Como sou uma grande fã de jogos de terror antigos, decidi dedicar este meu primeiro artigo a um dos títulos mais controversos e arrepiantes exclusivos da Playstation 2, Rule of Rose. Muitas pessoas não conhecem este jogo e eu sinceramente não as culpo, mas espero que as minhas palavras possam atribuir um lugar de honra a este título que acabou por ser esquecido com o tempo e desvalorizado no meio de tantos videojogos de terror.

Rule of Rose sempre foi, do meu ponto de vista pessoal, um dos jogos de terror que mais aprecio e, tal como o nome propõe, este é sem dúvida uma boa representação de uma rosa. Tal como esta flor, para quem olha no exterior, os gráficos são extremamente cativantes e super realistas, mas quando alguém tenta jogar e perceber o seu interior, pode deparar-se com um ciclo infinito de espinhos sombrios. E este era exatamente o objetivo principal da Punchline, quando tentou criar o seu primeiro título de survival horror. A pequena empresa japonesa admite que pretendia criar um jogo moderno que se focasse em um novo tipo de terror psicológico, cuja narrativa se assemelha-se a uma versão distorcida das histórias dos Irmãos Grimm e a jogabilidade inspirada a partir dos grandes clássicos de Silent Hill.

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Em 2006, o título foi lançado no Japão pela Sony Computer Entertainment e foi bem recebido pelo público. Mas quando a Atlus USA estava prestes a lançá-lo na América do Norte, e a 505 Games na Europa, o jogo rapidamente começou a gerar grandes polémicas políticas que, baseadas em rumores, acusavam Rule of Rose de ter conteúdo demasiado implícito e obsceno, abordando temas que variavam entre extrema violência infantil, a elementos demasiado sexualizados. Contudo, apesar destas denúncias serem comprovadas falsas ou demasiado exageradas para o seu contexto, a venda e distribuição do jogo foi proibida em vários países. Devido a isto, a Punchline eventualmente desapareceu do radar dos media até aos dias de hoje, tendo só deixado, como seus testemunhos, este e mais outro jogo que saiu em 2002 chamado Chulip.

Situando-se em 1930, Rule of Rose segue a história de Jennifer, uma rapariga inglesa de 19 anos, que vê-se obrigada a recordar memórias traumáticas da sua infância, enquanto vivia num orfanato “governado” por crianças, que vieram a estabelecer um sistema hierárquico entre si. Jennifer, ao ocupar o lugar mais baixo da hierarquia, era submetida a cumprir várias tarefas para sobreviver às torturas das mesmas. No entanto, Brown, um cão fiel que Jennifer salvara no início, acompanha-a e ajuda-a a ultrapassar estes momentos difíceis. Lentamente, a protagonista também vai conseguindo recuperar outras lembranças que a direccionam a chegar à conclusão perturbadora da sua história.

Rule of Rose

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O jogo têm no total dois finais diferentes, abordando como temática principal a natureza das crianças; como estas podem ser mal entendidas perante as visões dos adultos, e o que pode acontecer se estas assumirem um papel de poder perante os mesmos. Isto é um tema que vai-se tornando muito evidente ao longo do jogo, pois apesar de Jennifer já ter uma idade avançada, ela continua a deixar-se submeter aos maus tratos das crianças sem mostrar qualquer forma de riposta. Outro tema ligeiramente referido, é a forma como as pessoas deixam-se ser facilmente manipuladas por aqueles que estão acima do poder.

Assim que o jogo foi lançado, também recebeu críticas que variavam muito entre o positivo e o negativo. As análises davam mais valor à história e às personagens de Rule of Rose, referindo que o jogo, apesar de ser visualmente deslumbrante e bastante assustador, era demasiado lento e antiquado. Na minha opinião, a história acaba por ser, sem dúvida, o elemento principal do jogo, não possuindo nenhum tipo de clichés, e por vezes torna-se numa espécie de puzzle inacabado, repleto de mistérios ainda por resolver.

Rule of Rose

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À medida que jogamos o jogo, a ansia para descobrirmos tudo o que aconteceu com Jennifer, aumenta drasticamente e torna-se algo quase obsessivo. Tudo acaba por representar algo e nós temos que interpretar esses significados para decifrar o passado da personagem principal. A jogabilidade, em vez de “antiquada”, diria que é desafiante e oferece-nos algo de único. Rule of Rose contêm uma atmosfera horripilante que assusta-nos, não com os típicos jumpscares que só vemos hoje em dia, mas sim com a sensação de um suspense inquieto combinado com um pouco de claustrofobia sufocante. As músicas dos capítulos são desconcertantes e, na minha opinião, absolutamente brilhantes, despertando a nossa imaginação em demasia para aquilo que poderá vir a acontecer.

No meio deste universo distorcido, a única fonte de apoio moral que Jennifer sempre têm é Brown, e a maneira como estes trabalham em equipa para sobreviver a cada fase do caos é bastante comovente. O único aspeto do jogo que às vezes pode tornar-se, de facto, um pouco chato, é a lentidão da protagonista quando realiza alguma ação, seja esta normal ou em combate, é óbvio que os inimigos e os bosses nunca perdoam este aspeto… e enquanto a Jennifer está a tentar matá-los em “slow motion”, estes já lhe conseguiram tirar quase metade da vida com os seus golpes sobre-humanos.

No final, eu admiro muito a Punchline por ter conseguido criar um jogo de terror completamente fresco, sem recorrer aos típicos “zombies” e “fantasmas” para obter logo de imediato uma base para a sua temática. Esta decidiu antes utilizar ideias inovadoras que nunca foram abordadas e não teve medo de arriscar com as mesmas.

Rule of Rose

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Para quem quiser arranjar uma cópia do jogo original, hoje em dia isto pode se tornar um pouco mais complicado… pois devido à sua polémica e com as reviews amenas, muito poucas restaram e conseguiram ser vendidas. Uma cópia original pode variar dos 200 aos 400 euros (ou mais) e às vezes algumas delas só vêm com os folhetos do jogo, se for este o caso, “só” custará por volta de 80 euros. Rule of Rose também não se encontra disponível na Playstation Store e, devido à sua má reputação, é muito pouco provável que venha a receber um remake. A melhor solução para quem tiver interesse em jogar este grande clássico de terror é baixar uma versão do emulador.

Eu sempre achei que Rule of Rose foi um grande alvo de injustiça e preconceito, e espero que com este artigo muitas pessoas possam dar-lhe uma nova oportunidade (algo que este jogo nunca teve no passado). No final, é muito pouco provável que os políticos, responsáveis por distorcer a imagem de Rule of Rose, o tenham jogado na sua totalidade e por isso limitaram-se a estigmatizá-lo com fundamentos falsos para conduzir ao seu cancelamento. Tenho noção que já não é a primeira vez que um bom videojogo quase ficou apagado do mapa por ser demasiado “diferente” para os olhos da nossa sociedade. A verdade é que Rule of Rose envelheceu graciosamente e, com o seu preço a aumentar de forma drástica ao longo dos anos, acabou por tornar-se quase num mito para aqueles que gostam de coleccionar videojogos com verdadeira qualidade.

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