Com a aproximação do Halloween, que está mesmo quase a chegar, não é de estranhar que estejamos também perante uma inundação de mercado no que toca a novas obras de terror. E a seguir esta tendência está a Netflix, sendo um dos seus lançamentos mais recentes, precisamente, Eli.

Primeiramente, quero confessar que achei o seu trailer tão irresistível, que reservei logo na minha agenda o dia 18 de Outubro para assistir ao filme no calor de uma sexta-feira à noite, procurando relaxar e saborear o início do fim de semana.

Eli deixou-me de facto muito curiosa. Com a cena dos fantasmas, a casa assombrada, e a doença horripilante do protagonista… Mas agora que já vi o filme, será que to recomendaria? Resposta muito curta: Não. No entanto, entendo que até possa ser um filme tragável para alguns, mas para esses, digo, existem tantos filmes na Netflix verdadeiramente merecedores do vosso tempo…

Uma história que se auto-destrói

Eli retrata um episódio na vida de um jovem muito meigo e doce com o mesmo nome, que vive numa espécie de bolha. Esta protege-o tanto do ambiente exterior, como do interior da sua casa e do toque da sua família. O rapaz sofre de uma doença que não lhe permite respirar ou tocar naturalmente em seja o que for. Ou seja, todo o ar que respira tem de ser incrivelmente puro e filtrado, e os objectos com que interage têm de estar esterilizados, pois qualquer reacção alérgica para ele pode ser fatal.

A única esperança para este jovem recai sobre os ombos da Dra. Horn, a qual possui uma mansão especialmente adaptada para tratar crianças com esta doença em especifico. Segundo a mesma, ainda não houve nenhuma criança que ela não tivesse conseguido “salvar”. Com isto, lá se vão todas as poupanças dos pais, que procuram desesperadamente ajudar o filho.

Tocando nestas duas personagens, eis o primeiro detalhe que me fez imensa impressão: os pais não agem coerentemente com as personalidades que demonstram. A relação entre pai-filho é quase inexistente mas, no entanto, vemos um momento de uma cumplicidade exagerada que não se vê nunca mais. A mãe que o protege e o acarinha tanto, deixa passar coisas por baixo do seu nariz que nenhuma mãe naquela situação iria ignorar. Ou ainda, cada um deles toma decisões que não fazem sentido, e depois agem de outra maneira como se nada de tão grave tivesse acontecido ou como se não tivessem acabado de fazer o que fizeram… É simplesmente nonsense.

Eli Netflix

Mas aparte disto, o suspense, o mistério, e os jump scares estavam lá, isso tenho de admitir. Durante a primeira parte do filme, souberam envolver o espectador totalmente, enquanto tentávamos descobrir se Eli estava a delirar devido ao tratamento, ou a sofrer de assombrações reais. A par dos primeiros desenvolvimentos, a minha atenção era total, e o ambiente do filme estava bem composto para nos levar a desvendar o mistério…

Até que, de repente, nos espetam com um plot twist final, muito apressado, e vindo do nada. Este torna esta secção do filme num outro filme completamente diferente, e destrói todo o build-up levado a cabo até então. O facto de ser um plot twist tão extremo, só por si, não me afectaria, mas o facto de destruírem toda a evolução da história, para impingirem algo que não faz sentido nenhum no contexto da ficção que até então ficámos a conhecer, e das personagens mudarem completamente de personalidade, e algumas nem com cuspo conseguirem-se aguentar àquele final… Faz-me questionar totalmente a visão de David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing, que tinham aqui algo consistente e interessante a que só tinham simplesmente de dar um final digno, mas que perante a falta de inspiração decidiram estorvar completamente.

O Ambiente

Enfim, mas e tirando a história? Há alguma coisa que se aproveite? Bem, o ambiente é algo envolvente, especialmente nos momentos de maior tensão e suspense. Os jump scares, apesar de serem previsíveis e alguns até cliché, são satisfatórios para quem procura este tipo de filme com assombrações. Mas novamente, tens imensas outras opções melhores que podias estar a ver como Insidious, ou o universo cinematográfico de A Invocação do Mal.

Noutro registo, quero destacar a familiaridade do espectador com todos os cantos e recantos desta casa, que permitem acompanhar imersivamente o filme, logo na sua primeira parte. O cenário estava bastante sólido, embora seja muito rebuscada a quantidade de ambientes diferentes que esta pequena mansão conseguia acomodar… Falo do facto da mesma tanto acomodar uma moradia verdadeiramente dita, como um bloco operatório, e outros tipos diferentes de ambiente… Não quero dar spoilers.

Eli Netflix

Interpretações

A nível de interpretações neste filme, pouco há também a dizer. Charlie Shotwell (Capitão Fantástico) é quem mais se destacou, por conseguir fazer um trabalho algo tragável a interpretar o papel da personagem principal, uma figura que cedo conquistou logo o público com a sua simpatia.

Sadie Sink, que interpreta o papel de Max em Stranger Things roubou completamente o estrelado deste filme com o seu pouco tempo de antena em cena. Contudo, pouco é o que o espectador consegue saber sobre esta personagem, que parece mais cheia de vida do que o restante elenco…

A composição

Algo que também achei que funcionou  bem foi a composição dos planos. Pois nota-se que Ciarán Foy (Citadel, Sinister 2) procurou trazer-nos cores que aprofundassem as emoções em cena. Por exemplo, nos momentos mais calmos e relaxados, tínhamos os tons dourados e do pôr-do-sol, mas nos momentos de arrepiar a espinha, os tons fugiam para cores frias. Esta utilização da palete cromática é de facto um truque utilizado para gerar maior sensibilidade no espectador em relação à acção em cena.

Na banda sonora, Bear McCreary procurou dar uma segunda camada de história ao filme. Num registo mais dramático e cheio de magia, o mesmo traz-nos uma obra prima que mal se consegue destacar e que, de factom pouco me vem à memória de ouvir.

Eli já está disponível na Netflix.

Conclusão da Análise
...Simplesmente não cola.
4
Cedo me apaixonei pelo mundo do cinema e dos videojogos. A ficção agarrou-me e não me largou mais! A vida levou pelo caminho da Animação e Pós-Produção, mas nos tempos livres, escrevo para voçês.