Luca é a mais recente criação Disney e Pixar a aterrar directamente na plataforma Disney+. Através de uma viagem subaquática que se estende à vila de Portorosso, Luca, Alberto e Giulia conduzem o enredo emocionante desta colorida longa-metragem, dirigida por Enrico Casarosa.

Há muito tempo que sou apaixonado pela Pixar e pela forma como o estúdio conta histórias para toda a gente, tornando-as especiais para cada um. Ao longo de mais de 20 anos, aprendi a encontrar Easter Eggs e a teorizar sobre o significado dos mais pequenos e discretos pormenores. Com isso, percebi ainda que uma história densa e carregada não é o mais importante. Afinal, não é (também) pelo exercício imaginativo que lemos, que vamos ao cinema e vemos televisão, que desenhamos e escrevemos as nossas ideias? Luca é, em traços gerais, expansivo, criativo e um filme “com bastante oxigénio”. Apesar de aparentemente simples ou pouco ambicioso, Luca tem a capacidade de envolver os espectadores, dando-lhes espaço e vontade para ver e rever, descobrir novos detalhes e desenvolver teorias acerca de referências, inspirações, metáforas e acontecimentos.

Com uma abordagem original, Luca não deixa, ainda assim, de nos remeter para obras como A Pequena Sereia, À Procura de Dory e Ponyo à Beira-Mar, não só pela passagem da vida aquática para a vida à superfície, mas pela combinação de elementos de realidades inicialmente opostas, que acabam por se encontrar e desmistificar ao longo da acção. Tratando-se de uma produção da Pixar, torna-se inevitável esperar por algo completo e superior a uma história interessante, com uma ou outra piada e visualmente bem conseguida.

Bem-vindo a Portorosso, Luca!

Luca Paguro é um tímido e jovem monstro marinho, guardador de um cardume de peixes, cujo quotidiano acaba por desinteressar o seu espírito inquieto e sonhador. Sem surpresas, o conceito de sonho e a escrita da personagem sonhadora guiam toda a criação, quer em cenas com algum peso dramático, quer em momentos de pura expansividade criativa. “Sonhador” é possivelmente o adjectivo que descreve o protagonista Luca da melhor maneira, aliando-se à ingenuidade e à impulsividade, para conquistar e envolver o público no conforto ou no desconforto de cada cena.

Após demasiado tempo a percorrer os mesmos corredores subaquáticos, Luca deixa-se atrair pelo desconhecido, arrastando então a história até à superfície, onde dá os primeiros passos em terra, com a ajuda de outro monstro marinho, o extrovertido e pragmático Alberto Scorfano. Juntos, sobem até Portorosso, uma pequena vila italiana, na qual se desenrola a maior parte do enredo. Elementos periféricos e que incorporam o cenário, tais como objectos, músicas, roupas e diversas pistas, além de claras referências a matérias da cultura italiana, apontam no sentido de se tratar de uma acção enquadrada numa época anterior, possivelmente em meados do século passado. Este intervalo temporal, para além do contributo estético, permite compreender determinados momentos do filme.

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Embora receoso, Luca deixa-se levar aos poucos pela curiosidade, descobrindo na superfície um mundo completamente novo, fora da sua zona de conforto e onde todos os sonhos podem ser tornados realidade. Entre Vespas, gelados e redes de pesca, Luca e Alberto percebem que há obstáculos que só podem ser ultrapassados em conjunto e com a força da amizade. Força essa que conta ainda com o terceiro elemento deste trio de “improváveis”, Giulia Marcovaldo, filha de Massimo Marcovaldo, pescador e acérrimo caçador de monstros marinhos. Através de confrontos e superações, no decorrer da exploração de Portorosso e do horizonte, o trio de protagonistas acaba, de modo leve e divertido, por ser a engrenagem central da narrativa.

Quanto ao cenário, Portorosso é digno de um bonito postal turístico. Seja nas pequenas casas de tons iluminados, no movimento da água na costa ou nas roupas a secar ao vento, tudo respira cor, Verão e uma certa nostalgia. Diria que o trabalho de direcção de arte em Luca é praticamente irrepreensível. Do fundo do mar às ruas tipicamente italianas, o mais pequeno elemento parece desenhado ao pormenor. As cores são vivas e bem combinadas e os objectos mantêm o seu carácter animado, conseguindo transformar o cenário e cada cena em espaços acolhedores e visualmente agradáveis.

praça  

O mensageiro é a mensagem, mas um vilão é um vilão

Uma das principais diferenças que percebi em Luca, quando comparado com outras criações da Pixar, passa pela componente sentimental do filme. Luca fez-me rir, viajar entre pensamentos e, inevitavelmente, chorar, como de resto tantos outros (em particular Up – Altamente e Divertida-Mente). No entanto, nos momentos mais delicados, sinto que não foi a acção que me emocionou, mas sim o que a personagem em causa estava a sentir. Reconhecer em Luca bastantes traços da minha personalidade ao longo dos anos pode contribuir para a empatia, mas não há como deixar de mencionar o fantástico trabalho em termos de desenvolvimento da narrativa. Uma lição de storytelling e um exemplo de como é possível transformar algo simples num mar de reflexões e de mensagens relevantes.

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Por outro lado, em relação à história na sua vertente mais estrutural, o antagonista segue igualmente um rumo curioso. Ao contrário de outros vilões, sejam personagens, ideias ou acontecimentos, no caso de Luca, o vilão Ercole resume-se apenas ao mau da fita. Sem ocasião para considerações acerca do passado, de traumas ou privações emocionais da personagem e, como consequência, sem espaço para qualquer episódio de empatia, o antagonista é apresentado como vazio e puramente cruel. Num registo provocador, Ercole é o bully desagradável, com o qual infelizmente muitos improváveis se cruzaram em tempos.

gruta  

Silenzio Bruno!, porque a música é bonita

Apesar de não ter reviravoltas bruscas ou uma componente emocional pesada como outras obras da Pixar, Luca é leve, mas tem a capacidade de nos tornar frágeis, expondo-nos à situação em cena. Em vários momentos, sem qualquer exercício forçado de projecção, acabei empurrado para o lugar de várias personagens. Não deixa de ser impressionante que um trabalho criativo aparentemente ingénuo seja capaz de nos transportar ou encontrar desta forma tão objectiva.

A destacar (e indispensável também), a banda sonora assustadoramente bem conseguida. Mesmo que temas conhecidos como Città vuota, O mio bambino caro e Il gatto e la volpe integrem a banda sonora de Luca, é nos originais, de Dan Romer, que está a essência da criação. A trilha sonora conduz-nos facilmente às águas tépidas do mar, à calçada italiana ou a uma viagem em torno das estrelas, sempre à boleia de uma Vespa e numa sucessão de associações e memórias quase impossível de descrever. Dos instrumentos às transições, a escolha musical é impecável e possui a inspiração certa e a energia que se pretende.

Luca é um mar de simbolismo, autenticidade e arte. Entrega-nos em mãos uma história simples, mas emocionante, e personagens que queremos ao máximo ver nadar, correr ou pedalar em direcção a um final feliz. Como excelente filme da Pixar que é, Luca está muito bem escrito, colando-nos ao ecrã do início ao fim, com um sorriso no rosto e uma lágrima a espreitar. Tendo a esfera emocional pintada com um ambiente visual perfeito, está reunida a receita para uma obra-prima. Santa Ricotta!

Luca estreou a 18 de Junho e está agora disponível no Disney+.

Conclusão da Análise
Genuinamente especial.
9