Esta análise traz dois marcos importantes na minha breve experiência como escritor: primeira análise de um jogo da Ninja Theory, e primeira análise jogada numa Xbox Series X (finalmente e felizmente completei a santíssima Trindade). Ora, pensei bastante no jogo em que queria estrear a minha escrita e não encontrei nenhum melhor que Hellblade: Senua’s Sacrifice.

A Ninja Theory é um estúdio claramente focado em jogos com narrativas e cenários épicos, como por exemplo Heavenly Sword, Enslaved : Odyssey to the West ou DmC (do qual eu até gostei bastante), pelo que Hellblade encaixa perfeitamente na sua expertise de criações. No entanto, nesta iteração do portefólio, a equipa britânica decidiu incluir também um tema controverso, não por ser negativo, mas antes pelas inúmeras questões que existem por responder: doenças mentais; acrescentando assim uma camada que viria a revolucionar o estatuto desta incrível equipa.

Encarnamos assim Senua, numa viagem pelo reino mitológico nórdico (com a ajuda de folclore Celta, entre outros) onde teremos de alcançar Helheim, domínio de Hela, de forma a resgatarmos Dillion, a sua cara-metade. Ao longo desta viagem iremos encontrar algumas adversidades, entre estas demónios e puzzles. Parte da mística de Hellblade, é que desde cedo nos apercebemos de que a linha entre realidade e o imaginário é bastante ténue, derivada da psicose sofrida por Senua, o que nos coloca num constante estado de inquietação, quase como assumindo o seu lugar na luta contra estes demónios.

Lê mais:  Xuan Yuan Sword VII | Análise

O jogo tem então duas mecânicas chave: o combate e os puzzles. Percebo a necessidade de incluir o combate, e este é bastante intuitivo e cativante, visto estar bem desenhado, no entanto, creio que mais para o fim, podiam ter aligeirado, ou reinventado a aplicação da dosagem. Teria um impacto mais forte na história e tirava o foco das hordes desnecessárias que surgiam.

O combate tem vários tipo de interação (golpe leve, forte, pontapé), o que dá azo a várias combinações, ajudando a manter a experiência diversa. Os inimigos são sempre os mesmos, tirando os mini bosses, o que em parte se percebe devido não só à duração do jogo, mas também ao orçamento que este teve (reduzido).

Os puzzles seguem todos a mesma mecânica/lógica. Encontramos um obstáculo com um padrão, e teremos de procurar pelos locais a réplica dos padrões, sendo que estes vão alterando a maneira como os vemos, para além de acrescentarem outra camada ao que pode ser real ou imaginário, sem dúvida aliciantes.

Hellblade segue também a tradicional rota de local com exploração – inimigos – boss. Percebe-se a insistência neste caso, visto que o jogo já se afasta bastante do espectro em termos narrativos, mas senti em parte que vulgarizou um pouco a experiência, assemelhando-se a outros jogos, quando creio que a Ninja Theory conseguia vender este jogo apenas com a narrativa e ainda assim serem incrivelmente bem sucedidos (como assim o merecem).

A Ninja Theory recorreu ao Unreal Engine 4 para a experiência, criando visuais quase foto-realistas, incluindo um motion-capture genial de Melina Juergens (Senua), que de forma engraçada, traz consigo várias semelhanças de Trip e Nariko, de Enslaved e Heavenly Sword, respetivamente (a Ninja Theory tem claramente um type, do qual não me queixo). Os locais são distintos, mantendo uma brisa fresca pelo reino nórdico. Foi também utilizada gravação binaural (som vindo de várias direções) de forma a contribuir para a inquietação de Senua, com vozes vindas de várias direções e em volumes distintos, tornando a experiência avassaladora.

Lê mais:  Jogos grátis | Cave Story's Secret Santa gratuito por tempo limitado

Apenas tenho a reportar que existe um bug nas cutscenes em que se meterem no pause, o áudio continua a dar mas o vídeo para, levando a um desync, o que não é incomodativo, mas faz-nos esperar que a cutscene acabe senão acabamos por não perceber nada do que se passou.

A viagem de Senua é sem dúvida exaustiva mentalmente, no entanto é absolutamente necessária para qualquer apreciador de videojogos. Senua crava sanidade ao jogador sendo bastante expressiva, o que contribui para a imersão de um mundo que nem sabemos se realmente existe, o que nos coloca no lugar desta e nos faz questionar sobre os inúmeros casos reais que padecem desta condição, sem dúvida assustador.

Grande bem-haja à Ninja Theory por optar explorar e divulgar uma viagem tão conturbada, mas essencial neste meio altamente populado por pastilhas elásticas.

CONCLUSÃO
Avassalador
8.5
hellblade-senuas-sacrifice-analiseHellblade: Senua’s Sacrifice traz consigo uma viagem atribulada, não só marcada pela luta de Senua, mas pela questão e inquietação que levanta ao jogador relativamente à psicose. Esta constante luta, tanto no jogo como na vida real produziu resultados incríveis para a Ninja Theory, incluindo agradecimentos especiais de jogadores com a mesma condição. Um belíssimo jogo, deixando água na boca para o seu sucessor.