A série Shadow and Bone estreou na Netflix há apenas duas semanas e já causou sensação entre os fãs de fantasia. Frequentemente comparada a The Witcher, será que lhe chegou aos calcanhares?

Ficha técnica

Shadow and Bone foi desenvolvida e adaptada por Eric Heisserer (Arrival, Bird Box, The Thing) e a 21 Laps Entertainment. Jeremy Webb (Doctor Who, The Umbrella Academy, The Punisher, Altered Carbon) está a cargo da realização e David J. Peterson (Game of Thrones, The Witcher) foi o criador da linguagem fictícia do mundo Grisha.

O elenco conta com Jessie Mei Li, Ben Barnes, Freddy Carter, Amita Suman, Kit Young, Archie Renaux, Danielle Galligan, Daisy Head, e Sujaya Dasgupta nos papéis principais. A primeira temporada tem 8 episódios.

História

Shadow and Bone segue a história de uma órfã, Alina Starkov, que cresceu num orfanato no reino de Ravka. Durante uma viagem pelo Fold, num pedaço de terra escuro e infértil habitado por monstros vorazes chamados Volcra, Alina quase é morta, levando-a a manifestar poderes extraordinários – poderes que apenas uma parte da população, os chamados Grisha, têm acesso.

Estes controlam os elementos e usam-nos como armas, sendo governados pelo seu líder: o General Kirigan. Este acolhe Alina no seu seio para a proteger daqueles que pretendem obter o seu poder por quaisquer meios necessários, e torná-la num símbolo de esperança e paz. No entanto, nem tudo é o que parece, e Alina terá de fazer escolhas difíceis se quiser manter-se, e aos seus ente-queridos, a salvo.

Origens

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Shadow and Bone é baseada nas obras de Leigh Bardugo, tendo retirado elementos tanto da trilogia principal (Grisha), composta por três livros – Shadow and Bone, Siege and Storm, e Ruin and Rising, como de vários spin-offs passados no mesmo universo: o conjunto de short stories The Language of Thorns, a duologia Nikolai (King of Scars e Rule of Wolves) e a duologia Six of Crows (Six of Crows e Crooked Kingdom).

Análise

Shadow and Bone trata-se de uma das melhores séries actualmente na Netflix e, apesar de algumas falhas, estas não retiram, de todo, qualquer prazer da sua visualização.

Incorporar não só as origens de Alina Starkov e do Darkling, mas também a formação dos Dregs de Ketterdam, foi uma decisão inteligente e que estimulou o passo de forma a manter a atenção do espectador até ao fim, deixando bastante para explorar em futuras temporadas (e, talvez, até um spin-off). Há sempre muita coisa a acontecer, com revelações a caírem que nem tordos, e cada episódio termina com um cliffhanger que obriga a carregar em “Seguinte”.

É quase impossível não acabar Shadow and Bone numa tarde; é realmente viciante. Ficamos facilmente embrenhados nas vidas de Alina, Mal, Darkling, Kaz, Jesper, e Inej, especialmente se já os tivermos conhecido dos livros. Ter acesso não só ao ponto de vista de Alina, mas de uma multitude de outros personagens, elevou a fasquia a um nível completamente inesperado.

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Mas houve outras personagens que ficaram muito aquém de cativar: a sub-história de Nina e Matthias, por exemplo, não é suficientemente interessante para querer seguir ou sequer torcer por eles – muito pelo contrário: leva a que queiramos voltar ao enredo principal assim que possível.

Zoya também tinha potencial para mais, assim como Genya, David, e muitos outros. Mas é possível que as próximas temporadas se debrucem mais sobre eles, algo que nem sempre é possível quando há tantas histórias para contar em tão pouco tempo. A sua inclusão já foi muito satisfatória, no entanto, e trouxe um novo sabor à história.

Se há coisa que um canal como a Netflix não pode descurar numa série de fantasia é no orçamento alocado para coisas como efeitos especiais – algo que esta poderia ter melhorado, com várias instâncias óbvias de ecrã verde a diminuírem consideravelmente o impacto de alguns dos momentos-chave de Shadow and Bone. No entanto, conseguiu ser bastante boa no geral e providenciar uma experiência visual verdadeiramente incrível e atraente. Algumas das cenas são, mesmo, de maravilhar, e com a adição de uma arrepiante mistura de som, conseguiram puxar-me para dentro da televisão sem sequer dar conta.

Só dispensava o efeito desfocado que a Netflix insiste em usar como moldura em todas as suas séries e que não traz nada às mesmas… Só dores de cabeça.

O guarda-roupa foi exímio, assim como os cenários interiores (no mesmo estúdio responsável por produções como Blade Runner 2049) e exteriores deslumbrantes de florestas, palácios e colinas – filmados em Budapeste, na Hungria, e em Vancouver, no Canadá.

Uma mistura fantástica que ilustrou na perfeição os reinos de Ravka e Kerch, separados por uma barreira maligna que os torna completos estranhos um do outro. Sentimo-nos, realmente, transportados para cantos opostos do país, onde a mistura de pessoas, culturas e arquitectura é estonteantemente bela.

As cenas de acção de Shadow and Bone não desapontaram quando comparadas com outras séries semelhantes. É verdade que poderiam, nalguns casos, ter puxado ainda mais pelo conflicto e violência, mas num todo estiveram consistentes com o tom da série – o suspense estava lá e fez jus ao enredo, assim como a inquietação que me deixou na beira do sofá.

A escrita foi, por vezes, cheesy e cliché, mas nada que não se esperasse do género. O facto de a autora ter estado bastante presente durante todo o processo (e ser uma das produtoras executivas) ajudou imenso a prioritizar o material de origem e manter o foco no que interessava. Alguns erros foram cometidos, mas num todo iria tão longe quanto dizer que a série acabou por ser melhor que os livros.

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O elenco (na sua maioria novatos), vestiu a pele dos seus personagens como uma luva. Depois de ter lido a trilogia e os ter visto no ecrã, sinto que cada um deles é a pessoa que interpretam e não poderiam ter escolhido ninguém melhor (os Crows, em especial). Todos os pormenores que decidiram (ou foram aconselhados) a incluir nas suas performances têm significado e deram uma segunda dimensão à história, e estes parecem realmente gostar e preocupar-se com os seus aliases. Vê-los actuar no ecrã foi uma das coisas mais puras deste mundo.

Penso que, com o decorrer das temporadas, estes se venham a sentir ainda mais confortáveis em partilhar o ecrã com actores mais experientes e em explorar a extensão do seu talento – o que será um sonho de se ver.

Se houve algo em que Shadow and Bone brilhou foi na forma como convergiu as várias histórias e na sua abordagem de temas mais maduros e de cariz emocional que raramente vemos em séries juvenis do género.

Ter permitido a Alina experienciar uma existência difícil e passar por toda uma infinidade de erros até chegar, finalmente, onde pertencia, com um desenvolvimento que os livros  acabaram por não explorar, não só foi uma das situações mais satisfatórias (e arriscadas) da série, como aquilo que mais a enriqueceu. Entre muitas outras coisas que não quero desvendar para evitar spoilers.

Fãs dos livros ficarão ainda encantados ao saber que Shadow and Bone está repleta de fantásticos easter eggs e cameos, alguns bem escondidos e outros facilmente detectáveis. Por isso, mantém os olhos bem abertos para não perderes pitada!

Finalmente, comparar Shadow and Bone a The Witcher é ambicioso, mas desnecessário.

Ambas pedem emprestado ecos de folclore eslávico com o intuito de criar mundos fantásticos, e são inspiradas em trilogias famosas entre leitores de todo o globo; mas as semelhanças acabam aí. Isso não significa que uma seja melhor que a outra, até porque afirmar isso seria denegrir as duas. Foram feitas para públicos-alvo totalmente diferentes, com objectivos e toques distintos, e isso faz com que não sejam comparáveis.

Shadow and Bone não quer ser a bebé Witcher e mantém-se perfeitamente única, na sua categoria.

A primeira temporada de Shadow and Bone já se encontra disponível na Netflix.


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