Recordo-me bem da primeira vez que me deparei com Snowpiercer. Estávamos em 2014 quando se estreou a adaptação cinematográfica do aclamado cineasta Bong Joon-ho, que recebeu este ano inúmeros elogios e prémios, nomeadamente o Óscar de Melhor Filme pelo seu trabalho em Os Parasitas.

Na altura, saí do filme algo transtornada, pois até ao momento em que chegamos à parte final do percurso desta narrativa, temos o prazer de acompanhar uma jornada abismal com total envolvimento e emoção. No entanto, nada nos preparou para o final que nos estava reservado, por trás da porta W… Bem, mais valia termos saído do filme e mantido para sempre aquela porta fechada. E digo isto não por se tratar de ser ou não um final feliz. Simplesmente, o filme descarrilou totalmente a partir daí.

No entanto, 6 anos depois, eis que a Netflix decidiu pegar nesta obra, numa nova adaptação da história de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, em Le Transperceneige. Esta nova série, promete ter muito mais para nos contar para além do que foi mostrado no filme. E de facto, não poderíamos estar perante adaptações mais diferentes.

Snowpiercer de Josh Friedman Graeme Manson, estreou na Netflix a 17 de Maio e muito devido ao sucesso do filme, inúmeros foram os espectadores com bilhete que decidiram embarcar nesta nova jornada. Há diversas questões que me fascinam imenso nesta obra: desde um grito de alerta para as alterações climáticas, à luta pela sobrevivência e à reestruturação de uma civilização. É claro que em primeiro plano, sentimo-nos muito mais envolvidos pela parte que toca à civilização. Entender as regras que regem a “harmonia” do Snowpiercer, que alberga as últimas réstias de vida no nosso planeta. 

Snowpiercer alberga a eterna disputa Comunismo vs Socialismo

Snowpiercer Netflix

Nesta primeira temporada, a visão de ordem e hamonia que regem o comboio são descortinadas à frente dos nossos olhos na perspectiva de Andre Layton. Ex-agente da autoridade e agora membro da Cauda do Snowpiercer. Esta trata-se de uma espécie de quarta classe social, constituída por pessoas que não tinham bilhete para embarcar neste comboio, mas que no dia do embarque, invadiram a estação. Como “não tinham o direito de embarcar”, estas vivem na miséria, alimentados como que por caridade, por barras gelatinosas de uma substância duvidosa e escura. A bem dizer, todo o Snowpiercer despreza a Cauda, e a Cauda despreza todo o Snowpiercer. Mas Layton tem outros planos, para erguer uma sociedade onde todos possam viver ao mesmo nível. 

Devo dizer que esta personagem é de facto algo astuta, afinal de contas é um detective não é? No entanto, como “lider” de uma revolução que pretende mudar todo o sistema do comboio, este detém a moleza de um gummy bear. Apesar de ser sem sombra de dúvida a personagem mais forte fisicamente do comboio inteiro, e talvez até psicologicamente, este está sistematicamente a deixar-se espezinhar, quando já é altura de se erguer e se mexer pelas suas próprias pernas. Será este o sacrifício e a resiliência a que um lider se deve submeter para garantir que todas as peças do seu plano se irão encaixar eventualmente, e a segurança dos seus seguidores? Sinto que falta uma imensa garra nesta personagem, tão melancólica e dormente, não desprezando de todo a interpretação de Daveed Diggs. Espero apenas que na próxima temporada Layton tenha um maior desenvolvimento.

Num outro extremo do Snowpiercer, temos a figura principal que mantém a ordem entre as classes. A sombra de Mr. Wilford que zela por todas as vidas, é adorada e louvada por todas as classes do comboio… com excepção da cauda obviamente. Esta é uma sombra que se mantém sem rosto para o espectador, mas que infelizmente, já tive um spoiler de saber quem é o actor que vai dar seguimento a este papel… Não sei figurativamente o que poderia ser mais spoiler, mas para evitar eventualidades, vamos colocar o foco na personagem que realmente importa destacar: Melanie Cavill. Esta é chefe dos serviços de hospitalidade, cujo papel é tratar da comunicação entre Mr. Wilford e a comunidade, e das burocracias para a manutenção da ordem e da justiça entre classes, servindo todos os seus tripulantes. No entanto Melanie esconde imensos segredos, capazes de mudar igualmente para sempre o Snowpiercer. 

Devo dizer que esta sim, foi uma personagem que conseguiu mostrar-me um maior e mais diverso leque de cores a par de Till. Como espectadores, inicialmente teríamos todos os motivos para detestá-la, e ainda poderemos ter, mas é unânime o louvor que temos de dar à força, ao empenho, e ao espírito de sacrifício desta personagem. Apesar dos apesares, esta é uma mulher que veste a camisola para desempenhar qualquer trabalho. Em toda e qualquer situação em que o Snowpiercer precise de alguém para resolver as tarefas mais complexas e arriscadas, lá está a Melanie, pronta a dar tudo o que for necessário de si para manter toda a paz e ordem por que tanto luta e acredita. Isto não é um papel, mas sim um papelão, que por vezes até a vemos agir contra si própria e sofrer com as suas próprias acções. Uma personagem que temos o prazer de ver representada por Jennifer Connelly, e que não podia estar melhor entregue.

Enredo lento e disperso

snowpiercer

Melanie e Layton cruzam-se quando é descoberto um corpo abordo, totalmente esquartejado e separado dos membros (Deadly Premonition 2 outra vez?). Esta não é a primeira vez que um homicídio acontece no Snowpiercer, e com o mesmo modus operandi. Sendo que já se julgava que o culpado tivesse sido detido e sentenciado a ficar com a sua vida suspensa, nas Gavetas. Estas são uma espécie de morgue mas que serve mais de prisão, onde a vida das pessoas é suspensa. Com isto, e sob a protecção de Mr.Wilford, Melanie concede a Layton carta branca para explorar o Snowpiercer em troca dos seus serviços na investigação do crime, e claro, este aproveita para colocar o seu plano em movimento. 

No entanto, ao invés de mergulharmos totalmente no desenvolvimento desta investigação, temos um passo extremamente lento de escrita, com pouquíssimos desenvolvimentos de episódio para episódio, e onde nos deixamos ficar um pouco a marinar. Em certa parte, é interessante que o começo de cada episódio seja narrado por uma personagem diferente, dando-nos escopo às suas motivações e lutas pessoais, mas por outro, acaba por deixar o foco da revolução e do caso do homicídio para segundo plano. Embora eu me tenha sentido sempre fascinada pela quantidade coisas a manter debaixo de olho e as diferentes perspectivas das personagens, entendo que tal possa saturar um pouco o espectador mais atento.

No entanto, eu gostaria de frisar que o Snowpiercer não é só a história de Layton, é obviamente do próprio Snowpiercer e da sua população. Apesar de não contar com um leque de personagens muito interessantes, desde Till, a Josei, Ruth (not you), a Miss Audrey, ao Roche, Zara (not you) são várias as personagens que vamos aprendendo a também apreciar e a zelar de certa forma pelo melhor para elas. Nomeadamente Till tem uma evolução, através de um caminho de juízos que são só seus para tomar. Já Josei começa a temporada com um papel muito discreto mas que cresce de episódio para episódio.

O Frio

Snowpiercer Netflix

Aparte das personagens, e desta luta interna entre a sociedade, é de se destacar o verdadeiro vilão nesta história: o frio. Lembras-te de ter dito acima, que o grito das alterações climatéricas foi um dos aspectos que mais me surpreendeu nesta série? Pois bem. O clima não é de facto esquecido. É um vilão que se enraizou na cultura do Snowpiercer e que opera em pano de fundo na sua próxima investida. Com o planeta todo congelado, o isolamento do Snowpiercer é substancial para a preservação de vida. No entanto, crimes passaram a ser puníveis com a exposição de membros ao exterior do comboio. 

Da mesma maneira, qualquer fuga de ar numa carruagem, pode ter repercussões catastróficas para a vida na Terra, e afectar completamente todo este ecossistema tão frágil quanto uma bolha de sabão. Certas coisas como, comer uma laranja, ou ter a companhia de um gato, são para esta cultura de um mito quase impossível de processionarmos, mas no ecrã constatamos que a mesma existe.

Incoerências

Snowpiercer-netflix

A forma engenhosa como todo este sistema opera sobre estas condições é de facto fascinante de se testemunhar nesta série. No entanto, se estivermos a falar de realismo, encontramos o aqui o calcanhar de Aquiles. Pois sendo que as linhas do comboio se mantêm sempre paralelas à mesma distância (convém né?), é totalmente impossível a existência de carruagens mais largas que outras. No entanto vemos por exemplo a locomotiva, onde mal conseguem estar duas pessoas lado a lado, e quem viaja em terceira classe, tem no entanto direito a uma pista de espectáculos de palco e dança. E ainda nem toquei no facto de termos 2 andares… 3 até se considerarmos a base do comboio, um longo corredor onde todos os reparos técnicos e de engenharia são corrigidos e monitorizados. 

2 andares são contudo a nossa vista mais frequente de cada carruagem, no entanto na Cauda por exemplo, tal como na Locomotiva, não temos qualquer indicação de termos mais que um andar. O café onde Layton e Roche falam pela primeira vez no primeiro episódio, tem também só a indicação de se tratar de 1 andar, e no entanto já estamos a falar de uma carruagem da 3.a classe, onde se encontra a discoteca e um aglomerado de espaços “privados”. 

É portanto uma realidade algo confusa, apesar de brilhantemente desenvolvida com diversos ambientes e cenários, que nos dão a conhecer de fio a pavio as composições das 1001 carruagens que compõem o Snowpiercer. No entanto, se há algo a dar mérito a esta produção, é a ambientação do espectador. Nos últimos episódios desta temporada já consegues navegar suficientemente bem pelas cenas, de tal forma que nem precisas de indicações para saberes onde a acção no ecrã se encontra. Só para exemplificar, temos as Gavetas, a Cauda, a Locomotiva, a sala secreta na 3.classe, o palco, os “condomínios”, a sala de aula, o talho, as carruagens onde se pratica a agricultura sustentável, e claro, a sala convívio da primeira classe… 

Como podes ver, acabei de enumerar imensos cenários diferentes que vamos conhecendo conforme o evoluir da temporada, no entanto podes apostar que deixei bastantes de fora para não estender ainda mais a lista. Cada cenário, ou cada classe por assim dizer, tem-lhes atribuída uma certa conotação de valores e de mensagem visual, mais carregada na 3ª classe, e mais suave na 1ª, sendo a Cauda o sítio mais escuro e desolado do Snowpiercer. No entanto há um certo equilíbrio de linguagem que tenta estabelecer uma harmonia entre carruagens.

Acima de tudo, senti-me completamente vidrada nesta série. De tal forma que após acabada a primeira temporada sinto que ainda não estou pronta para partir para outra série. Aquele sentimento desolado de querer ver só mais um pouquinho.. e só de pensar que falta tanto tempo para vir aí uma 2.a temporada…

Conclusão da Análise
Que venha a 2ª temporada!
6
Cedo me apaixonei pelo mundo do cinema e dos videojogos. A ficção agarrou-me e não me largou mais! A vida levou-me pelo caminho da Pós-Produção e da organização de Eventos de cultura pop, mas o meu tempo livre, dedico-o a ti e à Squared Potato.

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