Este artigo foi escrito originalmente por mim em 2014, há quase 5 anos atrás, pelo que venho novamente expor as minhas ideias sobre como optimizar a forma como usas o teu cérebro durante um jogo de luta. Estás preparado? Então vamos lá!

Reclama menos

Reclamar de coisas simples do dia-a-dia é mau. Reclamar daquele engarrafamento na volta para casa, quando não tens qualquer compromisso além de descansar, e quando poderias estar a aproveitar o tempo para pensar em algo importante, como ideias para o trabalho, ou tácticas de jogos de luta;

Aquela pessoa que estava com pressa no metro e chocou contra ti, algo que facilmente poderia ter sido esquecido no momento, mas que acabas por não o fazer, acumulando-se com as outras coisas que aconteceram ao longo do dia, e deixando-te potencialmente de mau humor;

Aquele almoço em que estás a comer mesmo sem teres muita fome, mas que levou 5 minutos a mais para ficar pronto porque a fila do dia estava enorme (na qual podias novamente usar o teu tempo para reflectir sobre algo importante), tudo isso treina o teu cérebro para reclamar sozinho das coisas mais simples, e até daquelas que não te afectam.

Ok, mas porque isto é prejudicial? Porque o nosso cérebro tem uma quantidade de “energia mental” finita, e nós só podemos concentrar-nos em X quantidade de coisas de cada vez. Se tu reclamas demais, quando existir um momento crítico em que precises de usar todo o teu raciocínio / ”energia mental”, parte dela já estará focada em reclamar.

Durante uma partida de um videojogo de luta, tu vais ter uma má performance e vais pensar “porra, que golpe / personagem roubado” e terás dificuldade em manter a calma, pensando “ok, como vou sair disto? Deve haver alguma forma… AH, DESCOBRI!!!”. Ou então, durante um desastre natural, como uma tempestade ou furacão, se bem que por cá isso não acontece com frequência, começas a pensar “porque é que isto tinha de acontecer comigo?” ao invés de estares a pensar numa solução para SOBREVIVERES àquilo. Isto também te faz reclamar mais das distracções (como o som do ambiente) quando queres concentrar-te em algo.

Por isso, reclama menos, existem coisas por que não vale a pena ficar a reclamar, mas sim aceitar que elas aconteceram e seguir em frente.

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2- Consciente vs Subconsciente / Energia mental vs Piloto Automático

Agora, irei explicar melhor o que quis dizer com energia mental ali em cima. Isto é algo que aprendi através de pesquisas sobre tácticas de jogadores japoneses, que um amigo meu fez uma vez, e lendo um texto do criador de I wanna be the guy.

Basicamente, o nosso cérebro tem dois lados: o Consciente e o Subconsciente. O Consciente é o que usamos para prestar atenção às coisas (a nossa energia mental) e para fazer acções racionais, como decidir se dá para atravessar a rua, quando dar um golpe no jogo neutro, etc… O Subconsciente, é o lado do cérebro onde podemos armazenar uma quantidade praticamente infinita de informações e acções, de forma tal que o mesmo acaba por tomar decisões futuras por nós, para não termos de torrar toda a nossa energia mental em tudo que fazemos.Este é o nosso piloto automático.

Quando andas, não estás a prestar atenção à forma do teu andamento. Tu não pensas “vou colocar este pé para a frente, pará-lo, e agora colocar o outro”, não, tu fazes tudo isto automaticamente. O teu consciente só tem que dizer “quero andar” e o teu subconsciente faz o resto, deixando toda a tua energia mental livre para outras coisas, como para prestar atenção ao teu redor e ao caminho que estás a seguir. Talvez seja por isto que o banho é considerado um momento em que as pessoas acabam por ter diversas ideias interessantes, pois nós já tomamos banho tantas vezes que esta já é uma tarefa quase inteiramente automática, deixando livre quase toda a nossa energia mental. Une isto ao facto do banho ser algo relaxante e demorado, e uma pessoa começa a gastar sua energia mental para ter ideias, para cantar, para pensar em como foi o dia, etc…

Com isto, é possível aplicar este conhecimento em jogos de luta também. Quando uma pessoa começa a jogar um  jogo novo, ela não tem tácticas nem conhecimentos sobre o mesmo guardados na memória. Pelo que é natural que ela se confunda toda, e que aos poucos vá tomando conhecimento do que deve e não deve fazer, ao mesmo ritmo que vai melhorando no jogo. Além disso, conhecimentos adquiridos em outros jogos podem ser levados adiante, como por exemplo, saber fazer footsies (em que exploramos uma distância neutra do oponente, e temos especial foco no jogo de chão), ou como enfrentar qualquer personagem de Street Fighter em qualquer jogo da Capcom. Se aprenderes a jogar e a derrubar o Ryu em um Street Fighter, ou em qualquer outro jogo onde ele esteja presente no roster, desde que não seja na série VS, vais saber naturalmente os golpes principais dele, e vais tentar usar um chute médio agachado em hadouken para footsies, não importando se já tinhas jogado aquele jogo na vida ou não. O que precisas de saber, é quais desses conhecimentos devem ficar no piloto automático, e em quais deves usar a tua energia mental. Se tentares pensar em tudo ao mesmo tempo numa luta, a tua mente vai praticamente implodir, pelo que os jogadores profissionais japoneses procuram optimizar esse consumo mental.

Pega por exemplo num Street Fighter qualquer. Geralmente vais querer que toda a execução seja automática, ou seja, os combos e os inputs, pois a partir dai podes apenas dizer “quero fazer um hadouken” ou “acertei esse hit confirm” e o teu piloto automático fará tudo por ti, pelo que já poderás estar a pensar na próxima jogada que irás fazer. Para isso, geralmente as pessoas treinam tais inputs durante horas e mais horas no training mode, até elas realmente não terem de pensar mais neles e ser tudo realmente automático. Com isso feito, precisas de saber o que mais vais querer que seja automático, e no que vais querer usar tua energia mental e te concentrares. Numa partida de Street Fighter, geralmente vais querer gastar a tua energia mental para pensar no jogo neutro de chão (footsies), no jogo aéreo (se o inimigo saltar, saber quando dar o anti aéreo), e no jogo de punição. E este foco vai constantemente mudar conforme vais lutando.

Por exemplo, geralmente não queres prestar tanta atenção ao ar, então podes acabar por deixar 70% da tua energia focada nos footsies, e 20% no ar (com 10% para punições). Se enfrentares um jogador que pula demais, então podes conseguir mais dano se te concentrares no ar, pelo que podes deixar 50% da tua energia focada aí e 40% no chão. É importante também ter um bom piloto automático, para os casos em que percebes que há uma táctica que te levará à vitória mas que vai requerer MUITA concentração, porque desta forma podes parar de pensar durante a luta e deixar o teu subconsciente cuidar dela por ti, e é só ficares prestando atenção na tal táctica, e usá-la no momento que for possível.

Houve uma época que estive a estudar muito as punições e os whiff punishes, e eu consegui manter no meu subconsciente um algoritmo que funcionava sozinho de whiff punish, que detectava quando alguém “whiffava” (falhava no ataque), o que foi “whiffado”, a distância e se dava para punir o oponente. Então bastava apenas eu dizer “Blue, pode punir” e eu ia lá e punia o oponente. Nesta época eu inclui pulos em Street Fighter como whiffs também, e houve até mesmo uma jogada em que fui capaz de punir TODOS os pulos com o Ultra 2 do Ryu e o meu amigo Vinicius HP até brincou: “MANO BLUE LINK VELHO, QUEM É DAIGO UMEHARA(um jogador profissional japonês, especializado em jogos de luta 2D como Street Fighters), e eu basicamente estava a conseguir isto porque não pensava, simplesmente detectava o whiff no piloto automático e punia.

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3- Encerramento

Bom, e é isso, esse é um assunto extremamente importante sobre o qual diversos jogadores profissionais pensam e tentam aprimorar, mas que muitas vezes passa despercebido por jogadores novatos ou iniciantes.

Espero que este artigo te tenha ajudado a compreender melhor este lado dos jogos de luta (falando nisto, este é um género onde a psicologia tem um peso enorme). Já agora, agradeço ao meu amigo Coil por toda esta informação japonesa que ele pesquisou e me explicou.

Vocês podem acompanhar o trabalho de tradução de textos de jogos de luta do Coil no Blog dele ( https://coilfgs.wordpress.com ) e o trabalho de organização de torneios semanais de Street Fighter V e Mortal Kombat do Vinícius HP na página da FGC-SP ( https://www.facebook.com/FGCSP/ ).