Foi em Novembro que o novo serviço de streaming Apple TV+ lançou, entre muitas outras apostas, Dickinson, uma série baseada (com bastante liberdade criativa) na vida de uma das escritoras Americanas mais famosas do século XIX: Emily Dickinson.

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Devo confessar que, depois de ver um dos muitos trailers promocionais da série, fiquei sem qualquer interesse. Parecia-me mais uma daquelas jogadas de marketing focadas em female empowerment falso (e demasiado óbvio), com um conceito mais do que repetitivo, e tão ridícula que não parecia fazer qualquer sentido no contexto histórico em que se passava.

No entanto, não podia estar mais errada. Tudo aquilo que eu temia vir a destruir a série, foi aquilo que a tornou tão aliciante. E, apesar de não ser algo totalmente novo ou revolucionário, a sua execução foi bastante mais além do que estava à espera.

Historicamente Falando

Pouco se sabia até hoje sobre a vida de Emily Dickinson, para além de que tinha vivido em solidão nas últimas décadas até à sua morte, tendo escrito quase 1,800 poemas – dos quais pouco mais do que uma dezena foram publicados enquanto ainda estava viva – e nunca casado ou tido filhos.

Dickinson

Mas nem tudo o que se sabia sobre a poetisa provou ser verdade – de facto, muito do que foi inicialmente proposto como tal veio recentemente a ser descreditado por novas fontes e novos avanços tecnológicos.

Apesar destas descobertas, existe ainda pouco consenso entre os académicos que a estudam e ao seu trabalho – o que cria uma fantástica oportunidade para mentes criativas os explorarem.

Um Novo Olhar

Emily Dickinson não era simplesmente uma reclusa anti-social virginal que só pensava na morte. Não tinha apenas um único amor a quem apelidava de “Mestre”, ou um medo incalculável de progredir na própria carreira. Tinha, sim, um sentido de humor brilhante, uma sexualidade incrivelmente fluída, e uma rebeldia feminista desmesurada.

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É esta a visão que Alena Smith (The Newsroom, The Affair) pegou para se inspirar e dar uma nova interpretação à história e ao passado especulativos de Emily Dickinson.

É verdade que nem tudo o que Dickinson mostra deve ser levado a sério, ou classificado como facto histórico. Ainda há muitos mistérios em redor do seu legado, tanto pessoal como profissional, e alguns deles assim o permanecerão por muito tempo.

No entanto, isso não significa que este novo conto tecido pela criadora da série não tenha o seu devido mérito e deva ser explorado. Mas, tal como esta admitiu, é apenas a sua versão de Emily Dickinson, e cada um de nós terá a sua.

O Que Distingue Dickinson Das Restantes?

A série é liberalmente anacronista. A história passa-se em meados de 1800, em Amherst, Massachussets, e este palco é-nos instantaneamente familiar através das roupas, objectos, arquitectura e aspecto geral. Mas o feitiço é quebrado no primeiro minuto, quando uma Emily Dickinson (interpretada por Hailee Steinfeld), irritada com o machismo inerente na sua sociedade, declara à irmã:

DickinsonCaso o vernáculo usado nesta cena não fosse pista suficiente, os créditos que emergem logo de seguida no ecrã ao som de música trap talvez ajudem o espectador a perceber que o que vai ver não é, claramente, apenas mais um filme biográfico sério:

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Cada episódio baseia-se num dos poemas deixados pela autora, e estes permanecem imaculados na sua autenticidade, apesar de o resto do diálogo não o ser. Várias estâncias vão aparecendo no ecrã, ditadas em voz alta pela protagonista à medida que esta as vai conjurando na sua mente, e é através das mesmas que ficamos a conhecer a imaginação estonteante de Emily Dickinson.

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Entretanto, a banda sonora (Noga Erez, Billie Eilish, Lizzo, Mitski, TJR, Carnage…) continua a tocar no seu esplendor moderno, apesar de, a cada cena, se tornar mais e mais aparente o período histórico em que a série se desenrola. Até a câmara parece confusa em relação ao seu papel: estará a filmar um drama histórico ou um episódio do The Office?

O humor de Dickinson não só toma como base a utilização de uma linguagem de adolescentes do século XXI e no total choque de noções arcaicas com atitudes estranhamente progressivas, como também se apoia muito em indicações visuais específicas.

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Emily não tem tempo ou disponibilidade para o novo pretendente que a mãe lhe arranjou. Afinal de contas, ela está completamente enamorada pela Morte (aqui interpretada por um Wiz Kalifa de óculos azuis, ceptro na mão e um charro na boca), com a qual viaja frequentemente na sua carruagem puxada por cavalos fantasma ao som de “Bury a Friend”.

Nas palavras de Emily: “He’s such a gentleman. Sexy as hell.

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A sexualidade da poetisa já tinha antes sido explorada em filmes como Wild Nights with Emily, na qual se mantém o foco e onde, pela primeira vez na história, é assumidamente lésbica/bisexual no ecrã.

Já em Dickinson, esta faceta, apesar de importante, não encobre os seus restantes dilemas ou paixões – simplesmente complementa as suas muitas outras partes.

O triângulo amoroso que se impõe desde o início, já de si pouco convencional, funciona na perfeição, explorando a verdadeira humanidade e amplitude emocional de Emily, e revelando algo de si a que o grande público não estava habituado.

Interpretações Variadas

Hailee Steinfeld não é uma nomeada para Óscar por acaso. O papel que fez em True Grit (Indomável) aos 13 anos catapultou-a para os olhares dos críticos e do mundo. No entanto, por alguma razão, esta mantém-se, até hoje, muito abaixo de outros actores com igual ou inferior talento, mas com famas superiores.

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Como protagonista em Dickinson (da qual também é produtora), Hailee não só brilha como Emily Dickinson como incorpora brilhantemente a alma da poetisa – não como a conhecemos, mas como esta poderia ter sido caso a sua imagem não se tivesse mantido distorcida todos estes anos: destemida, rebelde, divertida, inconformada, revoltada, insegura, arrogante, e, acima de tudo, um génio criativo cheio de vida.

Jane Krakowski não me convence enquanto progenitora (mais como madrasta), e muito menos como dona de casa do século XIX. É difícil não pensar nela como simplesmente Jenna Maroney vestida com roupas de época, transplantada directamente de um cenário de 30 Rock. Os seus maneirismos, personalidade, e até físico, colidem com toda a imagem de esposa devota e anti-feminista que o guião tenta atingir, resultando numa confusão total.

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Uma péssima interpretação por parte da actriz ou apenas um erro de selecção de elenco?

A verdade é que a mãe de Emily Dickinson era conhecida como uma mulher inteligente, apesar de difícil, e isso não transparece na tolice quase forçada de Krakowski.

Nem como comic relief funciona – Anna Baryshnikov (que interpreta Lavinia, a irmã mais nova) leva essa distinção para casa. Por alguma razão, apesar do pouco tempo de ecrã que lhe é concedido, esta consegue um desenvolvimento para a sua personagem que passa ao lado da maior parte do elenco. Até o seu gato captiva mais que Krakowski.

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Entretanto, Ella Hunt é um doce a que fica difícil manter-nos indiferentes – a sua química com todo o elenco dá um toque realmente especial à série. A sua personagem tem, ao início, muito pouco tempo de ecrã, mas os poucos momentos em que aparece roubam a atenção do espectador e fazem-no apaixonar-se novamente a cada cena.

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Toby Huss faz o papel de pai mergulhado em conflicto moral na perfeição, saltitando entre rigidez e fúria, amargura e arrependimento, e pura infantilidade sénior. Apesar de tudo aquilo que causa à família, aparenta ter boas intenções.

No entanto, as suas opiniões contraditórias em relação à filha tornam difícil levá-lo a sério na maior parte das cenas, uma vez que tanto a encoraja como a repreende pelas mesmas aspirações. Até os motivos expressados para apoiar as suas decisões parecem ténues e pouco fundamentados.

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Adrian Henscoe veste o papel de irmão mais velho claramente privilegiado, e ciente disso. Semelhante ao pai, a sua personagem voa por entre várias fases, levando o espectador a tanto achar-lhe piada, como a sentir o coração a derreter-se, como a odiá-lo completamente de seguida. A sua relação com a irmã é igualmente volátil, variando entre cumplicidade, ciúme, pura raiva, e amor incondicional.

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Toda a relação problemática de Emily com a família (especialmente com os pais e o irmão) é aqui explorada de uma forma extremamente confusa mas realista: o amor que os une parece ultrapassar até as maiores afrontas, com um verdadeiro turbilhão de emoções e acções contraditórias à mistura.

O obstáculo que apresentam para a sua vida e carreira não só é evidente como desgasta os laços entre si de forma quase arrebatadora.

A Quem Apela

Existem muitas referências literárias e históricas, para além de aparições de outros escritores ao longo da série, o que certamente fará as delícias de qualquer apreciador das artes. Mas o tom leviano e com sérias deturpações do material original (ou, pelo menos, conhecido do grande público) poderá não agradar aos fãs mais conservadores.

Dickinson apresenta-se como comédia romântica adolescente com história centrada numa das personalidades mais marcantes do século XIX. Tópicos baseados em política, escravatura, direito de voto, sexismo, entre outros, dão-lhe uma inesperada profundidade que não só cativa como também instrui, e confere ainda mais camadas à personagem de Emily.

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Mas para além disso, não tem quaisquer semelhanças com qualquer outro drama de época.

A linguagem e banda sonora contemporâneos saltam logo à vista, misturando-se ousadamente com o contexto histórico, e possibilitando aos mais jovens ficarem a conhecer Emily Dickinson numa luz totalmente nova. Os dramas familiares e amorosos, os dilemas pós-puberdade, e as inseguranças próprias da idade também ressonaram com o público do século XXI.

O formato assemelha-se muito ao de Marie Antoinette de Sofia Coppola, A Knight’s Tale de Brian Helgeland, e até Romeo + Juliet de Baz Luhrmann – três filmes bastante polémicos, mas indiscutivelmente arrojados.

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É certo que muitos gritarão “massacre” mas, pessoalmente, achei a amálgama criada por Alena Smith de génio e extremamente divertida. Não só demonstrou a imensa pesquisa que teve de fazer para poder construir a série, como também a sua dedicação por expor uma narrativa mais genuína da poetisa de forma fidedigna e respeitosa.

O humor bastante directo e, por vezes, até crasso, torna-o facilmente acessível e despe todas as pretensões que possam ter ficado para trás.

Onde Ver Dickinson

Dickinson

Os dez episódios ficaram disponíveis no dia 1 de Novembro e podem ser acedidos aqui. Caso ainda não tenhas uma subscrição na Apple TV+, a mesma oferece um período experimental grátis de sete dias, o que é mais do que suficiente para poderes desfrutar desta série fantástica (com legendas em Português!).

Uma segunda temporada foi encomendada duas semanas antes da estreia da primeira, pelo que já se encontra em produção. A data exacta ou o número de episódios, no entanto, ainda são desconhecidos.

Mas podes ficar descansado, porque no Squared Potato não a vamos perder!

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