Vou começar este artigo com uma pergunta que, ironicamente, não é nada fácil: “O que define dificuldade num jogo?”

Ao reflectir sobre a questão, deverão constatar que existem diversas respostas possíveis:

  • um desafio ao nosso raciocínio, reflexos ou domínio das mecânicas do jogo
  • uma prova de esforço e dedicação
  • uma jornada dolorosa que nos faz evoluir progressivamente

Desafio, dedicação, e evolução. Para mim, estas são as três características principais de um jogo difícil, de uma obra que pretende não só entreter, mas também ensinar uma lição ao jogador, e recompensá-lo intrinsecamente pelo seu desempenho exemplar — tal como a escola, mas mais divertido!

Sekiro é uma sequência de desafios que te tornam mais forte... ou pelo menos é o que levam a entender!
“The game keeps getting harder, but you keep getting better alongside it” – Erik Kain, Forbes
Imagem via vgr.com

Contudo, existem jogos que procuram simplesmente humilhar-te, seja antecipando o jogador ou colocando-o em situações que exigem memorização ou, pura e simplesmente, são aleatórias. São jogos que troçam de ti, pelo que decidi chamá-los de “jogos troll“!

Um jogo… troll?

Para começar, gostaria de esclarecer que não conheço nenhum género de jogo chamado “troll”. O que se segue é uma opinião pessoal!

Quando me refiro a um “jogo troll, falo de um jogo difícil… mas não pelos motivos “certos”! Seja por batotas, acontecimentos aleatórios, ou esquemas que exigem memorização, o “jogo troll” tenta sempre anular as acção do jogador do modo mais irritante possível. O “jogo troll” não procura desenvolver o jogador, mas sim troçar dele.

Mario desce um túnel e cai logo em espinhos. Como passarias isto sem memorizar?
Mario desce um túnel e cai logo em espinhos. Como passarias isto sem memorizar? E um aparte: cliquem na imagem para ver a animação de Level Up. É demais!

 

No entanto, há “jogos troll” que, ironicamente, nos fascinam pela sua criatividade maligna e humor negro! E eu pretendo,com o artigo de hoje, apresentar três videojogos indie que te vão fazer sofrer de Síndrome de Estocolmo!

Nota: os dois primeiros jogos são gratuitos

I Wanna be the Guy

O que temos aqui é… (mais) uma homenagem a clássicos como Super Mario Bros., Mega Man e Street Fighter 2… perdão, deixem-me reformular! O que temos aqui é… um jogo de plataformas mais difícil que clássicos como Super Mario Bros., Mega Man e Street Fighter 2… combinados!

Nível aparentemente impossível de "I Wanna Be The Guy"
Os níveis são os protagonistas neste jogo… e tu és insignificante!

Em I Wanna be the Guy, os comandos simples contrastam com as inúmeras armadilhas espalhadas pelos níveis, que antecipam qualquer jogada “esperada”.

E a sequela (Gaiden) não fica atrás! Aliás, confesso que pretendia falar dela, mas nem consegui entrar no primeiro nível…

Links e downloads

Syobon Action (Cat Mario)

Mas que original, mais uma réplica do Super Mario. Está bem, vamos lá então despachar… isto?

As diversas armadilhas de Syobon Action
O que não te mata… mata-te de uma maneira diferente!

Em termos de conceito e armadilhas, Syobon Action é semelhante a I Wanna Be The Guy. Contudo, o jogo do gato recorre à familiaridade dos jogadores com Super Mario Bros. para… “brincar” com eles!

Aliás, chegar ao final dos níveis não devia ser o objectivo deste jogo. Portanto, seguem-se algumas sugestões minhas para não ficares frustrado:

  • tentar passar o jogo, mas registando todas as maneiras de morrer que descobrirem!
  • metam alguém a jogar por vocês, enquanto descrevem o jogo como “um Super Mario tal e qual, mas com um gato”!
  • se passarem o primeiro nível, registem o número de vidas com que ficaram. Eu penso que tinha -100 quando o consegui — sim, “MENOS cem” vidas!

Links e downloads

Lisa – um jogo que dói

Protagonista de Lisa The Painful
“A life ruining gaming experience” – descrição (nada hiperbólica) via Steam

 

Na minha opinião, não há melhor exemplo de “jogo troll” que Lisa (the Painful). Disfarçado de RPG com plataformas, e com estilo visual antigo e inocente, este jogo leva-nos a desafios e decisões difíceis que nunca compensam (nem a longo prazo). Além disso, podem ainda ocorrer eventos aleatórios que prejudicam o jogador, mesmo em sítios “seguros”. Em alguns casos, até me questionei se fui alvo de uma partida ou de um bug! E cheguei a referir que, no maior grau de dificuldade, só podemos gravar uma vez em cada sítio?

 

Recomendar este jogo não é fácil: além de todas as surpresas, Lisa é puro terror psicológico temperado com humor negro, com uma história perturbadora protagonizada por abusadores, drogados e psicopatas! Todavia, é tudo isto que faz de Lisa uma experiência original, marcante e inesquecível. E é por isso que estou muito grato por tê-lo concluído – mas duvido que conseguisse repetir tal feito!

Em suma, Lisa é incrível, mas pode MUITO FACILMENTE ferir a sensibilidade de alguns jogadores!

Links e downloads

Conclusão (?) – A arte do “troll”

 

À semelhança de uma partida que se prega a um amigo, os três jogos de hoje destacam-se pela surpresa e humor que proporcionam. E com a sua ousadia e criatividade, não serão os “jogos troll” autênticas paródias aos videojogos em geral?

Nunca parem de surpreender, meus caros indie!

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