Smelter é estranhamente bom. Na realidade atrevo-me a dizer que não deveria funcionar, mas está longe de ser verdade. Desenvolvido pela X Plus, Smelter é uma obra de amor por títulos como Actraiser da SNES, um videojogo lançado em 1990 que misturava os géneros de Ação em Plataformas em conjunto com Estratégia. Em teoria são dois géneros completamente distintos, onde cada parte poderia inclusive ser o seu próprio jogo, mas Smelter consegue juntar ambos e oferecer uma experiência única, diferente de muito do que se encontra por aí.

A aventura inicia com a recriação bíblica de Adão e Eva no jardim de Éden. Contudo, neste caso em específico, quem come a maça é Adão, despoletando uma reacção representativa da queda de ambos face à imagem de Deus. Eva é vista a cair num abismo profundo, eventualmente, aterrando num sítio chamado Rumbly Lands. Sem saber do paradeiro de Adão, Eva parte em busca do seu amado e pelo caminho, encontra um autoproclamado anjo chamado Smelter. Um curto diálogo depois seguido por uma sequência animada muito reminiscente das transformações das Navegantes da Lua, Smelter junta-se a Eva como sua armadura, imbuindo-a de poderes mágicos como arma rumo à saída da masmorra onde se encontram. O restante enredo desenvolve-se com o passar dos níveis, veiculado por texto um pouco infantilizado, mas entretido de qualquer forma.

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A narrativa em exposição não é propriamente uma criação literária de respeito, aliás muito frequentemente a escrita infantil deixou-me de pé atrás. Compreendo que nada em Smelter seja para levar a sério, mas chega a ser demasiado qualquer pedaço de diálogo ter uma ou outra ‘piadinha’, com personagens constantemente a tentarem ser mais espertas ou sarcásticas que as outras. Em qualquer instância o enredo é minimamente satisfatório, cruzando Smelter e Eva com personagens interessantes para guarnecer sabor à aventura. Felizmente os visuais e a banda-sonora mais do que colmatam este pequeno mal, com a nostalgia da era de 16-bits a bater em cada canto do título.

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Sendo um videojogo que retira inspiração de vários outros, não seria alienígena declarar que larga parte das secções em plataformas são reminiscentes de Mega Man X. Não só são as animações muito semelhantes, assim como os poderes que Eva e Smelter adquirem, mas também como o título naturalmente flui em termos de estrutura de níveis, obstáculos a ultrapassar, etc. Para ser um pouco mais do que correr, saltar, disparar e deslizar, Smelter providencia o jogador com três árvores diferentes de habilidades. Um duplo salto ou a capacidade de refletir projéteis com um escudo, são alguns dos exemplos evidenciados, desbloqueando muitos outros durante as vinte horas de jogo. Existe variedade e de acordo com a minha experiência, todas as habilidades têm a sua função, considerando-as úteis.

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Os doze níveis são, em larga parte, bastante imaginativos e coloridos, todos respeitando uma ou outra temática da aventura. Apesar de serem frequentemente lineares, Eva e Smelter atravessam desertos, cavernas, fábricas, templos, entre outras secções interessantes e apelativas. O melhor aspeto, no entanto, são os níveis disporem de coleccionáveis ou salas específicas e desafiantes. Estas foram o elemento mais divertido, mas também mais frustrante, de toda a experiência. Essencialmente cada desafio é produzido no seu próprio espaço-tempo e incute ao jogador o problema de ultrapassar vários obstáculos utilizando apenas um certo elemento no repertório do jogador. Se forem bem sucedidos a recompensar é uma ficha utilizável para desbloquear ou melhorar habilidades.

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A outra componente, mais estratégica da jogabilidade, é alcançada assim que a dupla chega à superfície. Com uma vista de cima para baixo completamente diferente dos níveis em plataformas, Smelter entende que o seu reino foi destruído e necessita de reconstrução. Para isso, a custo de alguns recursos, estruturas defensivas e passivas são postas em linha de construção, combatendo hordas de inimigos até desbloquear o próximo nível. Existe uma dinâmica entre manusear os recursos inteligentemente e combater as ondas hostis, algo que o tutorial não explica muito bem, mas não deixa de ser uma aprendizagem prática e rapidamente o fluir natural do título é alcançado, bem como as mecânicas compreendidas. Apesar de ser um pouco enfadonho, pelo menos comparativamente às secções mais entusiasmantes de acção, foi o modo de jogo que mais gostei. É muito raro em consola encontrar algo deste género, transformando a sua presença ainda mais aliciante para quem gosta do género em si.

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Conclusão da Análise
Nostálgico
8
Desde muito cedo um confesso apaixonado pelos mundos da PlayStation e consolas Nintendo. No entanto a vida dá muitas voltas e agora o seu amor foca-se nas novas Xbox Series. Nada como paixão à primeira vista, não é verdade?