Desafio, Opressão e Punição, diria que estes são os três grandes pilares que baseiam toda a estrutura do mais novo e promissor título da Atlus. Desafio na jogabilidade e na forma como abordas todas as situações apresentadas, Opressão na sua dominante e deprimente (no bom sentido) narrativa, e punição pela sua dificuldade, que te ensina desde cedo que não podes cometer muitos erros em SMT V, mesmo jogando em dificuldades mais baixas.

Neste que é-me um dos títulos exclusivos mais aguardados da Nintendo Switch, conseguimos sentir o “palato” daquela boa receita de um JRPG por turnos à séria, com grinding, desafiante e cheio de combinações e estratégias a delinear antes de cada combate. Se sobreviveres às desafiadoras primeiras horas num longo mapa despovoado de deserto, acredita que nunca mais largas Shin Megami Tensei V, até completares um dos quatro finais do jogo.

Há arte no estado de melancolia

Como vem sido habitual na série, e muito ao contrário do seu irmão Persona, Shin Megami Tensei é o lado depressivo e bastante mais maduro da série, com um enorme componente de solidão face às nossas escolhas muitas vezes morais e filosóficas, personagens envolvidos e os ambientes ao seu redor, misteriosos, perigosos; cinzentos. Desta feita, o protagonista é um aluno duma escola secundária de Tóquio, que se vê transportado para um reino em desintegração, que vive numa constante guerra entre anjos e demónios. Após a fusão com um ser cabalístico, somos transformados em alguma “raça” misteriosa, que mais tarde será divulgado na narrativa, um Nahobino. A história não é tão brilhante como Shin Megami Tensei III que é para mim o melhor da série em narrativa, mas continua com as boas ideias, arrojadas como sempre.

Shin-Megami-Tensei-V-God  

Será a partir dessa fusão que o nosso protagonista recebe as habilidades necessárias para lutar e negociar, e capturar demónios. Novamente, toda a essência que tem sido traçada nos jogos anteriores, continuam aqui vivas, naquele que é dos melhores combates de turnos em todos os JRPG modernos, desde a exploração da fraqueza dos inimigos, fusões entre demónios, um sistema único de gestão de grupo, e todos os elementos já característicos da franquia. No entanto, existem algumas diferenças presentes em exclusivo nesta quinta entrada da série, as Essences. Esta mecânica é basicamente a absorção do ADN de cada demónio, adquirido através de afinidade, ou colectando em partes escondidas do mapa, que após usado, te fazem transportar habilidades (ataques) de um demónio para outro; incluindo o teu protagonista. Isto irá ajudar a explorar essencialmente as batalhas contra os grandes chefes, ou enormes grupos de inimigos de cada uma das quatro vastas zonas do jogo.

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São mais de 200 demónios disponíveis, todos eles muito singulares, baseados em muitas das mitologias, crenças e religiões que habitam no nosso planeta. Através de um compêndio bem detalhado, podes registar os teus demónios para os mais tardes invocar, e também ler e aprender um pouco de cada um, com um estilo de biografia muito caricato, normalmente sempre com uma frase filosófica a acompanhar. É um conteúdo extra que além de servir para alargar a sabedoria mitológica, dá a conhecer algumas das ideias ilustrativas dos criativos deste enorme trabalho.

Jogar pelo Seguro, com algumas peculiaridades

As grandes novidades não são muito significativas em SMT V, tendo a Atlus dando preferência a uma abordagem segura que vem fazendo sucesso. Não obstante, algumas inovações foram apresentadas, além das Essences que mencionei acima. Começando pela mais impactante: as Dungeons quase que “acabaram”, isto é: o mundo por si só passa a ser um gigante bioma diversificado, com 4 gigantes áreas. Acabaram aqueles corredores meticulosamente conectados, agora és colocado no mapa desolado e apocalíptico de Tóquio, e motivado a explorar cada canto de si. Isto torna a experiência muito mais imersiva no meu ponto de vista. Também acabaram as batalhas de surpresa, que sinceramente fazem um enorme jeito a tipos como eu, que se esquece de curar após a mais recente batalha.

Outras duas funcionalidades muito interessantes são a “Glory” uma espécie de moeda que pode ser obtida ao encontrar Mimans, ou pequenos segredos resultantes da tua exploração como Amalgams ou Glory Crystals, e os “Miracles“, que como o anglicismo indica, são milagres comprados com glory, que passam por ser habilidades passivas para o teu protagonista, que ajudará com melhoramentos das stats nas batalhas, negociação com os demónios, fusões, entre outros. Os milagres podem ser adquiridos no Cadaver’s Hollow, um local específico protegido pelo Gustave – o guardião coleccionador -, uma figura completamente ímpar.

Shin-Megami-Tensei-Batalha  

O que não parece ter sido mexido de todo, é o grind. Não me interpretem mal, eu sou das poucas pessoas que até gosta, no entanto, a Atlus que nos trouxe mudanças óptimas de Persona 4 para Persona 5 e ainda mais com a versão P5Royal no que toca a evitar o excesso de grind, não inovou nada nesse quesito em SMT V. A campanha foi finalizada em normal, e honestamente não consigo indicar as vezes que tive que matar os mesmos demónios, sucessivamente. O primeiro boss é assustador, e se não tiveres bem evoluído, sentirás muito rápido o que escrevo neste segmento da análise. Nas aproximadas 67 horas da minha campanha, certamente que 15 ou mais delas, foram passadas em modo grindfest.

As missões secundárias, que normalmente são nada mais que entregar itens caídos pelos demónios após combate, ou matar x quantidade de criaturas, continuam no mesmo padrão, ainda que haja um pouco mais de variedade, e até algumas surpresas com uns demónios bem poderosos. Esta adição é bem-vinda, mas sinto que podia haver aqui um pouquinho de capricho, já que estas são quase essenciais para atenuar o aborrecimento do grind.

Até aos limites da Nintendo Switch, e mais além…

Se os trabalhos da Atlus não te forem estranhos, irás facilmente identificar o seu traço visual em Shin Megami Tensei V. Há influências gráficas desde Persona, Catherine, e até o mais recente 13 Sentinels: Aegis Rims. É claramente um jogo Atlus, a olhos vistos. Os enormes mapas 3D estão superbem idealizados, com variadas ambientações e detalhes que causam uma grande sensação de profundidade graças à escala e iluminação, assim como os modelos das personagens; com um destaque especial para cada demónio.

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Shin-Megami-Tensei-Boss  

Infelizmente o hardware da Nintendo Switch não acompanha tão bem toda a experiência, com a desvantagem de raramente se manter a 30 fotogramas por segundo, mesmo em áreas menos variadas, e até mais interditada de cada mapa. Não é nada que te vá estragar a jornada, uma vez que falamos de um JRPG por turnos, mas no final de 2021 já estou a ficar muito mal-habituado no quesito de desempenho, especialmente após a recente transição de nova geração de consolas.

Outra nota positiva é a banda sonora: que maravilha e que misto de sentimentos! Provavelmente estamos perante a melhor entrada sonora da série, com novos temas completamente atmosféricos de acordo com o seu ambiente, e reminiscências de alguns dos títulos clássicos de toda a franquia. Uma vez mais, trazendo Persona à baila (que para mim tem uma das melhores, se não, a melhor banda sonora de qualquer JRPG), o jazz pautado e aquela vibe energética em faixas como Beneath the Mask, dão lugar a uma mood bem mais pesada, com faixas enigmáticas, calmas e até inquietantes, capazes de mexer com a tua ansiedade. É esta a força e magia de uma banda sonora Atlus, como vem sendo habitual. Ficarei a aguardar ansiosamente pela banda sonora oficial.

Shin Megami Tensei V foi lançado a 11 de novembro, e está disponível em exclusivo para Nintendo Switch.

CONCLUSÃO
Viciante, Artístico, Desafiante
9
Curioso, explorador, e fã de videojogos desde que me lembro, e em especial pela saga Metal Gear. Não jogo plataformas, jogo jogos.