A Sendai Editora voltou em grande às publicações de manga em Portugal, desta vez com a obra de Kyôko Okazaki, Helter Skelter: Queda e Ascensão. Tal como o título A Prisão, já publicado anteriormente pela Sendai Editora, esta é uma história que foge aos géneros mais comuns de manga, e ao fazê-lo, dá-nos uma lamiré sobre o que é a indústria de moda no Japão, de uma forma extremamente realista, porém aliciante, para quem também gosta de se aventurar no género de terror (onde a Sendai Editora também já é especialista).

De forma a melhor expor a história deste incrível manga, deixo aqui a sinopse oficial que a Sendai adotou:

Lilico é a maior modelo que Tóquio já viu. Uma personalidade completa, além de cantora, atriz. Desejada pelos homens, adorada pelas raparigas e invejada pelas mulheres, Lilico faz o que for preciso para ser a estrela mais brilhante. 

Mas esta é uma indústria cruel, que descarta as mais experientes assim que uma nova carinha bonita se revela. No entanto, Lilico não irá abandonar o seu trono facilmente… 

Acredito que, com esta sinopse, já esteja a ser criado na mente do leitor um paralelismo com a obra de Satoshi Kon, Perfect Blue. E, de certa forma, estas parecenças não são totalmente infundadas, já que, além de Helter Skelter tocar em aspetos parecidos ao clássico filme de animação, foca-se principalmente na degradação mental da personagem principal, um aspeto que está presente em ambas as obras, porém expostas de uma forma diferente.

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Enquanto que em Perfect Blue, vemos Mima Kirigoe a perder a sua sanidade mental devido às perseguições de um stalker, em Helter Skelter, Lilico é aterrorizada pela simples possiblidade de ser substituída por uma modelo mais jovem, e de assim perder a sua notoriedade. Isto faz com que ela comece a mostrar a sua personalidade absolutamente controladora, que se vai notar principalmente na forma como trata a sua assistente, insultando-a e oferecendo-lhe sexo em troca de favores.

Kyôko Okazaki, enquanto mangaka, sempre resolveu explorar temas considerados “tabu” de uma forma direta e sem rodeios. Ela desafia as normas da sociedade em relação à beleza e ao culto ao corpo, ao abuso de substâncias, à automutilação e à dismorfia corporal, com uma franqueza absolutamente desconcertante. Assim, esta ilusão que Lilico experiencia, a de possuir o corpo perfeito, é rapidamente avassalada, quando se começa a aperceber do efeito que as operações plásticas que ela havia realizado estavam a ter sobre o seu corpo.

Isto porque, de forma a possuir o corpo perfeito, Lilico havia realizado inúmeras operações que a haviam realmente embelezado, apesar de destruírem completamente a sua integridade física, e mais tarde, psicológica. Assim, Kyôko Okazaki demonstra o quão perigosa pode ser a obsessiva procura da perfeição, e o quanto ela pode enlouquecer Lilico, uma simples escrava dos padrões de beleza excessivamente elevados que a sociedade impõe às mulheres. E diria assim, que o mais assustador que este manga teve a oferecer foi o quão facilmente as raparigas mais jovens eram influenciadas por estes ícones de beleza, como Lilico, o que levava a hábitos nada saudáveis.

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Apesar de incompleta, devido a um recente acidente que a mangaka sofreu, Helter Skelter possui uma poderosa história, que está contada de uma forma complexa, porém excelente. Infelizmente, não posso dizer o mesmo da arte. Apesar de não me ter insatisfeito totalmente, muitos leitores irão certamente criticar a arte do manga, que é feia e pouco realista, chamando-lhe até grotesca; o que até é engraçado, já que cria um contraste com o tema do manga, focado totalmente na beleza de Lilico.

Quanto à edição da Sendai Editora, possui a mesma qualidade que todas as outras, contendo desta vez alguns desenhos excepcionais no início e no final do manga. Ele contém 320 páginas, sendo neste momento o maior manga que a editora já publicou, porém em termos de comprimento de páginas, possui exatamente o mesmo do Na Prisão. Para terminar, refiro que Helter Skelter não é de todo adequado a todas as idades, já que além de tocar em assuntos delicados, possui também nudez e cenas de cariz sexual.

Helter Skelter foi adaptado em 2012 para cinema por Mika Ninagawa, e o manga ganhou inúmeros prémios mundialmente tais como:

  • Prémio de excelência, Japan Media Arts Festival, 2003 
  • Grande Prémio, Prémio Cultural Osamu Tezuka, 2004 
  • Seleção oficial, Festival de Angoulême, 2008 
  • Adaptado para filme, realização de Mika Ninagawa, 2012 

Helter Skelter: Queda e Ascensão já está disponível para compra no site da Sendai Editora!

CONCLUSÃO
Magnífico!
8
helter-skelter-analiseApesar de conter uma excelente história, sem medo de tocar em temas considerados "tabu", Helter Skelter tem uma arte pouco agradável, que poderá afastar muitos leitores de uma obra que é, no geral, magnífica.