Tinha eu cerca de 10 ou 11 anos, quando Digimon Tamers acabou na SIC e vimos as imagens do trailer do que seria a nova temporada e os digivices novos na Toys ‘R’ Us, fiquei com imensa vontade de ver esta série, que depois nunca cheguei a ver por causa das constantes trocas de horários e grelha da programação infantil da SIC, ficando sempre ali com o bichinho e o apego ao design dos personagens ao longo do tempo. Nos tempos de faculdade revi os dois adventure e os filmes, e agora, na casa dos 30, decidi continuar a minha maratona por este mundo. O ano passado vi Digimon Tamers, que adorei, e estava entusiasmado para no seguimento, entre os outros animes que analiso aqui, começar Digimon Frontier, para satisfazer a minha criança interior. A série foi vista na versão japonesa, portanto qualquer diferença em nomes vai advir da localização americana. Peço desde já desculpa mas prefiro manter-me na versão original.

A única coisa que sabia do anime à partida era o design dos personagens e que, desta vez, não haveria bichinhos fofos que agiriam como animais de estimação que evoluiam com o seu dono e o seu laço, mas que as crianças seriam os digimons. Uma ideia bastante controversa pela internet visto que muda algo fulcral ao que torna a série familiar, por algo estranho. Na minha opinião, seria uma premissa interessante, já que a evolução em todas as entradas da franquia que vi até agora e jogos que joguei dá-se por uma descoberta emocional ou um desenvolvimento emocional no personagem, ou a descoberta de um sentimento novo central à sua personalidade, além do laço com o seu digimon, e se nos lembrarmos em Digimon Tamers, a primeira vez que se conseguiu alcançar o estágio mega foi no mundo digital porque as crianças lá eram dados digitais, então poder-se-iam fundir com os digimons. A meu ver, esta ideia permitiria explorar muito mais a personalidade e desenvolvimento emocional dos cinco protagonistas, que é o que normalmente me agrada num anime.

A história começa de maneira intrigante: um dia, várias crianças ao mesmo tempo recebem uma mensagem de texto nos telemóveis que diz algo do tipo “Entra neste jogo se queres tomar controlo do teu futuro. Vais jogar? ” e as respostas sim e não. Seguimos o ponto de vista de Takuya, um rapaz impulsivo que decide carregar no sim porque deseja tomar controlo do seu futuro e está intrigado. Vemos também que este não é um dia normal para Takuya: existe um bolo de aniversário em casa e a mãe pede-lhe para chegar a horas a casa. Ele corre até chegar ao metro de Shibuya, onde um elevador o leva para a entrada do mundo digital, onde o telefone diz de novo para entrar no comboio desconhecido, que é na verdade um digimon chamado Trailmon, e para ir até ao terminal da floresta. Sem hesitar, Takuya entra no Trailmon para começar a sua aventura.

O que me pegou deste início foi o seguinte, “o que levaria crianças e pré adolescentes assumidamente normais largar a sua família e o conforto da sua vida por uma mensagem tão vaga como tomar conta do seu futuro? O que lhes falta? O que eles procuram?”, porque na primeira série, eles são levados contra a sua vontade e têm de sobreviver e crescer para ser capazes de salvar o mundo. Na segunda existe toda uma rede de apoio e personagens mais velhos que os podem ajudar. Em tamers, simplesmente o mundo digital começa a fundir-se com o humano, e na maioria das vezes a ação decorre no mundo humano. Então a pergunta ecoava na minha mente, este “porquê?”.

Takuya rapidamente conhece o resto dos personagens: Tomoki, um rapaz mais novo que foi forçado por bullies a entrar no comboio; Kouji, um rapaz de poucas palavras que estava com ele no comboio para Shibuya e parece não querer se relacionar com o grupo ao princípio; Junpei, um rapaz cobarde, que desesperadamente precisa de ser aceite e quer ser o líder do grupo e impressionar a rapariga; e Izumi, uma rapariga que às vezes fala em italiano. Tirando o Tomoki, nós inicialmente não sabemos o que levou cada um deles a seguir uma mensagem de um estranho e apanhar um comboio para o infinito, então as perguntas adensam-se. Ao cast de humanos juntam-se dois digimons: Bokomon e Neemon que servem o primeiro para explicar lore do mundo que nenhum dos personagens tem como saber e ambos como alívio cómico.

Com o passar de vários episódios, cada membro do elenco ganha um espírito de um dos 10 guerreiros lendários que derrotaram o terrível anjo caído Lucemon há séculos atrãs, ganhando assim cada criança, a habilidade de se transformar em um digimon de um elemento diferente. E assim começa a série, com 5 desconhecidos a seguir mensagens do seu telefone e tentar descobrir o mistério do que está a acontecer naquele mundo novo, enquanto o espectador além desse mistério tem o de “o que raio está na cabeça destas crianças e do que eles estão a fugir?”. A primeira parte da história segue mais ou menos como de esperar, somos apresentados aos personagens de modo pausado e ponderado e aprendemos mais sobre eles a cada episódio. O Junpei usa chocolate para tentar subornar digimons, o Takuya imediatamente decide tomar o lado do Tomoki sempre visto que ele é o mais novo e temos de deixá-lo ser uma criança, o Tomoki debate-se com a questão de se bullies devem ser castigados fisicamente, a Izumi explica que viveu muito tempo em Itália e mudou-se agora para o Japão, e o Kouji vai abrindo as suas desconfianças mas mostra que veio a este mundo por algo mais sério do que um jogo de crianças.

Com o passar do tempo, descobrimos que cada um dos 10 guerreiros lendários era de cada um dos elementos, o que nos indica que existem outros 5 personagens que podem aparecer mais tarde. Mas que pessoalmente, me causou algumas dúvidas na cabeça. É nos dito no filme que ocorre perto do episódio 12 que os guerreiros lendários do fogo e da luz eram respetivamente o AncientGreymon e o AncientGarurumon, no entanto o Bokomon reconhece inicialmente o Agunimon e o Lobomon (digimons da imagem acima e as primeiras evoluções do Takuya e do Kouji respetivamente) como uns dos 10 guerreiros lendários. Descobrimos mais tarde que cada espírito tem 2 formas: a humana e a animal. E o livro do Bokomon tem registo das 2, e dos inimigos. Mas as formas não eram essas, eram dos Ancients porque os espíritos não são os digimons por inteiro, e mais tarde a fusão dos dois espiritos de cada elemento não faz um ancient mas sim uma forma nova da qual não há registo. Ou eu perdi alguma coisa ou alguém explicou mal isto. Aceito explicações de fãs.

Os tais 5 outros personagens aparecem como inimigos e com eles acontece uma mudança no anime. Depois de se derrotar o primeiro deles, a história parece que perde alguma nuance e toda a seriedade excepto nos momentos chave, como se a faixa etária tivesse descido 5 anos. Mostrando episódios que parecem encaixar em qualquer parte da história, contradizem o próprio canon pré estabelecido e não nos dizem nada sobre os personages. Como foi uma equipa a produzir este anime original é possível vários destes episódios terem sido feitos ao mesmo tempo e apenas notas gerais existirem entre os escritors. No entanto isto não se deveria notar, e tirando episódios importantes acaba por ser grande parte da história. O mundo é suposto estar fragmentado mas não temos noção da distância das coisas ou do que realmente existe nesse mundo, tornando assim um sentimento de “tudo é possível se o escritor quiser”, do qual não fui grande fã. No filme do Ornithmon acontece a mesma coisa, uma ilha que ninguém sabe onde é, na qual se explora a rivalidade meio que já resolvida entre o Takuya e o Kouji colocando-os em fações opostas para escalar o conflito pessoal entre os dois para eles aprenderem uma lição que já tinha sido aprendida antes do filme ser lançado.

O Kouji é capaz de ser o meu personagem favorito de Digimon até agora. Tem as melhores cenas de introspeção, provavelmente o melhor momento emocional de evolução, ligado a auto-conhecimento e dois dos meus três momentos favoritos na série. É um personagem que começa como um míudo que parece convencido e que se quer afastar de todos, mas na verdade ele é uma pessoa bem mais complexa que isso e a jornada dele e as recompensas que ele tem na sua jornada são momentos marcantes que me vou lembrar para sempre. Principalmente umas cenas específicas com outro personagem que é segredo para não dar muitos spoilers sobre isto.

A nível de vilões estamos bem mais ou menos. Dos 5 guerreiros dos outros elementos, 3 realmente importam e os outros dois parece que era para fazer 10 ou ser contrapartidas estranhas para personagens que não precisavam disso. Chegando a ter encenações da Branca de Neve por causa de um deles. Mais tarde o vilão principal de grande parte do anime levanta um problema interessante sobre a lore do mesmo mundo que já tinha sido explorado no filme, mas isso é abandonado por uma justificação mais simples para introduzir outra coisa ainda maior. Os dois que se seguem acho que são a pior coisa do anime, ok talvez não pior que o episódio da corrida dos comboios, mas são digimons que à partida seriam bons movidos por uma motivação despresível sem nenhuma razão para tal. Pensem em algo tipo “eu sou muito mau porque sou ainda pior”. O vilão final é intimidante e poderoso e parece mesmo uma calamidade e algo impossível de lidar sem um milagre, o problema é que é apenas nos 4 episódios finais que ele fisicamente aparece, servindo até mais para mostrar o quão incrivel é a forma final dos protagonistas, que é realmente incrível.

Para fechar a questão dos personagens, existe o problema de apenas os dois rapazes: o vermelho e o azul, atingirem o seu potencial máximo como digimons, passando grande parte do final da série os outros personagens parados a olhar ou a não lutar mas a também não contribuir com muito mais. Isto era algo prevalente também nas primeiras duas séries, que tamers corrigiu e fiquei com pena que não tivesse sido feito. Não só por uma questão de lutas, mas também porque uma nova evolução significa uma evolução a nível emocional para o personagem, algo que eu sinto que todos menos o Kouji precisavam. Tirando o Kouji e o Tomoki, entendemos a razão de todos os personagens terem ido para o mundo digital, no entanto seria interessante ver eles de facto a ultrapassarem os seus problemas e usarem o que aprenderam além de uma frase no epílogo de dois minutos. Nota especial para o Takuya cujas motivações parecem mudar constantemente ficando numa que não parece ter sido algo condizente com como ele agia no início da história mas talvez com algo que ele tivesse feito antes.

Numa nota diferente, e como sempre, Kouji Wada volta a dar-nos músicas incríveis que vão ficar na cabeça de muita gente. O genérico de abertura “Fire!!” sendo a minha favorita, mas as músicas de evolução também se destacam. É incrível a quantidade de música boa que este senhor cantou para esta franquia e é pouco reconhecido fora da comunidade de digimon. Eu ainda não tinha recuperado do completo earworm que era “Card Slash” de tamers ou “Biggest Dreamer” e agora dou por mim a cantar o refrão destaa música também.

Em suma, talvez a altura de ver este anime tivesse sido de facto quando era mais novo se tivesse conseguido acompanhar as mudanças de horários bizarras da SIC. Consegui encontrar momentos ótimos aqui no meio de alguma coisa para a qual eu não sou claramente o alvo e embora o início até fosse interessante de ver com uma criança como algumas séries para crianças que os mais crescidos apreciam, à medida que se continua a ver esse contentamento vai diminuindo, batendo em força em alguns momentos chaves que provavelmente são dos melhores da franquia envolvendo um certo par de luz e sombra.

CONCLUSÃO
Segue as SMS de um estranho e apanha o comboio para uma nova viagem num mundo fragmentado! Pode ser que te transformes num Digimon e cures os teus problemas pessoais
6
digimon-frontier-analiseDigimon Frontier quebra convenções de Digimon mas perde-me por não ir demasiado a fundo nas ideias que o fazem ser diferente do resto, ficando em deals comerciais de brinquedos e histórias mais simples e infantis. Melhores momentos da franquia acompanhados de bastante potencial desperdiçado.