O mundo dos videojogos não tende a perdoar. Isto significa que, quando um jogo não corresponde às vendas esperadas e/ou possui média/notas/recepção crítica elevadas, recebe um destino rápido e eficaz, e a continuidade da saga fica por terra. Seja por respeito, por confiança ou por pura loucura, a Square Enix não se regeu por este princípio.

A 22 de Abril de 2010 vimos NieR Replicant/Gestalt (nome ocidental) chegar às prateleiras, e, embora tenha demorado, chegou ao coração dos fãs, tornando-se num jogo de culto. Este não foi um sucesso comercial, tanto que, se alguém quiser comprar uma cópia física do mesmo (PS3 ou X360), ver-se-á numa embrulhada, pois cada cópia vale cerca de 60€.

Ainda na altura apelidados Cavia (estúdio responsável pela criação da famosa série Drakengard, entre outras), com Yoko Taro ao leme, tomaram uma decisão muito à frente do seu tempo: introduzir várias vertentes na jogabilidade de um JRPG, entre estas platforming ou uma ocasional perspectiva isométrica, e a verdade é que o mundo dos videojogos ainda não estava preparado para tanto conteúdo num só jogo.

Não ajudou terem lançado em 2010, visto que nesse ano saíram títulos de alto gabarito, como Red Dead Redemption, Mass Effect 2, Super Mario Galaxy 2, AC: Brotherhood, Fallout: New Vegas, entre muitos outros. A junção de várias vertentes mecânicas aliada à ofuscação num mercado “saturado” de pérolas culminaram numa recepção mediana, com o jogo a ter uma média de cerca de 8.6 atribuída pelos fãs, com os media a somarem apenas 68, entre 58 análises diferentes.

Quando digo que o mundo não estava preparado, não falo apenas das várias vertentes de jogabilidade introduzidas, falo também da “sexualização” de Kainé, ou o facto de terem alterado a personagem principal para o público ocidental, sendo que na altura já vinha cansando o famoso macho viril que limpa tudo.

A nossa sorte é que a Square Enix continuou a acreditar em Yoko Taro, e após lhe terem dado uma segunda oportunidade, cimentou o seu nome na história com NieR: Automata, considerado por muitos um dos melhores videojogos de todos os tempos. Com esta medalha de ouro no bolso, decidiu pegar no seu título de culto e apresentá-lo ao mundo tal como sempre imaginou, sem quaisquer restrições, e ainda bem que o fez, caso contrário não vos iria falar da pérola que é NieR Replicant ver.1.22474487139… (doravante, apenas NieR).

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Para quem nunca jogou NieR, este passa-se num cenário apocalíptico pós-industrial. Com um nome personalizável, assumimos o papel do irmão de Yonnah, uma jovem que se encontra assombrada com uma doença terminal. Aproveitando a era pacífica que atravessam, este decide procurar uma cura para a irmã, fazendo vários amigos pelo caminho.

Felizmente, alteraram o protagonista para o de NieR Replicant (2010), pois o de Gestalt era todo o estereótipo e mais algum do tradicional protagonista masculino, não demonstrando qualquer emoção. Com muita sorte e convicção de Yoko Taro, NieR Replicant prevaleceu e recebemos um protagonista que se abre como um livro, demonstrando toda e qualquer emoção, numa viagem altamente atribulada de emoções, tal como qualquer humano no seu lugar o faria.

O combate foi bastante melhorado, não se focando tanto na complexidade, embora também tenha sido introduzida uma certa camada, vimos uma melhoria visual, com efeitos e partículas que acrescentam eye-candy ao jogo. Temos ao nosso dispor vários tipos de armas, emparelhadas com magia, podendo estas ser melhoradas tanto através de um ferreiro, como pela utilização de palavras, que vamos aprendendo durante o combate. Estas palavras servem basicamente como buffs, seja para ganharmos experiência ou recuperarmos magia mais rápido.

Podia ter havido um retoque nas missões secundárias, sendo que isto é algo de que o jogo anterior já sofria, a chamada doença dos MMOs. Falo do facto de todas as missões secundárias serem uma fetch quest, o que é engraçado ao início, pois permite-nos ir explorando o mundo e conhecendo toda a gente, mas estamos a falar de 71 “vai buscar”.

Temos cinco finais diferentes (não se preocupem, não terão de fazer o jogo todo cinco vezes, simplesmente quando o acabam, têm a opção de retomar o mesmo perto do fim, de forma a verem todos os finais em pouco mais 3 horas entre si). Este tipo de introdução de história sempre me deixou de pé atrás com Yoko Taro.

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Percebe-se que queira manter o fã colado ao ecrã para saber tudo, mas obrigar o mesmo a repetir as mesmas sequências, embora ligeiramente diferentes de cada vez, acaba por se tornar mais uma tarefa do que seguir o rumo natural da história de um videojogo.

Com a ajuda do hardware mais recente recebemos uma carrada de adições visuais, entre partículas, a remodelação do mundo, tendo mesmo alterado certos detalhes nas personagens (não alterando a sua essência), o que transmite uma sensação de jogo actual, embora não o seja de todo, este NieR é, na sua essência, NieR Replicant (2010), simplesmente vem acompanhado com o flair da actualidade.

É sempre um gosto termos um mundo rico em visuais a acompanhar-nos na nossa jornada, e a Toylogic certificou-se que assim o teríamos, respeitando os diversos ambientes, mas acrescentando o seu toque da forma mais respeitosa possível. Sem dúvida uma bela colaboração entre um estúdio claramente empenhado, e a criatividade de Yoko.

Deixei para o fim a vertente que merece maior destaque: o áudio.

O áudio deste jogo é simplesmente fenomenal, desde as prestações à banda sonora. Não só temos expressões faciais melhoradas, que nos permitem identificar o estado de espírito das personagens, como estas tiveram a oportunidade de gravar o diálogo novamente.

Já em 2010 NieR foi aclamado pelas prestações dos actores, no entanto, nesta iteração cumpriram e excederam as obrigações. Aliada a estas prestações, temos uma banda sonora altamente melancólica, com um tema adequado a cada área do jogo, contribuindo para o investimento emocional que deixamos no belo mundo de NieR Replicant ver.1.22474487139…

NieR Replicant ver.1.22474487139… já está disponível para Playstation 4, X-Box One e na Steam para PC.