Bem sei que a Apple TV+ é um serviço que não ganhou grande tracção por cá, apesar do preço competitivo de 4,99€ por mês, mas mesmo por isso, resolvi explorar este mundo de que pouco se ouve falar, e ver algumas coisinhas que me pareceram interessantes e averiguar a sua viabilidade. E, como qualquer fã de videojogos, é óbvio que fiquei totalmente babada logo com a descoberta de Mythic Quest, série pela qual decidi iniciar esta minha viagem. Hoje após o visionamento da primeira temporada, venho-te dizer se vale ou não a pena estourares o teu período experimental de 7 dias nesta série.

Para uma resposta imediata, é claro que te aconselho a teres no mínimo 2 séries em mente que queiras ver, quer para este, quer para qualquer outro serviço de streaming

Do que se trata, então, Mythic Quest?

Criada por Charlie Day, Megan Ganz, e Rob McElhenney, sendo que este último desempenha também o papel principal no elenco, Mythic Quest relata a jornada de um estúdio dedicado a desenvolver e a dar suporte contínuo ao mais popular MMORPG deste mundo fictício: adivinhaste o nome do jogo – Mythic Quest.

Se o tema dos videojogos não te é muito familiar, talvez esta série não seja para ti, mas passo a explicar-te que um MMORPG é um videojogo on-line, onde imensos jogadores jogam juntos em mundo aberto e, ao mesmo tempo, num servidor. E não, não dá para fazer pausas neste tipo de jogos. Cada jogador cria aqui a sua própria personagem a seu gosto, e essa é uma das componentes-chave do género, poderes escolher ser quem e o que bem entenderes, que na mesma serás o grande herói de uma história envolvente, onde sentes que tens um papel importantíssimo a desempenhar neste mundo. 

Here's a closer look at Apple TV+ comedy 'Mythic Quest' ahead of Feb. 7th  launch - 9to5Mac

Com isto, o Mythic Quest apresenta-se na série como um jogo extremamente versátil e complexo, onde os jogadores podem escolher entre todas as classes já imagináveis, com um mapa de ambientes e construções variadíssimas, bem como com todo o tipo de itens e animações, pelo que é possível fazer quase tudo o que possas imaginar na vida real. E aqui entra a pragmática por que se debruça esta série e grande parte dos estúdios de videojogos que conhecemos: perante algo tão gigantesco e completo, como é que podemos inovar? 

Olhando para esta série veio-me logo à mente, obviamente, exemplos reais como World of Warcraft, 4Story, ou Aion. E foi precisamente aqui, através desta premissa de que Mythic Quest parte, desta precisa questão, que a série me captou. A sede de querer ver e acompanhar esta jornada e saber mais ou menos como é o ritmo de trabalho, o choque de papeis envolvidos e as implicâncias de gerir um negócio destes. Como é que são colocadas as ideias em prática, e como é que os vários departamentos reagem e se coordenam para tornar as ideias numa realidade e aplicá-las aos jogos.

Mythic Quest: Raven's Banquet Review: Not Quite Silicon Valley, But It  Could Get There | USgamer

Apesar de ser uma série de ficção, devo dizer que não foge muito do conhecimento que tenho dentro deste mundo do trabalho na indústria dos videojogos. Aqui consegues ver desde momentos do pitching das ideias, até à aprovação de conceitos, motion capture, testes, até à implementação de algo.

Com isto em mente, achei divertidíssimo acompanhar ao longo desta primeira temporada toda uma corrente de contratempos. Algumas peripécias foram algo hilariantes, enquanto outras mexem mais connosco e nos despertam um certo apreço pelas nossas personagens. A equipa de Mythic Quest tem aqui de lidar desde divergências entre departamentos, nomeadamente o criativo e o de programação, a golpes baixos da concorrência, a hackers, a haters, a grupos neo-nazis que invadem os servidores, a influencers que tentam destruir a reputação do jogo e a sua comunidade, a assuntos pessoais das personagens, e, claro, a sacrifícios pela equipa. Isto porque, no final do dia, tudo o que sempre tem de prevalecer em qualquer trabalho é a equipa. 

Mythic Quest: Quarantine Review: The First Coronavirus TV Masterpiece |  Collider

Nisto ressalvo o último episódio da temporada, um especial gravado totalmente através de chamadas de vídeo em plena pandemia, e onde vemos a equipa a enfrentar as dificuldades de cooperar com as medidas de confinamento e a manterem-se unidos e empenhados no desenvolvimento do jogo. Um episódio que, apesar de ter sido imprevisto, foi simplesmente o mais ternurento de se acompanhar. Isto porque cada personagem que compõe o corpo do estúdio cresce em ti com todas as suas diferenças, qualidades, e falhas, e acabas por te sentir emocionado quando estas finalmente ficam bem.

Um leque de personagens interessantíssimas

Logo à partida há várias caras que te serão familiares e que compõem o elenco principal de Mythic Quest, como Danny Pudi, o eterno Abed de Community, que aqui desempenha o papel de Brad, chefe do departamento de monetização do estúdio. Um personagem que aqui é algo um tanto mais irritante e sério, sendo o menos humano do elenco. Totalmente focado em fazer dinheiro, não olha a meios para enriquecer, mesmo que isso signifique deixar todo o estúdio a arder. 

Mythic Quest: Raven's Banquet Promo: Rob McElhenney Stars in a Video Game Ad

Ashly Burch é também um nome aqui a destacar, pois dá voz à famosa personagem Aloy da aclamada franquia de videojogos Horizon Zero Dawn, e aqui desempenha o papel de Rachel. Esta trata-se de uma tester que passa os dias a jogar Mythic Quest e a reportar bugs, ao passo que se apaixona pela sua colega de equipa, Dana (Imani Hakim, a eterna Tonya de Todos Contra o Chris). Rachel foi, de facto, a minha segunda personagem favorita a acompanhar nesta série por demonstrar o lado mais humano e divertido dentro do leque de personagens relevantes na estória. Totalmente o oposto de Brad.

Temos também presente David Hornsby, que também já contracenou com Rob McElhenney na série Nunca Chove em Filadélfia e que, juntos aqui, desempenham o papel de David e Ian, respectivamente. Ian é o excêntrico director do estúdio, que detém um ego maior que o mundo, e David, enquanto produtor executivo, tem de suportar e manter Ian na linha. Uma tarefa nada fácil e que falha miseravelmente a cada episódio, pois ambos sabemos como os directores criativos são teimosos… Posto isto, David vive diariamente em stress, tentando minimizar o impacto das divergências entre o director e os responsáveis pelos restantes departamentos, qual extintor humano.

Mythic Quest: Raven's Banquet" Brendan (TV Episode 2020) - IMDb

E aqui entra Poppy, a minha personagem favorita em toda a série. Interpretada por Charlotte Nicdao, esta é responsável pela equipa de programação, e por meter todas as ideias em prática. Basicamente é ela que dá o corpo e a alma para a máquina que é o Mythic Quest continuar a funcionar saudavelmente, resolvendo todos os problemas com que a equipa se depara. Nomeadamente, é a pessoa mais sensata e inteligente do grupo, e a qual todos deviam dar ouvidos, mas claro, é ignorada, por isso sente que não lhe dão o devido valor… No entanto, e apesar de todas as discordâncias entre esta e Ian, há uma certa cumplicidade viciante de se acompanhar na sua relação de ódio-amizade com o director.

E como me poderia esquecer de mencionar Jo, a psicopata que consegue entrar no meio disto tudo como assistente de David, mas que desenvolve uma paixoneta por Ian e se torna no seu “cão de guarda”, causando todo o tipo de constrangimentos? Esta tem sempre as sugestões mais moralmente questionáveis para qualquer situação. Por fim, vale a pena mencionar o velho C. W. Longbottom, o storyteller de Mythic Quest. Outrora um famoso e premiado escritor, agora alguém que não sabe muito bem o que faz da vida nem como é que a sua história tem impacto no jogo… O estúdio é a sua casa e a bebida o seu sustento, vive qual Norma Desmond à espera do seu último grande plano.

Mythic Quest's Ashly Burch Teases 'Very Sweet' Comedy & Similar Tone to  'Always Sunny' - TV Insider

Com um elenco tão versátil, e personagens tão discrepantes, foi simplesmente delicioso e hilariante observar como cada uma se encaixa nesta série e ver os seus laços desabrocharem e por vezes explodirem. Apesar do ritmo algo lento de escrita para haver algum tipo de evolução na situação das mesmas, Mythic Quest é algo que agarra e vicia do início ao fim. De tal maneira que não conseguia para de ver, episódio atrás de episódio, e estou mesmo mortinha por ver a segunda temporada que chegará lá para o ano que vem. 

Momentos que nos marcam

Também achei imensamente interessante e relacionável, mas algo estranho devo dizer, uns certos episódios especiais que apareceram pelo meio da temporada. Estes contam uma outra história que não a de Mythic Quest. Trata-se da aventura de um jovem casal que fundou a sua própria empresa de videojogos. Esta história coloca o projecto do casal quase na perspectiva de um bebé, que os mesmos lutam por criarem juntos, e demonstra o quanto o seu crescimento os molda, de uma forma tal que quando outros começam a ter mão no mesmo, sobretudo porque as decisões não são mais tomadas em equipa, o coração desse projecto parte-se e se divide… e morre. Se tens qualquer tipo de projecto, garanto-te que este capítulo vai falar contigo.

Mythic Quest (game) | Mythic Quest Wiki | Fandom

Outras coisas interessantes com que Mythic Quest nos presenteia, para além da sua comicidade e do leque fantástico de personagens, é também com a realidade das soluções que desenvolve para certos problemas que, por um lado, podes achar engraçadas, mas que são efectivamente postas em prática no mundo real como, por exemplo, mais recentemente, a polémica dos hackers no Fall Guys. Terás aqui uma situação relativamente muito parecida.

Mythic Quest Raven’s Banquet já está disponível na Apple TV+.

Deixa uma resposta

Por favor deixa aqui o teu comentário
Por favor deixa aqui o teu nome

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.