Hoje, o mundo do cinema e da música perde um grande nome: Ennio Morricone – conhecido simplesmente como o “Maestro”, faleceu em Roma na sequência de complicações causadas por uma queda.

Poucos devem conhecer o nome deste grande senhor, mas todos, com certeza, conhecerão o seu trabalho.

Ennio Morricone era um compositor, orquestrador e condutor Italiano que compôs mais de 400 bandas sonoras para cinema e televisão, além de mais de 100 obras clássicas. Ficou conhecido especialmente pelo seu trabalho em O Bom, o Mau e o Feio, de 1966, considerada uma das bandas sonoras mais influenciais da história do cinema, e pelo seu trabalho em The Mission, a qual recebeu certificado de ouro nos Estados Unidos.

História de Vida

Ennio Morricone nasceu a 10 de Novembro de 1928 em Roma, filho de pai músico. Este ensinou-o a ler música e a tocar vários instrumentos, apesar de no final, escolher o trompete (como o próprio progenitor). A sua primeira composição foi escrita aos 6 anos de idade.

Aos 12 anos, começou a estudar música no Conservatório de Santa Cecília sob a direcção de Goffredo Petrassi, ao qual dedicou várias peças, e em 1941 tornou-se parte da Orquestra da Ópera sob a direcção de Carlo Zecchi. Começou por escrever composições para programas de rádio, mas rapidamente se infiltrou no mundo do cinema.

Ennio Morricone começou por tocar trompete em bandas de jazz e fazer o arranjo de músicas pop para um estúdio Italiano nos anos 40 para providenciar para a sua família (a mulher Maria Travia e o filho, Marco), uma vez que compor peças clássicas originais não fazia muito dinheiro na altura.

Mais tarde, tornou-se compositor de estúdio para a RCA Victor. Mas a sua verdadeira paixão era a música clássica e experimental, com sons reais à mistura.

Em 1966, tornou-se membro do Il Gruppo, um grupo de compositores que improvisava música avant-garde, e que veio a gravar sete álbuns. Em 1969, co-fundou o Forum Music Village, um dos mais prestigiados estúdios de música em Roma, em conjunto com Armando Trovajoli, Luis BacalovPiero Piccioni e Enrico De Melis. Foi neste estúdio que Ennio Morricone compôs as suas bandas sonoras durante mais de 40 anos. Este foi ainda utilizado por outros compositores como Brian de Palma, e bandas internacionais como Quincy Jones, Cher, will.i.am, e Red Hot Chili Peppers.

Contribuições para o Cinema

Foi apenas em 1960 que Ennio Morricone começou a compor as bandas sonoras de filmes Western, algo que viria a definir a sua carreira durante mais de uma década. Tudo começou com a sua parceria com Sergio Leone, um antigo colega do Conservatório e agora realizador, no seu filme A Fistful of Dollars (1964).

Devido à falta de orçamento, Ennio Morricone tinha de usar tiros, chicoteadas, assobios, vozes, trompetes, e guitarras eléctricas em vez de arranjos orquestrais, o que veio a distinguir as suas obras das restantes. Era particularmente notável a forma como estes engenhos pontuavam as cenas de Leone e traziam à vida cada acção no ecrã, o que veio a influenciar todos os filmes western desde então.

O seu amigo de infância, Alessandro Alessandroni trabalhou com ele durante mais de 20 anos, providenciando vários sons e vocais (através do seu grupo musical I Cantori Moderni) para as suas composições.

Ennio Morricone continuou a sua colaboração com Leone, compondo For a Few Dollars More (1965) e O Bom, o Mau e o Feio (1966). O realizador utilizou um método estranho para a altura: a música era feita antes de o filme ser gravado, para que Leone pudesse arranjar as cenas à volta da mesma. É também a razão pela qual os filmes são tão longos: Leone não queria que a música acabasse.

A sua parceria com Leone estendeu-se por vários anos – este compôs para Once Upon a Time in the West (1968) e A Fistful of Dynamite (1971). A banda sonora de Once Upon a Time in the West é uma das mais vendidas em todo o mundo. O último filme no qual trabalhou foi Once Upon a Time in America (1984), antes de Leone falecer em 1989.

Em 1970, Ennio Morricone começou a compor para produções Europeias de prestígio, como Marco Polo, La piovra, e Karol. A sua música foi ainda reutilizada em séries de televisão como Os Simpsons e Os Sopranos, e em vários filmes como Inglorious Basterds e Django Unchained.

Em 1971, recebeu um Targa d’Oro pela venda de 22 milhões mundialmente. Em 1977, Ennio Morricone compôs o tema oficial para a Copa Mundial de 1978.

Em 2007, recebeu o Prémio Honorário da Academia pelas suas contribuições para a arte da música de cinema, e foi nomeado para mais seis óscares.

Ennio Morricone ganhou também três Grammy, três Globos de Ouro, seis BAFTAs, dez David di Donatello, onze Nastro d’Argento, dois Prémios de Cinema Europeu, um Leão de Ouro Honorário, um Prémio Polar Music em 2010 e um Óscar em 2016.

Contribuições para a Música

Em 1955, começou a escrever e compor para cinema e teatro, apesar de o crédito ser dado a outros autores já estabelecidos na indústria (a técnica designada de ghost writing). Ao longo da vida, compôs música clássica para cantores como Andrea Bocelli e Paula Anka, mas também para artistas nacionais e internacionais de jazz e pop.

O seu trabalho influenciou grandes artistas de vários estilos e géneros como Hans Zimmer, Danger Mouse, Dire Straits, Muse, Metallica e Radiohead.

“The Ecstasy of Gold” (da banda sonora de O Bom, o Mau e o Feio) é a sua composição mais conhecida. Foi usada pelos Ramones no final de uma das suas actuações ao vivo, e é usada como intro em todos os concertos dos Metallica desde 1983. Esta está também incluída em dois dos seus álbuns, e a banda fez uma cover da música para o álbum tributo We All Love Ennio Morricone, a qual foi nomeada para um Grammy.

O rapper Coolio usou-a como um sample na sua música “Change“.

Curiosidades

Apesar de ser reconhecido ao longo dos anos pelo seu trabalho inigualável, foi apenas em 2016 que recebeu o seu primeiro Prémio da Academia pela banda sonora de The Hateful Eight, de Quentin Tarantino, o que o tornou na pessoa mais velha a receber um Óscar.

Um dos maiores arrependimentos de Morricone foi não ter composto a música de The Clockword Orange – na altura, o realizador Stanley Kubrick contactou Leone para obter a sua aprovação e libertar Morricone para trabalhar consigo. Mas Leone mentiu, dizendo que este estava ainda a trabalhar na banda sonora do seu filme. Na verdade, Morricone já tinha composto a música e Leone estava, agora, apenas a arranjá-la no filme.

Morricone nunca quis ser conhecido pelos seus filmes spaguetti western. O facto de as pessoas só se lembrarem do seu trabalho nos mesmos deixava-o extremamente desapontado, uma vez que era uma pequena parte do que este realmente fazia. O seu talento compassava muitos estilos e géneros, e este adorava, acima de tudo, experimentar com a sua música.

Morricone passou ainda pela indústria dos videojogos, deixando a sua marca em temas de Cogans Run (1987) e, mais recentemente, em Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots e Metal Gear Solid V: Ground Zeroes com o tema “Here’s to You“.


Já tinhas ouvido falar de Ennio Morricone? Já conhecias o seu trabalho?

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