Poucos são os videojogos que transmitem uma verdadeira sensação de liberdade. No entanto, antes de conseguir processar todo o mundo aqui criado por Tomas Sala, mundo esse maravilhoso em vários sentidos, é importante conseguir processar o conceito de liberdade neste meio. O dicionário online Priberam indica na sua primeira definição “Direito de um indivíduo proceder conforme lhe pareça, desde que esse direito não vá contra o direito de outrem e esteja dentro dos limites da lei.”

Para desconstruir essa definição, e por consequência The Falconeer, é necessário partir do pressuposto que os videojogos são o meio de entretenimento que mais liberdade dão a um indivíduo. Ainda assim, com um pequeno vislumbre da jogabilidade é fácil assumir que o título em análise é um exemplo preferencial no que à liberdade diz respeito; pelo menos é isso que Tomas Sala, criador deste indie interessantíssimo, deseja que acredites a troco de te surpreender muito mais tarde.

O vasto mundo de Ursee está, exorbitantemente, populado por uma imensa camada de água aparentemente sem explicação. Refiro aparentemente pois grande parte da sabedoria sobre o início de Ursee está espalhada por várias localizações – pequenos santuários mágicos – que detalham a génese deste mundo peculiar. No entanto, aplicando uma estratégia ortodoxa de exposição indireta, e com grande esforço em tentar juntar todas as partes, conseguirás talvez obter um maior entendimento – larga parte dele mitológico – dos primórdios deste fantástico mundo novo.

Essa parte diz respeito à origem do mundo, mas a liberdade em The Falconeer estende-se até à escolha da personagem principal. Após uma breve vaticinação somos incumbidos de escolher um avatar; um corpo com nome, profissão e uma pequena história própria, em conjunto com um falcão; nosso método de transporte e combate. No entanto, esta escolha aparenta ser de pouca ou nenhuma consequência. É bom que cada tipo de personagem tenha contexto, mas em nada alteram as missões principais de história. Tomada a decisão é depois tudo uma questão de exploração, onde este título sobressai com qualidade.

The Falconeer

A história principal desenrolar-se-à então por um caminho linear, contrário à liberdade imposta desde o início, aceitando missões principais ou secundárias, para amealhar alguns trocos, e prosseguindo com o enredo pseudo-Game of Thrones entre fações beligerantes. Cada fação tem a sua própria crença; aquilo em que acredita ser melhor para o seu povo e para o mundo em geral, resultando em várias batalhas importantes para o entender do enredo, das quais farás frequentemente parte. Seja obliterar outros falcões ou destruir navios, a tua função através dos quatro principais capítulos é passar por estas vivências e tentar compreender o sofrimento de quem juraste defender e proteger; conclusão? Não és verdadeiramente livre. Apesar disto tudo a narrativa dominante é geralmente transmitida por pequenos e inicialmente confusos trechos de diálogo, animados por uma dobragem de média qualidade, que farão todo o sentido no final da aventura. Todas as peripécias, no entanto, ocorrem sob dois sistemas de jogabilidade distintos: exploração e combate.

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Explorar Ursee e a sua devastação marítima tem tanto de caótico como de pacífico. O controlar do falcão, aclaração feita via pequeno tutorial no prólogo, aprende-se rapidamente e em poucos minutos somos outro dos muitos falcoeiros que viajam por esta terra perdida. The Falconeer contém um equilíbrio respeitável entre conteúdo por explorar e momentos de muita calma, permitindo que aprecies o seu lado mais artístico e carismático, sem nunca entediar ou ser severamente aborrecido. Ilhas, pequenas localidades, santuários e até bases inimigas são alguns dos elementos pelos quais tropeçarás por entre os passeios nos momentos mais parados.

The Falconeer

O combate, no entanto, é mais dinâmico e explosivo. Apesar dos primeiros encontros serem brigas de escala pequena, é visível a inspiração retirada de títulos mais antigos como Red Baron. Nos céus o teu falcão é uma máquina mortífera, e só tende a melhorar quanto mais explorares; novidades como armas diferentes, munições de outro calibre místico, melhoramentos passivos para o pássaro e até novos falcões com melhores estatísticas são opções a ter em conta para outros confrontos nos estágios mais tardios da história. Infelizmente não é muito claro como obter estes melhoramentos senão perder tempo a correr de um lado para o outro, mesmo com a vantagem de uma opção Fast Travel.

Ainda assim um dos maiores trunfos de The Falconeer é a sua direção artística. Independentemente do gosto subjetivo no estilo empregue com os seus gráficos de baixa renderização, é inegável a palete de cores empregue e como esta contrasta com todos os elementos visuais presentes em cada momento. Por vezes, durante um passeio tranquilo com o teu falcão, apanhas uma tempestade, dando contigo a lutar contra o vento e presenciando um mar tumultuoso e agressivo. Outras serás testemunha de uma imensa calma e tranquilidade como se, por momentos, nada mais existisse naquele instante. Em teoria recorda muito títulos mais expressivos como Journey e a forma intrépida como estes conjugam todos os elementos visuais e sonoros para criar uma narração exterior à que está exposta.

Outro elemento que merece reconhecimento é a banda-sonora por Benedict Nichols. Um compositor muito subvalorizado que, com o sucesso de The Falconeer, talvez venha agora a receber mais reconhecimento. Ele e Tomas Sala formam um duo poderoso no título em análise, onde os diferentes géneros que Benedict aplica sobre as várias instâncias da aventura; sejam elas combate ou exploração, transmitem diferentes sensações e emoções. É gratificante, por exemplo, sentir um entusiasmo próprio que provém não só do combate intenso em si, mas também da banda-sonora que amplia essa intensidade. The FalconeerO desempenho na Xbox Series S, sistema onde The Falconeer foi analisado, é sublime e constante. Mais surpreso fiquei com o modo a 120 fotogramas, uma completa novidade para mim graças a um monitor que suporta essa taxa de atualização. Arrisco a dizer que a experiência, tanto na exploração como o combate, é ainda mais completa graças a essa possibilidade; sobrevoar o mar de Ursee à supramencionada velocidade transmite uma nitidez inigualável, de uma maneira que 60 fotogramas não conseguem atingir. Em momento algum, em ambos os modos, a ação alguma vez desceu a pique. Uma observação importante tendo em conta o género de jogo que é e o quão dependente está de um desempenho ágil e veloz.

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Posto tudo isto relembro o que inicialmente referi sobre liberdade: “Direito de um indivíduo proceder conforme lhe pareça, desde que esse direito não vá contra o direito de outrem e esteja dentro dos limites da lei.” Realisticamente existe uma componente independente na construção de The Falconeer, mas embora a sua jogabilidade e mapa aberto transpareçam um ideal autónomo; somos empregues com uma falsa sensação de sermos donos do nosso destino, algo completamente errado, pois todos os sistemas em jogo: jogabilidade, banda-sonora, estilo artístico e especialmente a narrativa, transmitem uma sensação, por vezes violenta, de algo ou alguém que está a tentar ser livre, da mesma forma como um falcão bate as suas asas no ar sem preocupação, mas ainda assim tem sempre de lutar contra o vento.

The Falconeer

Tomas Sala criou um mundo interessantíssimo de explorar, mas que é infelizmente retido por uma ortodoxa maneira de relatar a narrativa do mundo e a sua mitologia. Fora a construção do mundo, o enredo principal desenrola-se particularmente sem soluços, mesmo que ao início cause a sensação de estarmos perdidos. Ainda assim é uma história com mérito, acompanhada também pelo sistema de exploração livre em conjunto com o combate frenético e intenso. Independentemente da sua curta duração, é um título que recompensa o tempo depositado graças também à banda-sonora multi-facetada e o estilo artístico empregue. The Falconeer é um videojogo diferente do habitual; uma mistura híbrida entre arte e jogo de ação, tudo pontos a seu favor num mar de títulos tão semelhantes.

The Falconeer já se encontra disponível para as plataformas Xbox One, Xbox Series X e PC Microsoft Windows.

Conclusão da Análise
Bom
7
Desde muito cedo um confesso apaixonado pelos mundos da PlayStation e consolas Nintendo. No entanto a vida dá muitas voltas e agora o seu amor foca-se nas novas Xbox Series. Nada como paixão à primeira vista, não é verdade?

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