O novo thriller pandémico Songbird é um dos primeiros a acabar a sua produção durante o confinamento em Los Angeles/Califórnia. Entretanto, a Universal Pictures já apostou num contrato de cinco filmes produzidos inteiramente com a ferramenta Screenlife.

Ambos os casos vêm a mudar a forma como encaramos o futuro do cinema durante uma pandemia, e mostram tanto a resiliência como a capacidade de adaptação dos seres humanos perante uma realidade completamente nova.

Songbird

Produzido pela Invisible Narratives (liderada por Michael Bay, Adam Goodman e Andrew Sugerman) e pela Catchlight Films, Songbird promete ser “relevante, comovente, e sentimental enquanto história de amor, mas também assustador” de acordo com Adam Fogelson, presidente da STXfilms, companhia que adquiriu os direitos de distribuição do filme na América do Norte e Reino Unido.

Realizado por Adam Mason, o qual também escreveu o guião com Simon Boyes, Songbird inclui Alexandra Daddario, Sofia Carson, KJ Apa, Craig Robinson, Bradley Whitford, Peter Stormare, Jenna Ortega, Paul Walter Hauser, e Demi Moore.

Riverdale' Star KJ Apa Joins Pandemic Movie 'Songbird' - Variety
KJ Apa

A história girará em torno de uma pandemia, dois anos no futuro, algo que certamente ressoará com o público geral. Nesta realidade fictícia, a pandemia não desapareceu: de facto, o vírus sofreu mutações que o tornaram ainda mais problemático, levando a uma conspiração governamental e paranóia durante o confinamento. Songbird foi buscar inspiração a filmes low-budget como Paranormal Activity e Cloverfield, apesar de, de momento, não ter indicações de elementos sobrenaturais.

Para além de ser extremamente actual, Songbird tornou-se no primeiro filme a vir a ser filmado durante as medidas de segurança instaladas devido ao Covid-19. A equipa providenciou treino remoto aos actores, e assegura que durante as gravações as regras de distanciamento social serão seguidas: não haverão pessoas juntas numa divisão, as cenas serão preparadas pela equipa de filmagens e só gravadas depois, e os actores não vão interagir entre si.

Michael Bay's New Movie 'Songbird' is Now Casting Speaking Roles
Michael Bay

Apesar de não ser o método mais simples ou rápido, Songbird abrirá portas para avanços de filmagem de outros filmes e programas de televisão durante a pandemia, para que possamos desfrutar destes media com um relativo grau de normalidade.

Exemplos de produções gravadas em ambientes de distanciamento social incluem Into the Dark (filmada num quarto com três actores), Moon (um astronauta que vive sozinho com um robô, onde vídeo-chamadas foram extensivamente usadas), Unfriended (que se baseou num grupo de chat no Skype) e programas de televisão como Saturday Night Live, cujos sketches são gravados individualmente nas casas dos convidados e participantes.

Screenlife

Há cerca de dois anos atrás, o director russo Timur Bekmambetov, conhecido por Ben-Hur e Abraham Lincoln: Vampire Hunter, criou uma ferramenta que talvez nunca pensaria vir a ser tão útil e por razões tão inauspiciosas: Screenlife, desenvolvida com o propósito de produzir filmes em que tudo o que o espectador vê se passa através de computadores, tablets ou smartphones. Em vez de existirem cenários inteiros e equipas de filmagens no mesmo ambiente, os actores simplesmente interagem com os seus ecrãs.

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Screenlife thrillers like John Cho's Searching on the way from Timur Bekmambetov | EW.com
Searching (2018) / John Cho

Para os mais cépticos, Bekmambetov já provou resultados muito promissores: Unfriended, Unfriended: Dark Web e Profile são três filmes de terror baseados nos perigos de passar demasiado tempo online; Searching segue um pai em busca da sua filha adolescente utilizando os meios digitais à sua disposição. Unfriended atingiu 64 milhões, um verdadeiro sucesso de bilheteira, e Searching 75 milhões, recebendo ainda dois prémios no Sundance Film Festival. Todos estes têm em comum o facto de utilizarem Skype, FaceTime e o próprio ecrã do utilizador como meios visuais para o espectador – nada mais.

Screenlife é também utilizado para publicidade, e promete ser o futuro dos filmes gravados durante uma pandemia – para além dos óbvios benefícios de segurança, diminuiu drasticamente os recursos utilizados e, por consequente, os custos finais. Permite ainda que novatos de todas as profissões, que tentam dar cartas em Hollywood, tenham finalmente oportunidade de se provar sem os desafios e bloqueios impostos pelas grandes companhias. Um problema que Bekmambetov também encontrou ao longo da sua carreira.

Berlin: Russia's Timur Bekmambetov Looking for Sales After Box-Office Disappointments | Hollywood Reporter
Timur Bekmambetov

Enquanto Hollywood esteve fechado, Bekmambetov já completou cinco filmes e promete não ficar por aí. A facilidade com que as filmagens podem ser feitas com os actores no conforto dos seus lares, a salvo dos riscos do Covid-19, permite gravar sem restrições, num ambiente seguro, e faz com que o método possa vir a tornar-se, se não essencial, pelo menos muito útil para o futuro do cinema como o conhecemos.

Bekmambetov tem 50 projectos de Screenlife em desenvolvimento, incluindo uma adaptação de Romeu e Julieta nos tempos digitais, e a sequela de Searching. Este assinou ainda um acordo de cinco filmes de géneros distintos com a Universal Pictures, que também se basearão na sua ferramenta.

O género pandémico

As histórias sobre futuros distópicos e outros subgéneros semelhantes não são, de todo, novidade. Muito antes do Covid-19 já realizadores e escritores vinham a imaginar estas realidades fictícias (mas possíveis) nas suas obras.

Desde apocalipses zombies a invasões alienígenas, toda uma panóplia de tragédias que viriam a assolar a Humanidade foram recriadas no grande e pequeno ecrã (e também em livros e jogos, claro) com mais ou menos liberdades criativas.

Screenlife Songbird
Contagion (2011) / Kate Winslet

Mas agora que a tragédia se tornou real (e realmente perigosa), pudemos experienciar em primeira mão o que é passar por uma pandemia a nível global e isso mudou completamente a forma como se pensa e escreve o subgénero de distopia – desde a parte técnica (os protocolos) até à parte social (como nos comportamos enquanto indivíduos e grupos perante um vírus mortal desta escala).

Testemunhar o mundo à nossa volta a sofrer uma alteração desta magnitude leva a mudanças radicais no nosso consciente e subconsciente: a forma como encaramos a nossa vida, o nosso dia-a-dia, e o nosso futuro. Cria desconforto, ansiedade, e um fenómeno de ripple effect, afectando a nossa economia, política e restantes áreas de formas distintas.

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I Am Legend (2007) / Will Smith

Os filmes do género criados durante o ano de 2020 serão reflexo de uma realidade não fictícia e distinguir-se-ão brutalmente dos seus antecessores hipotéticos.

Com isto, não sugiro que a imaginação e liberdade criativa não tenham lugar na sua concepção, ou que as conjecturas feitas anteriormente não sejam igualmente válidas. Aliás, penso que as mesmas sofrerão, simplesmente, uma actualização. No entanto, é possível que, em alguns casos, sejam deixadas de parte perante cenários reais e tangíveis, que terão um impacto profundo numa especial geração de cineastas.

O seu foco principal será a exploração da actualidade; de responder às muitas perguntas deixadas sem resposta, esmiuçar o que correu mal e o que correu bem, o que deveria ter sido feito e não foi. E, acima de tudo, expor as verdades e teorias mais desconfortáveis e controversas. Afinal, já não se tratam apenas de cenários especulativos.

Qual é, então, o futuro do cinema durante uma pandemia?

Esta é uma pergunta a que, por razões óbvias, não é possível responder. O futuro será uma constante incerteza, e o rumo desta pandemia global ainda mais (apesar de, segundo Bill Gates, o seu fim estar bem próximo).

Carriers Review | Movie - Empire
Carriers (2009) | Piper Perabo, Chris Pine, Emily VanCamp

Mas com tantos exemplos de sucesso utilizando meios alternativos aos tradicionais e a constante evolução das tecnologias disponíveis ao ser humano, para além da nossa incrível capacidade de adaptação, uma coisa é certa: os grandes filmes de Hollywood, por muitas mais mutações que sofram, nunca deixarão de ser um dos grandes prazeres do público, podendo continuar o seu legado, geração após geração.

Talvez em formatos um pouco diferentes, e com algumas alterações necessárias, mas mantendo os ingredientes de uma boa história, com actuações incríveis, e uma contínua sede por superar cada etapa conseguida.

Permitirá a exploração de métodos nunca antes vistos e a entrada de mentes jovens, com perspectivas frescas, num meio por vezes tóxico e há muito saturado. Em termos criativos, a pandemia virá a influenciar e questionar tudo o que se sabe e anseia transmitir ao espectador, sem descorar do toque pessoal e original dos seus autores.

Outbreak | Netflix
Outbreak (1995) / Cuba Gooding Jr., Kevin Spacey, Dustin Hoffman

É verdade o que se diz sobre criar oportunidade em tempos difíceis, e só aqueles que decidem tirar o melhor partido das suas circunstâncias (com uma boa dose de sorte) poderão triunfar no novo mundo em que vivemos. Isso significa seguir as regras impostas para nossa segurança e daqueles que nos rodeiam, ao mesmo tempo que se criam novas formas de circundar as dificuldades e impedimentos gerados. Neste caso, para benefício das artes.

Timur Bekmambetov e empresas como a Invisible Narratives foram pioneiros nesta jornada, mas muitos mais lhes seguirão os passos, com certeza.


E tu, qual a tua opinião sobre o futuro do cinema durante uma pandemia?

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