Do ponto de vista do consumidor, a Valve,nos dias que correm, não está com boa cara. Longe vão os dias que as suas equipas talentosas lançavam videojogos que realmente brilhavam, e onde era impensável comparar a Steam com uma loja digital nos telemóveis. Agora, suporte de Linux à parte, a companhia está mais preocupada em contornar leis belgas para continuar a vender lootboxes, enquanto pede “desculpa” como uma criança amuada que não conhece o significado de arrependimento.

Mas esta não é a altura indicada para falarmos disso, pois estamos na Odisseia De Um Bit, onde revisitamos os jogos do passado. Hoje o tema está centrado no jogo que arrancou a Valve como uma produtora de videojogos: Half-Life. Como tudo na vida, esta ideia teve início no que é a origem de tudo… Doom!

Reza a lenda que Gabe Newell, trabalhador na Microsoft durante o lançamento deste monstro marciano, deparou-se com um facto bombástico: Doom (que corria em DOS) estava instalado em mais computadores do que os sistemas operativos Windows. Acreditando que o futuro do entretenimento estava nos videojogos, ele saiu da Microsoft e fundou a Valve em 1996. O primeiro projecto comercial foi, obviamente, Half-Life.

Antes deste videojogo chegar às nossas casas, o género estava extremamente limitado à estrutura de Doom e as suas convenções. Os jogos estavam divididos por níveis, era norma andarmos à batatada com monstros com comportamentos fixos, e os protagonistas normalmente eram tipos durões que sentiam a falta de pastilhas elásticas na vida deles. Por causa disso, o género era denominado de Doom-clones. Tal e qual outros géneros da altura, como os jogos de plataformas, estes clones ainda estavam demasiado presos a metodologias dos jogos de arcada… Um pouco culpa de Wolfenstein 3D que popularizou a maior parte destes conceitos.

Half-Life desprendeu-se destas raízes, matando o clone e finalmente abrindo a porta para aquilo que hoje chamamos de FPS. O videojogo começa de forma surpreendente calma. Em vez de jogarmos no papel de um tipo machão com altos níveis de testosterona, jogamos com um cientista. E ele começa logo à porrada com monstros com tripas a voar para todo o lado? Não ele apenas está de caminho para ir ao trabalho num teleférico…

Eu sei, eu sei parece estranho, mas há uma razão de ser para tudo isto. Este segmento não só serviu para introduzir o jogador o local onde se passa o jogo, os laboratórios de Black Mesa, como demonstrar as capacidades do motor de jogo da Valve.

Deves imaginar como corre o resto. Depois de uma experiência científica correr para o torto, Black Mesa é invadida por forças alienígenas… Eu sei, mais do mesmo, mas aguenta aí os cavalos. O percurso do jogo não se limita a textos de manuais, vídeos pixelizados onde não se percebe o que raio está a acontecer, ou a transições de níveis. A história é apresentada toda com iterações entre Gordon e NPCs sem que seja tirado o controlo sobre o jogador, e não existindo “níveis” no sentido mais tradicional, fez-se com que a experiência fosse mais imersa que o normal.

Depois de umas quantas sequenciais a lutar contra extraterrestres, o recinto é infiltrado por uma força militar governamental chamada HCEU, com ordens para eliminar qualquer prova dos eventos infelizes que ocorreram em Black Mesa, incluindo os pobres cientistas. Oops! É nesta força militar que vemos com mais clareza o génio de Half-Life. Os inimigos não se limitam a atacar Gordon mal o descobrem, como os demónios do Doom e família. HCEU tenta cercar Gordon e utilizar outras tácticas militares, por exemplo. Mas até mesmo os alienígenas demonstram comportamentos semelhantes, como uma mentalidade de matilha ou até mesmo de fugir em pânico quando as coisas correm mal. Nada de especial a comparar com os videojogos modernos, mas as coisas têm de começar nalgum lado.

Até o misterioso homem governamental, que nunca interfere no teu percurso, mas que aparece sempre nos lugares mais estranhos, serviu para captar a atenção do pessoal. A sua verdadeira identidade ainda se mantém desconhecida nos dias de hoje, infelizmente…

Mas olhando de um ponto de vista mais geral, não deve haver nada mais importante do que os mods que Half-Life ajudou a trazer à vida. Modificações que chamaram a atenção da Valve e fez com que esta companhia adquirisse estas equipas sobre a sua alçada, tendência que nos trouxe os melhores videojogos alguma vez vistos no PC. Half-Life em particular deu-nos a primeira versão comercial do Team Fortress que começou como mod de Quake, Day of Defeat e aquele que é seguramente o FPS competitivo mais jogado de sempre, Counter Strike.

Poucos são os videojogos que podemos dizer que viraram a indústria do avesso e comandaram as coisas por ai adiante, Half-Life é seguramente um dos incluídos nesta lista. Talvez seja altura de o revisitar? Só não esperes é um final da série decente …