Dying Breed é um daqueles jogos que, à primeira vista, parecem ter sido desembrulhados directamente de uma caixa de disquetes, lembram-se? FMVs cheios de charme, música electro e metal que podia muito bem ter saído de um CD pirata da altura, e aquele cheirinho irresistível a Command & Conquer que qualquer fã reconhece antes mesmo de construir o primeiro barracão. O problema, e também parte da graça, é que esta viagem ao passado vem recheada não só de nostalgia, mas também de todas as arestas que os RTS dos anos 90 já tinham; e mais algumas.
O ADN do jogo é claro: acção rápida, unidades descartáveis, facções exageradas e uma estética retro-futurista estranhamente bizarra. Há uma energia divertida na forma como as unidades falam, nos efeitos sonoros feitos claramente à boca pelas mesmas pessoas, e até na caricatura descarada dos vilões, quase a roçar a paródia da sua inspiração, C&C. E, honestamente, quando o jogo abraça essa faceta humorística, funciona surpreendentemente bem. Os FMVs são um pequeno tesouro caótico, com atuações que oscilam entre o amadorismo puro e a intenção cômica, difícil perceber qual é qual, mas no fundo nem interessa: fazem soltar umas boas gargalhadas, isso é garantido.
Mas basta começar a jogar a sério para perceber que Dying Breed é também um projeto em luta consigo próprio. O entusiasmo do estúdio é palpável, mas a execução ainda está longe de acompanhar a ambição. O maior culpado? O equilíbrio das unidades, que parece ter sido desenhado numa folha de Excel em chamas. Tudo causa dano exagerado, tudo morre ao mínimo toque, e a lógica clássica de counters simplesmente não existe. É estranho quando dois soldados com metralhadoras conseguem destruir um tanque sem grande esforço, quando os veículos demoram eras a virar e quando cães eléctricos derrubam edifícios como se fossem explosivos vivos. Isto cria momentos caóticos e até engraçados, mas também frustração constante, porque a estratégia raramente depende do jogador e depende, isso sim, de quem dispara primeiro. Simplesmente não há equilibrio.
Tentar construir uma base estável amplifica ainda mais o problema. Os edifícios são desajeitados, consomem demasiado espaço e muitas vezes obrigam o jogador a posicionamentos estranhos. O ritmo global é lentíssimo: estruturas demoram séculos a ficar prontas, os colectores movem-se como se estivessem presos em mel, e até o movimento da câmara arrasta-se sem vontade. Esta lentidão contrasta com a fragilidade extrema das unidades, criando um ciclo pouco gratificante: esperas uma eternidade para produzir algo que morre ao primeiro disparo do inimigo.
O pathfinding, claro, merece menção à parte. Se há característica que denuncia um RTS ainda verde, é o movimento de erro das tropas, e Dying Breed leva isso ao extremo. Unidades que dão voltas absurdas, veículos que ficam presos em ângulos ridículos, colectores que colidem entre si e bloqueiam completamente a economia, tudo isto obriga a uma microgestão cansativa que não é divertida, apenas necessária para evitar desastres.
Ainda assim, no meio do caos, há sinais genuínos de potencial. O estilo artístico é delicioso e foi muito por culpa dele que decidi pedir uma cópia para esta análise. A banda sonora também sabe puxar pela adrenalina e há momentos de jogabilidade que fazem lembrar o porquê de tantos jogadores sentirem falta de RTS old fashion. Quando tudo encaixa (raramente mas encaixa), o jogo consegue ser envolvente, leve e quase terapêutico na sua simplicidade.
Dying Breed é, assim, um projecto apaixonado, mas muito verdinho. É sem dúvida um tributo carinhoso aos clássicos, cheio de alma, mas igualmente cheio de falhas. Quem procura um RTS e uma experiência polida e moderna mesmo com o seu visual clássico, vai ficar de pé atrás. Mas quem gosta de experimentar coisas peculiares, cheias de jank, humor involuntário e nostalgia, terá aqui um brinquedo curioso, desde que entre com expectativas ajustadas.
É um jogo que precisa de muito trabalho, mas que, com tempo, pode tornar-se algo realmente especial.
Esta foi mais uma bit-nálise, análise tão curta que nem um bit ocupa. Em baixo podes contar com a ficha técnica:
Nome e Preço: Dying Breed – 17.49€
Desenvolvedor: Sarnayer
Editora: MicroProse Software
Metacritic: Sem Score (Early Access)
HowLongToBeat: 18 Horas aprox.
Conquistas: Ainda não estão disponíveis
Plataformas: PC (Steam)
Agradecimentos: Obrigado à editora pela cedência de uma chave para bit-nálise































