Sempre que o nome da Nippon Ichi é referido, posso facilmente associar a empresas conservadoras como a Nihon Falcom – uma das criadoras de videojogos japoneses mais antigas da indústria, que cuida de forma muito peculiar a construção dos seus títulos, quase de uma forma artesanal, minuciosa, como verdadeiros artesãos. A Nippon Ichi embora tenha sido fundada vários anos depois da Nihon Falcom, a verdade é que partilha muito da mesma filosofia, sem fugir muito das suas raízes, do mercado japonês, do género em que se especializou e da estrutura base que alimentou as suas principais franquias.

Com isto em mente, é fácil de entender como Disgaea, que se encontra agora no seu sétimo título da saga principal, permanece praticamente intocável na sua ideia base de RPG de estratégia – SRPG -, e nas formas que foram estruturando todos os títulos da série até então. O humor burlesco que vai compondo as suas narrativas, as personagens com os seus traços particulares de personalidade, os números e as estatísticas absolutamente nucleares durante os embates, com animações alucinantes em cada ataque especial, e, caso o jogador se sinta capaz e queira esmiuçar, aprofundar e completar a 100 por cento: são títulos que entram quase num ciclo sem fim. Haverá certamente muitas formas de se apresentar um título Disgaea a um jogador que nunca tenha estado frente a frente com nenhum jogo da série, mas os alicerces base que têm vindo a compor cada título são essencialmente estes. E Disgaea 7: Vows of the Virtueless traz tudo isto para deleite dos seus fãs.

Disgaea 7: Vows of the Virtueless surge um ano depois do jogo anterior no Japão (sim, a série Disgaea ainda não possui lançamento em simultâneo para todos os mercados, tal como comummente as velhas e tradicionais empresas japonesas nos foram habituando) com promessa de balancear as pequenas mudanças do sexto título que não foram bem aceites.

Disgaea 7: Vows of the Virtueless

Disgaea 7 transporta-nos para a atmosfera do Japão Feudal, em mais uma história autónoma de todos os outros jogos, onde o regime imperialista domina, Fuji – guerreiro dotado de uma força admirável com semelhanças físicas com todos os protagonistas da série Disgaea, e com um traço de personalidade hilariante (trata-se de alguém que não lida muito bem com o afecto, ao ponto de se sentir indisposto cada vez que alguém é minimamente agradável com ele), juntamente com uma rapariga chamada Pirilika, que se diz ser uma admiradora do estilo bushido, fazem questão de dar o tom humorístico à história, encontrando vários novos aliados enquanto vão recuperando as armas lendárias que se encontram sob o escortino do exército de Demmodore. A química entre Fuji e Pirilika, rapidamente vai desconstruindo todo o ambiente Feudal que habitualmente se vai assistindo noutras propostas – sério, cinzento e sangrento, que já por variadíssimas vezes já foi abordado. Aqui tudo muda de figura.

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Com piadas que muitas vezes acabam por sair completamente ao lado, e tantas outras totalmente em cheio, o estilo cómico, ácido, perverso e até mesmo tresloucado – tudo pode passar a extremos quase num piscar de olhos. Disgaea 7: Vows of the Virtueless partilha o mesmo estilo utilizado durante todos os jogos da franquia, com pequenos trechos de história, dando logo de seguida lugar aos campos de acção.

Disgaea 7: Vows of the Virtueless irá seguramente voltar a conquistar os jogadores que se sintam atraídos pela complexidade, pois nesta nova entrada da série, esta marca quase registada, também não perdeu fôlego. As possibilidades e combinações permanecem intactas: criar novas personagens – existindo agora mais de 40 classes disponíveis para serem exploradas, continua a ser divertidíssimo, deixando a cargo do jogador a sua imaginação e gestão fluírem de forma natural. A sede pela conquista de mais experiência, mais HL – moeda do jogo – ou Mana, recurso que serve para adicionar novas habilidades às personagens, são componentes alimentam e dão corpo a Disgaea 7 fora das batalhas.

Disgaea 7: Vows of the Virtueless

O grande foco de construção permanece numa praça, como é habitual na série – hub -, onde existem vários locais para o jogador construir a sua equipa, assim como interagir com outras personagens. Lá, também é possível selecionar novas missões, gastar os recursos reunidos nos embates, adquirir novas habilidades, formar recrutas. Os anos passam, e a forma escolhida, extremamente peculiar de organização, permanece, ao invés dos tradicionais mapas, ou das simples linhas de missões que muitas vezes simplificam todo o processo, utilizados em alguns jogos do mesmo género.

Durante os embates Disgaea 7: Vows of the Virtueless também não foge muito do que a saga já nos trouxe até então, com algumas expecções que não mexem consideravelmente na estrutura base de um RPG de estratégia por turnos, mas que oferecem novas possibilidades e riscos que podem virar o tabuleiro de um momento para o outro. O Jumbification, uma mecânica que torna as personagens gigantescas conforme uma unidade vai recendo e concedendo dano, não muda o jogo, mas oferece mais hipóteses de abordar cada batalha, com ataques devastadores, ainda que com algumas restrições. O Hell Mode, outra novidade mecânica que traz consigo uma barra que se vai enchendo conforme as personagens vão dando e recebendo dano, colocando mais opções e alternativas às simples habilidades especiais de ataque ou defesa que cada unidade carrega.

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Visualmente Disgaea 7: Vows of the Virtueless mantém os modelos 3D que já se tinham visto no jogo anterior, com animações de grande qualidade, ainda que o charme dos pixéis 2D que no passado enchiam os corações dos fãs, deixem alguma saudade. Os cenários continuam simples, com cores vibrantes e pormenores bem implementados, permanecendo como uma proposta ímpar no género, mas que não progrediu, para o bem e para o mal. A verdade é que Disgaea 7 reutiliza imenso do que foi feito anteriormente, e à primeira vista até pode vir a confundir os mais desatentos.

Disgaea 7: Vows of the Virtueless

Para além de uma campanha bem-humorada que pode ser concluída em menos de 30 horas ao longo de mais de uma dezena de capítulos, com uma história que rapidamente perde o rumo e deixa de fazer qualquer tipo de sentido – nada de novo na saga -, Disgaea 7 oferece uma grande quantidade de quests, missões opcionais – e grind, muito grind, porque afinal de contas, números como 9999,9999 não aparecem com um simples estalar de dedos. Felizmente, a determinada altura existe a opção de colocar em batalha automática, ainda que com um custo associado, e só pode ser utilizado em batalhas que já tenham sido ultrapassadas. Uma mudança significativa em relação ao título anterior – que era praticamente de livre arbítrio.

Disgaea 7: Vows of the Virtueless pode ser uma boa e uma péssima porta de entrada para novos jogadores. Se por um lado tem um início lento, onde por vezes subestima a inteligência de quem o está a jogar, por outro rapidamente atinge níveis de complicação e de estruturas mecânicas que certamente para um jogador novato no género terá de suar e obrigatoriamente adaptar-se. Há várias ferramentas e formas de consultar informações extra, mas a quantidade absurda de opções e variações pode intimidar logo à partida a entrada de novos fãs – e até mesmo para apreciadores do género. É certo que se trata do sétimo jogo da saga, e descomplicar depois de duas décadas de série, poderia ser um retrocesso para a vasta legião de seguidores do estilo. E aqui a Nippon Ichi preferiu continuar mais uma vez com a mesma base de fãs, ainda que possa eventualmente angariar alguns novos e persistentes jogadores que se metam pelo caminho.

CONCLUSÃO
Estagnado
7
disgaea-7-vows-of-the-virtueless-analiseA Nippon Ichi carrega um dilema que muitas outras empresas já o encararam de frente com as suas principais séries: dar ou não dois ou três passos em frente? Disgaea 7: Vows of the Virtueless é sem dúvida o título perfeito para os fãs da saga – complexo, tresloucado, megalómano, repleto de conteúdo e com um estilo muito japonês. À primeira vista, é praticamente o mesmo há 20 anos, com pequenas mudanças, algumas mecânicas novas que dão um toque pouco fresco ao que acontece dentro e fora das batalhas. O seu estilo aberto, mas inacessível de imediato, é o que pode vir a intimidar os novos jogadores ou desencorajar aqueles simpatizantes que já depositaram centenas de horas nos jogos anteriores. Como RPG de estratégia por turnos, permanece entre os melhores do género, mas o encosto ao sol, e a ausência de arrojo em se revolucionar, é o que o impede de se chegar à frente de títulos como Triangle Strategy ou Fire Emblem: Three Houses.