Já desde o ano passado, eu e o meu eterno grupo de cinema combinamos de ver juntos a noite dos Óscares. É engraçado que temos bastantes perspetivas diferentes mas sempre acabamos a rir ou, mesmo não concordando, a entender o ponto de vista uns dos outros. Como tal, gosto de ver o máximo dos filmes que estão nomeados para as mais diversas categorias e é possível que nos próximos tempos venham algumas análises por esse mesmo motivo.

O filme desta vez era If I Had Legs I’d Kick You. Para ser sincero o trailer não me cativou muito: parecia uma injeção de stress e ansiedade sobre uma mãe que tenta gerir a sua vida com o marido fora e uma filha doente, enquanto tem que lidar com os stresses da vida quotidiana.

Digo que o filme não me captou a atenção porque estava meio à espera de um ensaio sobre o quão duro a vida é e o quão fortes as mulheres têm de ser para lidar com isso. O que não é necessariamente uma má premissa, embora um tanto ou quanto cansada; mas sabemos que filmes nomeados para o Óscar de melhor atriz normalmente vão cingir-se muito a crítica do papel da mulher na sociedade enquanto mostram a protagonista em posições de sucessiva vulnerabilidade pelas instituições ou por si própria; foi-o assim com Maria, A Substância e mesmo o vencedor do ano passado nesta categoria: Anora. Mas, felizmente este filme surpreendeu-me muito.

A história gira em torno de Linda, conforme disse antes, uma mãe de uma rapariga pequena e cujo marido está aparentemente fora numa missão militar num barco. Logo desde o início do filme a sua filha, que não tem nome, tem uma doença rara no qual não pode comer certos tipos de comida e, porque está muito abaixo do peso, tem de se alimentar por uma sonda.

Vemos o quão díficil é para Linda toda esta situação e o fato de ter de lidar com tudo sozinha, enquanto que as instituições à volta dela vão falhando uma a uma: o casamento falha porque o marido está longe e simplesmente não consegue compreender o que se passa, sendo que eles discutem montes de vezes por causa disso; o hospital falha, pois o limite de peso que pedem para a sua filha é simplesmente inatingível e no meio do seu stress, a paranóia surge e Linda pensa que é propositado; a habitação falha dado que um buraco gigante abre no seu teto fazendo com que uma inundação entre no seu apartamento e, como tal, mãe e filha são forçadas a ir viver para um motel; e por último, o próprio trabalho falha: é uma agravante de stresse e ansiedade ser terapeuta num dos momentos mais difíceis da sua vida, enquanto que tem de ser altruista e focar nos problemas dos pacientes, mesmo que o seu própio terapeuta não seja muito eficaz para a ajudar. A isto adensam-se as birras e caprichos da filha que não é uma criança fácil.

Com o passar do filme temos a psicose lentamente a instalar-se até Linda sair totalmente de controlo. Várias situações que acontecem causam ao espectador um mal-estar constante e uma ansiedade crescente culminando em momentos em que a protagonista abandona todo e qualquer semblante de racionalidade para apenas reagir às coisas que lhe acontecem. Colocando a pergunta presente e insistente: “o que fazes quando todas as instituições de apoio falham?”. A isto juntam-se sentimentos de culpa e de vergonha e até momentos de alucinação e psicose extrema que simplesmente nos dão um nó no estomâgo e perguntamo-nos ou se as coisas estão mesmo de facto a acontecer; ou quando é que esta família vai poder ter um minuto de paz.

A este ponto o leitor deve se estar a perguntar como é que a minha descrição difere de algum modo da expectativa que tinha pelo trailer, certo? Será que é uma questão de execução ou uma nuance complicada? Bom, a verdade é que o filme apresenta-se dessa forma, e é provável que muitos críticos e reviewers o vejam assim e falem dele assim; mas na verdade, existe uma camada simbólica muito real e sempre presente ao longo da duração deste filme.

Sem entrar em spoilers para não estragar a experiência a quem esteja interessado em ver: no seu cerne, o filme apenas se apresenta dessa maneira, mas a sua verdadeira essência não tem nada a ver com isto. Para quem juntou as peças: deixe um comentário apenas a dizer se percebe o que quero dizer com isto; não queremos estragar a experiência a outras pessoas. Ou, se me conhecerem, venham me perguntar se era mesmo sobre isso.

Digo-vos que a minha experiência foi a seguinte: na cena final, pouco antes das últimas falas, certos pedaços de provas de pensamentos que já tinha soltos para fazer sentido do que estava no ecrã juntaram-se e eu disse um audivel “Ah!”, e assim que as luzes acenderam-se dei o meu discurso às pessoas que foram comigo que concordaram surpreendidos que esse seria o ponto do filme, mas quanto mais falámos dele, mais sentido todo o raciocínio fez e é muito engraçado passar o filme inteiro outra vez na nossa mente e recontextualizar algumas cenas e o papel de alguns personagens.

Por muito interessante e único que este efeito possa ser, há coisas que não estão relacionadas com a escrita que invariavelmente puxaram este filme para baixo, a maior delas todas foi a atuação. Não me interpretem mal, Rose Byrne está brilhante e é mais que merecedora de uma estatueta caso receba, não sei se a mais merecedora porque ainda não vi nenhum dos outros filmes indicados (está tudo bem, eu provavelmente não vou conseguir), e A$AP Rocky conseguiu trazer bastante e necessário alívio cómico a um filme que destila desconforto e ansiedade.

No entanto, o resto do cast está bastante abaixo, principalmente os pacientes de Linda, que têm um papel muito importante na verdadeira face do filme, não sei se foi de propósito para se notar o contraste e o quão surreal certas atuações são mas não sei se é uma boa ideia para o aproveitamento do filme.

O filme tem sempre uma atmosfera surreal, seja pelas atuações fracas ao pé da atriz principal, seja pela muitas vezes falta de empatia proposital que o enredo causa com ela: alguns dos problemas são consequências das próprias ações e o espectador pode passar o filme inteiro, ou até ter problemas em empatizar com a protagonista e falhar o verdadeiro tema do filme simplesmente porque muitas vezes devido ao stress a que está submetida ela toma decisões péssimas para pessoas que a tratam bem ou dependem dela.

Quando saí do filme, por exemplo, um grupo estava a discutir se era a mãe que estava mal ou a filha que era muito díficil, sendo que não penso que seja esse de todo o ponto do filme. Mas às vezes eu afastava-me emocionalmente do filme por causa de não entender se era realidade ou alucinação, porque parecia real mas era demasiado surreal para ser real, inclusivé uma cena tão bizarra que me fez rir compulsivamente. A comprovar-se o que penso, é possível que algumas pessoas achem que o filme tem uma pauta política, mas penso que ele se limita a expressar como se sentiria uma pessoa nesta situação e com estes sentimentos, independentemente de concordar ou não com eles.

Outro ponto muito positivo do filme são os sons: não propriamente a mixagem ou a banda sonora, mas sim os sons de ambiente que ajudam a estabelecer uma tensão emocional crescente ao longo do filme. Um exemplo que posso explicar é nas cenas nas quais supostamente haveria silêncio e tranquilidade no quarto onde estão mãe e filha, temos o barulho da sonda que impede o descanso e nos deixa alerta, tal como a protagonista. Além dos sons, achei muito creativo que até ao final do filme não vemos o rosto da filha, estando a câmara sempre colada a Linda e às suas reações, ações e emoções; uma técnica que nunca tinha visto antes e que com o passar do tempo se torna não só uma técnica creativamente expressiva como também uma peça para o tema do filme, tal como o título enigmático.

Nunca tinha saído da sala de cinema sem saber se achava o que tinha acabado de ver bom ou mau, fazendo das palavras do meu amigo minhas, sem saber se daria uma estrela e meia ou quatro, de cinco. Mas, a verdade é que este filme ficou comigo e ter podido repensá-lo e recontextualizá-lo tantas vezes e entendê-lo foi muito gratificante para mim. Não sei se quero que haja mais filmes assim, mas foi de facto uma experiência única que adorei. É um ótimo filme para se ver a segunda vez já sabendo o que está a acontecer mas, infelizmente, não sei se quero.

CONCLUSÃO
Não vai ser divertido. Mas vai ser único e uma boa narrativa; conseguiste entender do que se trata?
8
if-i-had-legs-id-kick-you-analiseUm filme simbólico mas não propriamente subtil, que faz de peculiaridades e surrealismos algo simbólico onde esconde a sua essência, no entanto isso não perdoa as atuações sofríveis de toda a gente que não sejam A$AP Rocky e Rose Byrne. Um caso de estudo sobre stress, ansiedade e um tema secreto que talvez descubras no fim do filme mas que uniu todas as imagens e todos os temas apresentados. Queres experimentar?