Twin Mirror aborda, de forma consideravelmente rápida, a história de Samuel Higgs, um ex-jornalista que regressa a Basswood, onde outrora fora feliz, para o funeral do seu melhor amigo. Inevitavelmente, Sam acaba por ser inundado por memórias do passado, representadas através de lembranças associadas aos mais pequenos detalhes que o cenário oferece. Uma interpretação delicada do conceito de nostalgia, articulada com um enredo misterioso, embora previsível e pouco atractivo para os adeptos do estilo.

À semelhança de outros títulos, como Life is Strange e Detroit: Become Human, Twin Mirror baseia-se numa narrativa interactiva, na qual o objectivo principal passa por tomar decisões afectas a diálogos e acções, condicionando o rumo da história em direcção a um dos diferentes finais existentes. Este modelo de envolvimento tende a resultar bem, não apenas por permitir uma reflexão de personalidade, mas por apelar a uma imersão emocional profunda e diferente da que encontramos noutros campos. A questão é: Estará Twin Mirror à altura da evolução da qualidade narrativa e criativa tendencialmente crescente do género?

Twin Mirror e a reinvenção da fórmula

Ao longo desta viagem, reconheci semelhanças em relação a outros títulos do género, nomeadamente ao clássico Heavy Rain e a Beyond: Two Souls, ambos munidos de elementos-chave para o sucesso que não existem em Twin Mirror. De certa forma, esta mais recente criação da DONTNOD combina a componente física e policial de Heavy Rain com a dualidade mais introspectiva de Beyond: Two Souls, sem no entanto as trabalhar ao ponto de igualar a qualidade dos originais. As personagens são claramente o estilo básico e simplista que a DONTNOD criou e mantém em Life is Strange, mas não é pelo realismo visual que estes títulos se tornam sucessos.

A narrativa e o enredo são necessariamente a base para qualquer criação do género, tornando os restantes elementos quase secundários e permitindo um certo crédito para pequenas falhas que possam ocorrer e que, efectivamente, têm lugar em Twin Mirror. Entre outros títulos, jogar Life is Strange: Before the Storm ou Life is Strange 2 é como ler um livro que se vai escrevendo, e é nesse eixo que reside a magia da narrativa interactiva.

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Em contrapartida, Twin Mirror não incorpora praticamente qualquer um destes elementos. A escrita de personagens e acontecimentos é vazia e desinteressante, o universo é básico, embora confuso, e não há proximidade suficiente com personagens e backgrounds, para que a experiência de jogo seja dirigida da forma adequada. Recordando novamente Life is Strange, nem sequer uma banda sonora marcante Twin Mirror mereceu. É linear em toda a linha, demasiado superficial e um desperdício do potencial de uma óptima ideia.

Bom conceito, má execução

Perdi algum tempo à procura de elementos positivos que pudessem somar pontos à classificação de Twin Mirror. As expectativas eram altas, tendo em conta tratar-se de uma criação da DONTNOD, mas acabaram por ser completamente viradas do avesso. Twin Mirror é salvo pelo conceito, mas destruído pela execução. A ideia de explorar memórias e um infeliz e tortuoso sentimento nostálgico – de que gosto particularmente, por mais estranho que possa parecer – teria imenso potencial, especialmente quando aliada a um enredo que (se pretendia) misterioso e enigmático. Parece a receita para um prato perfeito, não fosse ele acabar mal cozinhado.

A densidade narrativa e o nível de envolvimento necessários para que Twin Mirror resultasse foram atraiçoados por uma execução apressada, demasiado curta e excessivamente simples. Não houve tempo para que a história fosse bem contada nem para que as personagens se tornassem próximas o suficiente ao ponto de tornarem as decisões realmente envolventes. Ainda assim, o conceito da dualidade de pensamento e do impacto causado nas relações com os outros é um mote genial para desencadear uma viagem introspectiva e capaz de despertar emoções, marcando o género por uns bons anos, tal como Beyond: Two Souls conseguiu fazer. Infelizmente, quase tudo seguiu pelo caminho errado e um fósforo usado não volta a acender.

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Acredito que Twin Mirror, além de uma escrita mais elaborada, merecia uma série por episódios, de forma a que personagens, enredo e mensagem se tornassem coesos, esclarecedores e então com impacto. Dei por mim perdido e baralhado por várias vezes, sempre à espera de um certo clique que pudesse esclarecer tudo, mas isso não aconteceu. Ao contrário do universo Life is Strange, nem sequer restou espaço, conteúdo ou vontade para considerar ou elaborar eventuais teorias discutíveis em fóruns e grupos, que alimentassem a marca e a própria história.

Partindo da DONTNOD, não esperava grandes elaborações gráficas ou um espectáculo visual, nem sequer momentos de acção ou de agilidade técnica; apenas aguardava um enredo brutal e desconfortante, porque é disso que vive este tipo de criações. Na ausência dessa narrativa e de uma escrita realmente inteligente, pouco resta para conseguir salvar o jogo.

Twin Mirror, lançado a 1 de Dezembro, encontra-se agora disponível para PlayStation 4, Xbox One e Windows.