Vou ser honesto e confessar algo: gosto da maior parte dos jogos publicados pela KEMCO. Desde minha análise a Blacksmith of the Sand Kingdom, aqui na Squared-Potato, descobri um grande número de videojogos decentes, todos eles seguidores da onda tradicional imposta pelo género JRPG. Na busca por mais títulos encontrei Marenian Tavern Story: Patty and the Hungry God. Passei os olhos pela ficha técnica e constatei que a Rideon estava no comando deste jogo; fiquei estupidamente contente e coloquei mãos à obra. No entanto, mesmo tendo em mente que Marenian precede Blacksmith em todos os aspetos (menos no enredo) nada me preparava para a mediocridade.

Começo pelo enredo que, honestamente, é muito original: Patty e Gino, seu irmão, regressam ao final do dia depois de um longo passeio. Desatento às suas redondezas Gino embate, sem querer, contra uma estátua no caminho. Este pequeno busto servia de casulo a Coco, conhecido como o Deus Esfomeado e o titular Deus da Pobreza. Apesar de ser um bichinho branco e fofinho, Coco estabelece um pacto com Gio, formalizado pela ignorância de Gino em oferecer-lhe comida. Isto despoleta uma série de eventos azarados na vida de Patty e companhia: a sua taberna é apreendida pelo banco, o pai não se encontra em lado algum, entre tantas outras coisas que fariam qualquer um desistir da vida. No entanto, o presidente de uma cidade vizinha decide ajudar e permite Patty apoderar-se de uma taberna abandonada.

Novamente, sendo muito honesto, poderia dar a análise terminada por aqui: todas as mecânicas em Marenian são, sem tirar nem por, chapa cinco (como se costuma dizer) do que é encontrado em Blacksmith (apesar de um ter sido lançado depois do outro). Identifica-se primeiramente como um JRPG mas, na verdade, pertence a um grupo seleto de crafting-rpgs. Neste caso? A temática gira à volta da comida. Engraçado sim, mas é mais problemático do que parece. Antes de argumentar o porquê sucintamente explico como funciona o ciclo de três etapas no jogo: quando Patty acorda é feito uma preparação geral que vai desde fazer compras a equipar armamento básico. Posteriormente escolhemos um sítio no mapa-mundo para coletar itens e, por último, regressamos à taberna para preparar a ementa; é o ciclo vicioso do repete-repete.

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Estes títulos são, por natureza, muito viciantes quando bem executados pois está imposto um sistema constante de risco e recompensa. Marenian, no entanto, vai um pouco mais além nessa questão. Neste mundo fictício todas as mecânicas estão assimiladas com a comida que Patty produz. Queres subir de nível? Frita um bife. Queres ganhar dinheiro? Coze esparguete. Queres avançar na história? Assa umas batatas. Na minha experiência e opinião, apesar do conceito em papel fazer sentido até certo ponto, não funciona muito bem. Várias foram as alturas em que fiquei sem dinheiro ou sem ingredientes, sem grande forma de progredir porque está tudo colado a uma moeda de troca única: comida. Como se não bastasse (e faz todo o sentido) cozinhar em estilo livre, uma das diferentes formas de cozinhar, frequentemente resulta num fracasso e perda de ingredientes. No entanto, por alguma razão, o mundo está atolado de receitas em tudo o que é canto.

Fora da cozinha, Patty estabelece laços de amizade com outros concidadãos que a ajudam nas aventuras fora da aldeia. Como já é habitual em jogos deste género, durante o decorrer da aventura juntam-se outras personagens à festa. Bom é testemunhar, no entanto, que cada uma tem a sua presença no enredo justificada e trabalhada com o passar do tempo. Ainda assim, apesar da equipa que segue Patty nas batalhas ser à escolha, pouca razão existe para não apostar em três personagens favoritas e mantê-las até o cair da cortina. Não só porque é trabalhoso criar comida para subir o nível das personagens, mas também porque todas têm um conjunto de habilidades equilibradas, removendo qualquer necessidade de experimentar grupos diferentes.

No acto de explorar o mapa-mundo para coletar itens preciosos existe, em cada momento, a possibilidade de desencadear uma batalha aleatória. Como bom JRPG que se preze o combate decorre por turnos; atacar, utilizar um item ou defender revelam que a fórmula ainda funciona por isso não há necessidade de inventar muito. Infelizmente, para detrimento da experiência, todas estas batalhas podem, na sua grande maioria, serem terminadas com a função de Auto Battle, com a exceção dos inimigos mais poderosos que servem de entrave para progressão na história. No entanto existe aqui outro problema: a inteligência artificial do Auto Battle não é muito inteligente, frequentemente utilizando magia de alto nível para terminar com um grupo de inimigos fracos, por exemplo. Isto não seria muito mau se a taxa de frequência a que ocorrem as batalhas não fosse surpreendentemente alta e inconsistente. Podemos estar a encontrar batalhas de dez em dez passos, para depois correr um mapa quase todo sem acontecer nada.

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Por último basta referir que o título, assim como Blacksmith, traz atrelado a si algumas convenções free-to-play comuns a jogos de telemóvel. Existem jóias que revivem a equipa toda depois de uma batalha fracassada, assim como acesso logo de início a grandes atualizações à taverna ou armamento especial. No final do dia só compra quem quer, mas a verdade é que está lá.

CONCLUSÃO

No final do dia Marenian Tavern Story: Patty and the Hungry God tenta ser uma boa experiência para qualquer amante de JRPGs com um fraquito por crafting-rpgs. Meio que consegue ser bem sucedido na sua missão não fosse, na minha opinião, mais papista que o papa como se costuma dizer. O conceito de ligar tudo à comida é engraçado e com certeza faz sentido no papel, mas a sua execução deixa a desejar; a banda-sonora, tão boa que nem foi referida em análise, serve apenas de barulho de fundo. Fica por elogiar o enredo que, muito sinceramente, é do mais original que vi no género até à data. Se pelo menos tudo o resto fosse assim.

Conclusão da Análise
Decente
5
Desde muito cedo um confesso apaixonado pelos mundos da PlayStation e consolas Nintendo. No entanto a vida dá muitas voltas e agora o seu amor foca-se nas novas Xbox Series. Nada como paixão à primeira vista, não é verdade?