Um dos jogos que definiu os meus tempos de jovem foi o Mega Man Battle Network. Um RPG da Capcom com um conceito estratégico em tempo real que me aprisionou ao Game Boy Advance. Esta franquia mereceu várias iterações ao longo de cinco anos, encerrando as aventuras de Lan Hikari e do seu Net Navi, Megaman EXE. Desde então, passados alguns anos, vários fãs decidiram pegar nesta fórmula de batalha e transferi-la para os seus títulos indies. Uma forma de manter, evoluir e preservar a essência dos combates que Battle Network trouxe ao mundo. Um dos casos que vem logo à cabeça é o roguelike One Step to Heaven (também analisado na Squared-Potato) que pegou no conceito e adaptou-o a um estilo deveras interessante.

No entanto, há umas semanas atrás, parou nas minhas mãos um outro título, recentemente saído do seu Early Access, denominado de EndCycle VS, onde pelo trailer percebi imediatamente o respeito pelo espírito de Battle Network! Será, no entanto, que o jogo merece ser reconhecido como a derradeira alternativa aos jogos clássicos?

Ulisses Domingues: 
Merece pois, caro Bruno! Pois é, caros leitores. Se calhar para esta pequena surpresa não estavam preparados! Venho á presente análise prestar os meus comentários como parceiro do nosso querido Bruno. Como grande fã de Battle Network, graças a uma muito generosa chave cedida pelos responsáveis em questão, houve oportunidade de participar neste trecho como número dois. Faço-o com um registo mais coloquial e casual do que estão habitualmente acostumados comigo, sem nunca cortar cantos no profissionalismo.

EndCycle VS é um jogo de aventura, deckbuilding e roguelike, desenvolvido e publicado pela 12B3, com combates em arenas quadriculadas contra os Noise, seres malignos que ameaçam os vários mundos digitais. Como resposta o jogo brinda-te como uma panóplia de personagens, habilidades e ataques, autênticas ferramentas para criar um arsenal de respeito e personalizar combos tresloucados com a hipótese de aniquilar qualquer inimigo hostil.

A história e os modos solo

EndCycle VS, infelizmente, peca um pouco pela seu enredo confuso e fragmentado no modo de campanha. Não ponho de parte mea culpa pela pouca atenção que prestei, focando sempre mais na jogabilidade do que propriamente no contexto deste mundo. No final, entendendo um pouco mais do que realmente se passava, notei em algumas pontas soltas a resolver, sem deixar sombra de dúvida que esta história continuará (assim o espero!) depois de uma feroz e renhida batalha. Gostei também de ir conhecendo as várias personagens do jogo e como se comportam no campo de batalha. Posto isto ficou muito mais fácil, para mim, decidir uma personagem de eleição frente aos combates PVP e outros modos. Acho pertinente também referir quão bem estão estruturados os vários capítulos do modo história: níveis divertidos, bem construídos e originais, em específico aqueles que obrigavam a progressão por vários painéis, encontrando inimigos novos pelo caminho à medida que escolhia novos trechos por onde trilhar até ao objetivo final.

Mas EndCycle VS tem muito mais por onde escolher: conta com um modo aventura onde partirás com uma personagem à escolha para percorrer um percurso onde cada vitória permite selecionar um de quatro ataques, substituindo por outro em posse. Por outras palavras, o leque de habilidades irá sempre rodar e melhorar até chegar ao último combate contra o último inimigo. É neste modo que o subgénero roguelike faz muito mais sentido como classificação, apesar de ser possível sempre recomeçar na área onde foi perdido o jogo sem perder qualquer tipo de progresso. Definitivamente um pouco contra o espírito do subgénero em questão.

Ulisses Domingues: 
É curioso concordar contigo neste aspeto porque o importante em todos os jogos Battle Network (é tão difícil não estabelecer comparações constantes) sempre foi o modo história, mesmo que o combate fosse o elemento mais memorável por ser tão diferente na época. Aqui, em EndCycle VS a história quer assumir um papel pseudo importante, mas nunca chega a realizar o seu verdadeiro potencial. Quiçá uma maior atenção aos detalhes e uma narrativa mais focada e expositiva contribua para uma maior imersão, apesar da trabalheira monumental que isso acarrete. Talvez eu esteja é mal habituado! Fora o enredo considero que o jogo tem uma quantidade de conteúdo extra aceitável, sendo que a diversão é sempre enaltecida pelo sistema de combate.

Uma panóplia de ataque e combinações!

Assumir a ofensiva em EndCycle VS é feita através de VOCs, ataques e habilidades que, em conjunto com as restantes mecânicas, formam a base de todo o jogo. É com as VOCs que a personagem realiza qualquer ação nas batalhas, existindo uma variedade enorme separada por categorias: atacar, curar, proteger, manipular o campo, entre outras e, para além disso, torna-se possível adicionar efeitos especiais a cada um desses VOCs. Estes efeitos, denominados como estilos, concedem ao teu ataque ou habilidade resultados adicionais como empurrar o inimigo aquando impacto, alterar o tipo de painel pisado ou conceder um elemento natural ao ataque. Graças a este último conseguiras aproveitar as fraquezas dos teus inimigos para infligir maior dano como, por exemplo, ataques de fogo frente a um elemento de erva. Em suma não faltará material diversificado para construir um kit aplicável a qualquer situação que necessite da tua atenção.

Ulisses Domingues: 
É importante também referir que, apesar da sua execução espetacular, EndCycle VS, senti eu, não apresenta uma curva de aprendizagem folgada e agradável. Existe um tutorial que explica os conceitos e básicos, mas encontrei-me constantemente às turras com os controlos até conseguir fazer sentido da lógica do videojogo. Não é imediatamente intuitivo e isso poderá afastar jogadores com curto défice de atenção ou falta de paciência. Gostei muito, porém, como é possível estruturar os ataques conseguindo um estilo de combate mais dinâmico e frenético comparativamente aos encontrados em Battle Network.

Modo multijogador e Mods incluídos na caixa!

O verdadeiro sumo de EndCycle VS está na sua opção multijogador. É aqui que entra o elemento PVP e cooperativo do título com jogadores todo o mundo. Ainda que eu não seja virado para o competitivo, decidi batalhar contra o meu caro amigo e colega Ulisses Domingues, que decidiu não dar o braço a torcer para proporcionar batalhas renhidas e bem divertidas. Nestas aventuras em multijogador existe ainda um modo dois contra dois onde pares de jogadores podem competir, criando batalhas frenéticas e muito intensas. Contudo, maior aposta de tempo foi no modo cooperativo Onslaught, um combate único e progressivo passando por vinte investidas diferentes de inimigos sem que ambos percamos ao mesmo tempo, utilizando personagens e ataques definidos previamente. Este foi, sem dúvida, o mais divertido de experimentar, apesar de encontrar um bug ou outro (resolvido entretanto através de atualizações) que impedia o progresso.

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Para aqueles fãs que gostam de alterar um jogo (mods) anuncio, com muito gosto, que EndCycle VS vem com essa possibilidade! Integração nativa com a Steam Workshop permite alterar e introduzir vários elementos ao jogo, elevando a experiência a outros patamares. Sim. Antes que perguntes: existe um mod específico que introduz as personagens de Mega Man Battle Network no jogo! Uma verdadeira delícia!

Ulisses Domingues: 
Apesar de não experimentarmos nenhum mod a tempo da análise (focámos sempre numa experiência vanilla por questões profissionais) eles trazem imensas possibilidades à longevidade do videojogo, um grande ponto a favor para ajudar a justificar o preço de retalho. De referir no entanto, Bruno, o erro fatídico que encontrámos em multijogador nas nossas partidas de Onslaught, impeditivas de progredir em mais combates online. Este erro já foi, no entanto, subsequentemente corrigido em versões posteriores (por alerta nosso no Discord oficial) sendo que não há causa para alarme neste momento. Quanto aos combates em si foram o que nós, fãs de Mega Man Battle Network, sempre desejámos ter na ribalta desta popular saga da Capcom.

Alguns melhoramentos a fazer

Porém nem tudo é perfeito. Apesar de ultrapassar uma produção durante nove anos, este ainda apresenta alguns erros e afinações ligeiras a fazer. Senti muito isso na versão 1.1, onde ficava por vezes preso no mesmo nível sem transição para o próximo cenário ou morrer e o jogo não emitir um certificado de óbito (Game Over). Felizmente estes e outros problemas são facilmente reportados e corrigidos nas versões subsequentes no canal de Discord oficial. É sempre positivo relembrar que é importante um estúdio e/ou desenvolvedor ouvir o seu público para identificar, corrigir e melhorar o seu jogo, e a equipa 12B3 obedece a regra à risca.

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No que toca aos seus visuais, EndCycle VS opta pela opção artística pixel, dando aquela essência retro dos jogos de Battle Network. No entanto, no que toca ao art style, este apresenta um amor e carinho notáveis, apreciável através da “EndCyclopedia” do jogo, preenchida consequentemente com ilustrações à medida que vamos jogando. Acompanhando à arte, EndCycle VS enaltece-te com músicas vivas e energéticas, que ajudam o jogador a manter-se no êxtase das batalhas. Por curiosidade, notei que pelo menos uma ou duas faz lembrar muito as dos jogos clássicos do GBA. Como o caro Ulisses Domingues também identificou e referiu, parece inspirar-se um pouco nos jogos Mega Man Battle Network 5.

Ulisses Domingues: 
Este foi um dos pontos em que mais concordámos! EndCycle VS apresenta um estilo artístico muito reminiscente da saga Mega Man Battle Network e, considerando as suas influências e inspirações, só joga a seu favor. Nota-se uma grande atenção não só ao detalhe nas animações das personagens, mas também como estas se movimentam no campo de batalha. Curioso relembrares esse último ponto pois há pouco tempo estive a ouvir a banda sonora da saga Battle Network assim como a do título em revisão, onde realmente conseguimos conferir muito inspiração bebida da fonte, mas conseguindo sempre ser o seu produto original.

EndCycle VS já se encontra disponível nas plataformas Steam e Android, sendo que a versão testada para esta análise foi a da Steam. Contudo, em ultima critica a prestar contra o jogo, penso que o valor de 24,99€ (preço de lançamento) é um pouco acima do que esperava, considerando o conteúdo que oferece. Ainda assim, se fores um grande fã deste estilo de jogo e não aguentas esperar mais por um Mega Man Battle Network Legendary Collection, então avança sem medos e instala os mods da antiga franquia.

CONCLUSÃO
Bom
7
Um fanático por Nintendo, de nome "Nintendista", que procura mostrar ao mundo o lado mágico da empresa que o acompanhou durante toda a vida.
endcycle-vs-analiseEndCycle VS é um jogo mais focado em combates e não pela sua história. É um jogo perfeito para matar saudades dos jogos de Megaman Battle Network, especialmente quando temos acesso a Mods que introduzem as personagens mais icónicas da antiga franquia. Contudo, este parece-me um jogo que ainda está a necessitar de ser polido, e com a ajuda da comunidade de fãs do jogo, EndCycle está a evoluir dia após dia. Se o preço não te assusta, então está na hora de entrares nas batalhas digitais!