Com o Natal à porta, a Netflix fez-nos chegar uma prendinha muito especial para partilharmos com toda a família aí em casa. Klaus é um filme que estreia a aposta do serviço de streaming de eleição, no campo das mega produções de longas metragens de animação, e que procura recontar as origens da lenda do Pai Natal de uma forma muito credível. 

O Natal está diferente

Hoje em dia, parece que os miúdos já não acreditam tanto em magia. Pelo menos, não tanto quanto me lembro dos meus tempos de infância. Lembro-me de que, na altura, a família toda (primos, tios, avós, pais, irmãos…) organizava-se e envolvia-se para fazer as crianças acreditarem que as prendas apareciam por magia no dia de Natal, assim como acontecia com a Fada dos Dentes, com o Coelhinho da Páscoa, etc., e insistiam bastante na veracidade destas lendas para que as crianças pudessem sonhar e imaginar um mundo melhor.

Mas hoje o paradigma é diferente. E não é só do lado dos mais pequenos que as coisas mudaram, lá por terem desde novos recurso a imensa informação. É, também, porque nós os adultos do agora não temos mais tempo para criar estas brincadeiras que envolviam a família toda… 

Não é, assim, de estranhar que cheguemos ao século XXI a descobrir que a Cinderela não foi a um baile mas sim a uma alta rave… Parece que é chegado o momento de actualizarmos algumas histórias que conhecemos nas nossas infâncias, e as recontarmos com bons argumentos para as sustentar aos mais pequenos, se quisermos ser ouvidos e se nos quisermos fazer ouvir. 

No entanto, o recontar da lenda do Natal não é a única premissa de que parte o filme que temos aqui em análise. Klaus procura, também, restituir a esta época tão especial, aquele sentimento caloroso e mágico, tão natalício, que só me lembro de sentir nos meus velhos tempos de infância. Aqueles belos tempos em que Disney ainda passava os desenhos animados antigos de época, com Mickey e companhia, ou os filmes que retratam aquela intempestuosa noite do velho Scrooge.

Klaus, o recontar de uma lenda

Klaus

Como já deves saber, o título do filme faz referência à personagem que representa o Pai Natal, conhecido internacionalmente como Santa Claus (aqui, simplesmente, Klaus). Este é um velho lenhador que vive isolado no topo de uma montanha, para além de uma floresta, no meio de uma ilha fustigada pela neve e pelo clima de inverno.

Nesta ilha, as pessoas mal se comunicam. Vivem de costas voltadas umas com as outras, em pé de guerra, e a comunicação é demasiado expressiva e eficaz para se limitar a um pedaço de papel com alguns rabiscos de tinta… Se, efectivamente, as pessoas querem limpar o cebo umas às outras, elas fazem-no e pronto. 

Aqui, as crianças nem vão à escola. Pois esta guerra entre famílias e as peripécias para prevaleceram umas sobre as outras, é tudo o que há para se aprender e ensinar por aqui em Smeerensburg… e no meio disto tudo, surge o novo carteiro. Este último, recém-chegado e nada preparado para a vida dura que o espera, é a personagem principal do filme.

Jesper é-nos apresentado como o filho abastado de um General que comanda os serviços dos carteiros. Por teimosia de não querer trabalhar, habituado aos lençóis de seda e aos mimos da sua estripe, é castigado com a missão de subsistir por um ano em Smeerensburg. Isto, ou realizar o impossível. Se conseguir enviar de lá 6,000 cartas, tem ordem de saída imediata aprovada pelo seu pai. Só que há muito que não se envia uma única carta…

Um argumento para todas as idades

Klaus

Como é que será que Jesper vai conseguir se safar? É o que te deixarei descobrires por ti mesmo, sabendo que aqui serão-te explicados todos os detalhes conhecidos desta lenda, transversal a gerações…

Não quero mesmo estragar-te a surpresa, mas é bastante engraçado ver as situações surgirem e quando pensas, “olha, foi assim que começou a praticar-se isto.”.

Tudo muito bem pensado e planeado pela mente de Sergio Pablos (Gru – O Maldisposto), nuestro hermano que consistentemente desfez o novelo e nos estendeu ao longo deste filme um build up algo ternurento, ao nível da velha Disney… Ou não fosse ele o fundador do SPA Studios, com sede mesmo aqui ao lado, em Espanha, que faz outsourcing de animação para os tubarões da indústria como a Disney, Warner Bros., Universal, Blue Sky

Enfim. Para teres melhor ideia dos trabalhos dele que têm subtilmente passado e marcado a tua vida, relembro-te títulos como Tarzan, Rio, Hércules, O Corcunda de Notre Dame, O Planeta do Tesouro… E, claro que não me podia esquecer de referir os Minions. Bem que na altura em que estive a tirar licenciatura em animação, quis ir estagiar por lá e, já na altura, tive o meu primeiro contacto com os rabiscos deste filme, que nunca sonharia que se revelasse ser o filme de que venho hoje te falar.

Sergio Pablos não só foi o criador desta história original – foi também o seu realizador. Na escrita, contou com o apoio de Jim Mahoney (The Orville) e de Jack Lewis (Does This Baby Make Me Look Fat?), ambos estreantes na cadeira de co-argumentadores de um filme. Pablos, na direcção, teve também um apoio bastante forte de Carlos Martínez López (Planeta 51). 

Com isto, algo que posso garantir é que desde os avós até aos netos vão-se divertir e achar o argumento deste filme algo engraçado. Quer seja pelas peripécias e comicidade do mesmo, quer pela forma consistente com que nos entrega esta lenda.

Por fim, todos vão perceber a mensagem que o filme nos deixa e, talvez, voltar a apreciar esta época. O melhor de tudo é que podes contar com uma dobragem portuguesa na Netflix, com César Mourão a emprestar a voz a Jesper, Luís Mascarenhas a Klaus, e Mia Rose a Alva. Pelo que não há mesmo motivo nenhum para não mostrares este filme na noite de consoada!

Uma arte que lega emoções ao mais pequeno dos ecrãs

Klaus

No culminar disto tudo, temos uma animação sólida, fluidíssima, rica em expressão e vívissima! Quase que renascida dos velhos desenhos animados, mas com uma tridimensionalidade bem moderna e de gradientes carregados, sem necessidade de contornos.

No design das personagens, encontramos inspirações nos traços que o legado da Disney deixou à companhia da SPA Studios, com cores apelativas que tentam não fugir ao tom da história que é meio dramático, escuro e monocromático – como a alma de Smeerensburg.

Já na música, temos aqui também algumas estrelas a brilhar no cimo desta árvore de Natal. Como é o caso do tema inspirador Invisible de Zara Larsson, que não consigo parar de ouvir, e o tema cheio de alegria e motivador High Hopes de Panic! At The Disco, que confesso que é o primeiro tema desta banda que me conquistou. Já na restante banda sonora temos toda uma orquestra, onde os instrumentos, esses sim, procuram ser o assopro de magia de Klaus.

Conclusão da Análise
Um simples acto de bondade sempre desperta outro.
8.5
Cedo me apaixonei pelo mundo do cinema e dos videojogos. A ficção agarrou-me e não me largou mais! A vida levou pelo caminho da Animação e Pós-Produção, mas nos tempos livres, escrevo para voçês.