Foi já no mês passado que a Netflix introduziu na sua lista uma das adaptações mais bizarras dos últimos tempos: Fate: The Winx Saga. Mas será que vale a pena ver, ou ficar-mo-nos pela nostalgia?

História

Fate: The Winx Saga apresenta-nos Bloom, uma recém-chegada à escola de magia de Alfea, depois de ter sido resgatada pela Directora Farah e descoberto que, afinal, não era uma humana comum mas sim uma fada. Bloom terá de se adaptar a esta nova realidade, fazer amizades improváveis, e enfrentar um dos maiores desafios da sua vida para proteger aqueles que ama.

Ficha técnica

A primeira temporada de Fate: The Winx Saga estreou a 22 de Janeiro na Netflix e é composta por 6 episódios de duração de quase uma hora. A série foi escrita e produzida por Brian Young (Vampire Diaries), com direcção a cargo de Stephen Woolfenden (Outlander), Hannah Quinn (Vikings), e Lisa James Larsson (Victoria). A série foi filmada na Irlanda e produzida pelo estúdio britânico Archery Pictures em associação com Rainbow SpA.

O elenco inclui Abigail Cowen como Bloom, Hannah van der Westhuysen como Stella, Precious Mustapha como Aisha, Eliot Salt como Terra, Elisha Applebaum como Musa, Danny Griffin como Sky, Sadie Soverall como Beatrix, Freddie Thorp como Riven, e Eve Best como a Directora Farah.

Adaptação

Fate: The Winx Saga é o primeiro live-action baseado na série Winx Club criada pelo italiano Iginio Straffi em 2004.

Winx Club tinha uma audiência juvenil entre os 7 e os 15 anos de idade, primeiramente feminina, o que me leva a questionar o porquê de terem decidido estabelecer um rating de TV MA (recomendado a adultos) para o live-action

A ideia era, talvez, apelar ao antigo público, que hoje em dia se encontra nos seus 20-30. Uma jogada inteligente, não fosse Fate: The Winx Saga não ter quase nenhum dos atributos que tornaram Winx Club tão apelativo a esse mesmo público: personagens encantadoras, cenários fantásticos com um toque de sci-fi, uma palette viva e colorida, um guarda-roupa desenhado por verdadeiros estilistas de renome, e o grande ênfase colocado no poder da amizade e do amor.

Fate: The Winx Saga

A história de Fate: The Winx Saga passa-se numa escola de magia que, nos muitos planos aéreos, conseguimos distinguir como um enorme castelo antigo rodeado por paisagens incríveis e verdejantes. Não fosse a série ter sido filmada na Irlanda, claro.

O estilo académico misturado com magia é, imediatamente, reminiscente de franquias como Harry Potter e X-Men, explorando ainda temas como o sentimento de não pertença e inadequação, bullying, sexualidade, questionar das regras e autoridade, decidir o nosso próprio caminho, escolher entre o bem e o mal, entre outros.

Lê mais:  The Witcher | Novas imagens do set revelam presença da Wild Hunt

A Netflix é conhecida pelos seus orçamentos bem recheados, que tornam as suas séries e filmes originais em obras visualmente impressionantes. E Fate: The Winx Saga não ficou atrás nesse aspecto: desde os poderes de diferentes fadas em acção, até à introdução de criaturas de outro mundo, o uso de efeitos especiais foi bem explorado (salvo uma excepção mais para o fim).

Com os seus cenários escuros, guarda-roupa sóbrio, e estilo irreverente, fãs de Riverdale, The Chilling Adventures of Sabrina, The Magicians e Legacies sentir-se-ão completamente em casa. No entanto, nada em Fate: The Winx Saga faz lembrar os antigos desenhos animados.

Em geral

A minha opinião parte um pouco do facto de não ter crescido a ver Winx Club (eu fazia parte da equipa W.I.T.C.H.). Talvez por isso tenha conseguido pensar em Fate: The Winx Saga como um trabalho completamente distinto e apenas tomá-lo pelo que é, e não pelo que poderia ter sido.

No entanto, não posso deixar de apontar algumas falhas. O guião, por exemplo, que, por vezes, se torna ridículo, inconsistente, e que não parece perceber como verdadeiros adolescentes falam ou se expressam. O enredo em si, que dá voltas atrás de voltas sem deixar tomar o fôlego, tornando-se confuso e, por vezes, previsível.

A vontade de ser arrojado, rebelde, e feminista, ignorando completamente o velho adágio “show, don’t tell” e optando por deixas nada subtis, como se o público não fosse inteligente o suficiente para as perceber, torna-a preguiçosa na melhor das hipóteses, e cringy, na pior.

Penso que um dos problemas principais da série foi sofrer de uma crise de identidade: quis satisfazer tantos tipos de audiência, tocar em tantos pontos, que acabou por se fragmentar em demasiadas direcções e perder o seu rumo.

Quis ser nostálgica ao incorporar uma franquia adorada por fãs de todo o mundo. Tornou-se obscura para apanhar a onda de outras séries populares do género, mas com as quais não se encaixa totalmente. Apresentou tópicos relevantes e actuais, mas não soube ser genuína no seu interesse por eles ou explorá-los com o devido afinco. Foi mais performativa do que outra coisa, e isso deixa-me desapontada (mas não surpreendida).

O positivo

Apesar de tudo isto, não posso dizer que não gostei de ver Fate: The Winx Saga. Teve muitos bons momentos e que fizeram um óptimo trabalho em inclinar-se para o material original de forma criativa e inovadora.

Lê mais:  Netflix | Sustos e arrepios para os mais novos!

Arriscou bastante ao elevar a maturidade da série, tornando-a apetecível para uma audiência mais adulta e, apesar do ritmo algo errático, soube prender a atenção e querer saber mais no próximo episódio. Apresentou cenários muito satisfatórios, destruindo tropes tóxicas e antiquadas, e introduzindo versatilidade.

Após ter acabado a temporada, quis, certamente, continuar a história. A série, por muitas falhas que tenha, consegue o que muitas obras de qualidade não conseguem: entreter o espectador do princípio ao fim.

Um dos seus pontos fortes foi, também, o seu final bastante satisfatório que conectou muitas das pontas soltas até então, criando um enorme cliffhanger no processo, e o qual, diria até, a salvou de uma pontuação mais baixa.

Controvérsias

Uma das maiores controvérsias apontadas a Fate: The Winx Saga foi a falta de diversidade presente no elenco, que substituiu Musa, originalmente asiática, e Flora, uma personagem latina, por duas actrizes brancas. Eliot Salt veio introduzir um conceito interessante ao elenco, no entanto, que foi a existência de uma personagem plus size (algo que Winx Club não tinha de todo) e nisso não lhe posso apontar falhas.

Outra crítica apresentada à série foi o uso de drogas leves, consumo de álcool, presença em festas e outros temas mais adultos levados a cabo por menores no pequeno ecrã (de salientar que nenhum dos actores é menor).

Penso que o problema se prende mais com o facto de muitas pessoas, incluindo pais, estarem à espera de um tipo de série completamente diferente, visto basear-se em desenhos animados para crianças, e não tanto com o facto de essa representação ser errónea. Qual o adolescente que nunca teve contacto com nenhuma dessas situações?

Na minha opinião, é uma representação realista (apesar de batida); simplesmente houve uma falha não só no marketing mas também na própria decisão de utilizar o conceito de Winx Club em primeiro lugar. Deviam ter criado uma série completamente original, evitando assim as comparações.

Muitos também expressaram interesse em que Fate: The Winx Saga tivesse mantido um semblante minimamente parecido ao dos desenhos animados, mas os criadores decidiram optar pelo rumo completamente oposto – o resultado final assemelha-se, assim, mais a uma fanfiction do que outra coisa. O que não é uma coisa má, mas podia ter, definitivamente, sido melhor.


E tu, já viste Fate: The Winx Saga? O que achaste? Eras fã de Winx Club?

Conclusão da Análise
No bom caminho
6.5