou percentagem de incidir ataques críticos. Existe muito variedade, mas o lado cosmético tanto é agradável como simplesmente horripilante. Pelo menos, a troco de algumas moedas de ouro, é possível alterar o aspeto das peças para outro à escolha sem afectar as estatísticas inerentes à peça.

Igor: Equipamento preparado, chega a hora da acção! Com uns comandos simples mas pouco intuitivos, o maior pesadelo passa mesmo pela latência e hitbox desajustada. Não te adianta andares a rebolar de um lado para o outro, já que se o boss quiser, o boss atinge! Também alguns ataques da minha classe pareceram muito irregulares de asserto, e presumo que não tenha sido apenas leiguice minha, e senti essa dificuldade um pouco mais ao jogar na versão do PC.

Lê mais:  Dark Alliance | Revelada a data de lançamento e trailer para o jogo de Dungeons & Dragons

A inteligência artificial dos inimigos está à altura de todos estes defeitos. Os trolls foram literalmente levados à letra pelo estúdio! Recebem dano à distância e não te atacam já que não te encontras no range de alcance deles, apenas te seguem até uma determinada zona, e não os podes atirar de penhascos, pois nos próximos segundos voltam a aparecer ao teu lado como se de nada se tratasse. Os inimigos também voam ou desaparecem depois de mortos, e isso era tudo bizarro mas aceitável, caso não fosse também bombardeado com bugs de progressão e relatórios de erro como expliquei uns parágrafos acima.

Ulisses: Posso escrever, com completa confiança, que a inteligência artificial em Dungeons & Dragons: Dark Alliance é das piores que já tive o desprazer de testemunhar. Reiterando o que foi dito anteriormente: não só os inimigos ficam quietos quando atacados de uma distância generosa como também, em batalha, alguns deles simplesmente olham para o vazio. Será que na região de Icewind Dale e arredores existe uma pandemia relacionada com uma doença que afecta o défice de atenção? Fica a questão à qual nunca obteremos resposta.

Igor: Os gráficos não impressionam, mas já se viu piores dentro do género na oitava geração de consolas. Se por um lado os cenários contam com paisagens belas e detalhadas, os personagens são desinspirados, e muitos dos inimigos são literalmente uma cópia do outro, com uma skin para disfarçar. Já a banda sonora é muito boa, e responsável pela grande fatia de atmosfera do título.

Como considerações finais, admito que este jogo possa envelhecer da forma que a saga Dungeons & Dragons merece, mas para já, não passa de uma obra inacabada e mal polida, sem qualquer paixão visível investida no seu desenvolvimento. O seu preço não é os habituais 60€, não obstante; aconselhamos vivamente a experimentares o título através do Xbox Game Pass, e tirares as tuas conclusões, isto é: se o jogo te permitir.

Ulisses: As minhas considerações finais são: joga outra coisa. Estou a ser brutalmente honesto contigo, leitor, mas acredito com sinceridade que não é um título merecedor do teu tempo. Ele funciona mal, não tem um enredo empolgante e a jogabilidade é, na falta de melhor palavra, desajeitada. Talvez com uma batolada de actualizações ele venha a ser passível de recomendação, mas por agora? Não.

Dungeons & Dragons: Dark Alliance está disponível para Xbox One, Xbox Series X|S, PlayStation 4, PlayStation 5 e na Steam para PC.


E tu, já experimentaste Dungeons & Dragons: Dark Alliance?