Este conto passa-se em Terca Lumireis, um planeta muito parecido ao nosso, mas presentemente vivendo num clima de opressão constante. O mundo vive sem um imperador ou uma lei máxima, as únicas forças que ditam as regras são a ordem imperial e as guildas, muitas destas envoltas em conspirações políticas. No meio disto tudo temos os seus habitantes, governados pela manipulação e pelo medo, onde são-lhes prometidas melhores oportunidades de vida, e no final do dia, nada lhes é entregue e muitos destes perdem a vida.

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Felizmente nem todos acreditam em tais ilusões, e é aqui conhecemos o herói desta história. Yuri Lowell, é um ex-cavaleiro da ordem imperial, que abandonou o seu cargo quando se apercebeu de que era impossível mudar um sistema por dentro. Assim, passou a actuar como um vigilante, um mercenário a troca de nada, ajudando tudo e todos das classes baixas da cidade imperial de Zaphias, muitas vezes até colocando a sua liberdade e vida em risco. Muitos destes conflitos entre cidadãos e cavaleiros, são devido ao abuso das Blastia, uma tecnologia com um sem fim de usos! Desde barreiras que protegem cidades de ameaças externas como monstros, a melhoramentos de capacidades em combate, ou até em utensílios públicos como fontes. A classe pobre tem pouquíssimas Blastia, e perder uma, simplesmente dita a morte de todos os seus habitantes.

O que começa sendo apenas uma simples tarefa de recuperar uma Blastia roubada, rapidamente transforma-se numa viagem épica em redor de todo o globo. Mas o Yuri não estará sozinho nesta jornada, pois contará com a ajuda de diversos amigos: Repede, o seu companheiro canino; Estelle, uma princesa inocente com um enorme segredo; Karol, um rapaz covarde que sonha ser um grande guerreiro; Rita, uma feiticeira prodigiosa antissocial; Raven, um homem muito misterioso; Judith, uma Krytian guerreira, (Raça antiga que coexiste com os humanos); e ainda presentes nesta versão definitiva estão, Patty, uma jovem aventureira que procura por um tesouro lendário, e Flynn, um cavaleiro imperial e amigo de infância de Yuri. Certo dia, enquanto Yuri repousava no seu quarto, Ted, um dos miúdos que vive na parte pobre de Zaphias, vem pedir-lhe ajuda, porque a cidade corre o risco de ficar inundada. Os seus habitantes ficaram sem água potável para beber, e perderam as suas famílias e bens, isto porque roubaram a Aque Blastia. Escusado será dizer que os nobres pouco importam-se com tal destino. Então o Yuri voluntaria-se e parte em busca da Blastia roubada.

Tales Of Vesperia

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Este protagonista é uma das causas porque este jogo foi uma lufada de ar fresco neste género. Ao contrário de muitos, a personalidade do Sr. Lowell já está formada de início, e não é aquela de um típico adolescente melodramático e inseguro. O Yuri é um jovem adulto com os seus 21 anos, e detém uma grande mestria com a espada e acima de tudo sabe como o mundo funciona. Em vez de seguir as linhas do nosso tradicional protagonista num JRPG, este não contorna tais caminhos, de facto até tem a ousadia de caminhar neles e tocar em temas pouco próprios e que nunca pensei ver representados num Tales of. O seu lema é, “quem prática o mal será castigado”, portanto Yuri não tem problemas nem ressentimentos em assassinar líderes corruptos e políticos, que só querem mais riqueza e poder, tocando num ponto que considerei muito interessante e polémico: o Vigilantismo. Se este jovem emprega estes meios, não será ele também um vilão? Afinal está a tirar uma vida.

Estes acontecimentos, criam um conflito constante com o seu amigo Flynn, um cavaleiro que ao contrário do nosso personagem, prefere resolver tudo através de leis e políticas, ao passo que o Yuri prefere resolver pequenos problemas individualmente. No final chego à conclusão que não existe preto ou branco, existe sim cinzento. Yuri tem bastante confiança em sim mesmo, mas essa não chega àquele ponto de arrogância ou a tornar-se irritante. É sim um individuo cínico, encaixando na perfeição com a personalidade doce, delicada e ingénua de Estelle, bem como todo o resto do elenco principal. O que é demonstrado através dos já tradicionais Skits, muitos deles hilariantes e memoráveis.

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Um dos focos em Tales of Vesperia é o uso e abuso de uma fonte de poder natural, chamada Aer, e os segredos por detrás desta. Um bem quase essencial usado por todos os habitantes deste planeta, para alimentar as Blastia, que outrora já quase destruíram o mundo, num acontecimento histórico só conhecido pelos Krytians. Agora, anos mais tarde, as forças do império redescobrem o poder das Blastia e planeiam usá-la para os seus fins. Existe aqui uma forte mensagem ambiental, um tema já antes explorado pelas obras do estúdio Ghibli.

Podemos dividir a nossa aventura em três arcos. Recuperação da Blastia roubada, a Conspiração Imperial, e finalmente e a ameaça de Adephagos. Como o jogo fica dividido em três grandes partes, por vezes dava-me a ideia que o guião foi escrito por três guionistas diferentes. Isto, é muito mais notório na versão da XBOX 360, pois nesta edição muitos destes buracos foram tapados e o enredo tornou-se bem mais coerente, devido as novas áreas e escritas melhoradas.

Visualmente Tales of Vesperia é um jogo muito belo. É realmente assombroso pensar que este jogo está connosco à uma década e ainda perdura com esta frescura e nível de detalhe tanto nos seus personagens como nos seus ambientes. Apresenta-nos um cellshading muito suave, ligeiramente nublado e com cores vibrantes (especialmente em ambientes verdejantes) e céus azuis, dando-nos a impressão de que estamos a assistir a uma serie anime. Sim, Tales of series teve e terá sempre o conceito de anime, mas penso que Tales of Vesperia, conseguiu traduzi-lo muito melhor do que Tales of Berseria, a ultima entrega desta franchise, que parece ter uma vertente mais realista e menos fantasiosa. Realmente é uma pena a Namco Bandai Entertainment não continuar a apostar nesta direcção de grafismo. Até mesmo acho estranho, nestes contos mais recentes, quando temos vídeos em anime e depois quando voltamos para o jogo temos um 3D mais carregado e realista… Contudo este conto tornou-se ainda mais belo todo remasterizado em 1080p com os seus constantes 60fps em quaisquer ambientes.

Embora os ambientes possam parecer enormes e vastos, na realidade são muito lineares e isso foi um dos elementos que mais me desapontou neste jogo. Para terem uma ideia, a Capital Imperial de Zaphias é enorme, vemos caminhos e habitantes distantes no horizonte, mas por alguma razão só podemos percorrer um caminho pré-determinado, ou seja, uma linha recta. Ou então em Danhgrest, onde vemos dezenas de casas distantes, algumas até no cimo de montanhas, novamente só podemos explorar o centro da cidade. Reconheço que seja para dar ambiente, mas também tenho aquele sentimento que muitas cidades mais parecem bairros, até mesmo o número de habitantes é muito limitado.

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Tales of Vesperia também tem um condimento muito especial, além de na minha opinião ter o melhor elenco no geral desta franchise, sinto que o vestuário está muito bem conseguido. Em contexto de vestuário, existe um equilíbrio entre individualidade e contexto no mundo. Na minha opinião o vestuário nos outros jogos é mais divertido, o que faz uma coerência menos conseguida. Comparemos estas duas personagens: Judith e Cheria Barnes. Judith sabe que é sensual e por isso usa roupas mais reveladoras, Cheria de Tales of Graces F faz exactamente o mesmo, mas tem uma saia que mais parece um cinto, e no entanto a sua personalidade não se adapta a este tipo de fatos. A forma como uma personagem se veste pode e deve, dar-nos um olhar sobre a personagem, e ajuda-nos a situa-la no seu mundo.

Tales of Vesperia mecanicamente é muito parecido ao seu anterior título em consolas caseiras, Tales of the Abyss. Na verdade, senti por vezes aquele efeito de Remake em alguns elementos. O Sorcerer’s ring tem a mesma função e efeitos que Mieu teve no já referido título, ou seja, um mecanismo para exploração de masmorras, e para prevenir ou ganhar vantagem em batalhas. O sistema de combate também é uma evolução do usado em Tales of the Abyss aqui é apelidado de EFR-LMBS, (Evolved Flex-Range Linear Motion Battle System). Talvez a única marca que demonstra o tempo que Tales of Vesperia tem, seja o seu sistema de combate, que parece já muito limitado face aos actuais. Não é tão versátil e variado, também é mais lento, um pouco rígido e muito exigente, não devendo nada a jogos de combate como Tekken, especialmente se controlarem Judith. A única novidade que encontro neste sistema em relação ao de Tales of the Abyss, é a mecânica Fatal Strike. Se usarmos ataques contínuos, ou se usarmos um ataque com um elemento, o qual é a fraqueza do nosso inimigo, este corre o risco de ficar destabilizado e aparece um círculo com uma cor verde, vermelha ou azul, e se pressionarmos o R2 enquanto esse círculo esta visível, podemos fazer um ataque que acaba completamente com os inimigos normais, sendo que contra bosses tira apenas dano extra.


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Relativamente ao som, temos um efeito muito estranho: Actores como Troy Baker que outrora foi o único Yuri, ficou semi ausente nesta remasterização, e Grant George, foi o escolhido para interpretar o papel do jovem nas novas cenas. O problema é que as cenas anteriores permaneceram com Baker, o que cria um efeito bem estranho quando temos dois actores a interpretar a mesma personagem, ainda para mais, com cenas novas dentro do diálogo antigo. Se escolherem visitar este título, deixo a recomendação de jogarem o jogo com áudio japonês. Quanto ao resto das melodias, estas estão tal e qual como foram deixadas à 10 anos atrás. Bem apropriadas ao tempo, ao espaço das suas áreas, e aos acontecimentos decorridos nas mesmas, quer esses sejam momentos de mistério, humor, ou revelações importantes.

Esta versão definitiva, outrora apenas disponível no oriente, trouxe imensas melhorias além da já mencionada história. Temos todos os diálogos falados, novos desafios na arena de Nordopolica, minijogos, Flynn e Patty jogáveis, e ainda Repede pode ser seleccionado como avatar. Novos skits, fatos, Artes ball em que podemos pode usar até 16 artes em combate, mais níveis de Overlimit, novas Mystic artes mais poderosas e exclusivas para cada personagem, novas sidequests, Bosses e acontecimentos que ligam este jogo à sua prequela em forma do filme animado Tales of Vesperia: The first strike. Como podem ver e por muito simples ou limitado que Tales of Vesperia Definitive Edition, possa parecer, este facelift literalmente reinventa um grande clássico sem perder a sua forma.

Eu penso que esta entrega de Tales foi o último capítulo clássico. A série evoluiu para um tom menos tradicional, e ao revisitar este jogo apercebi-me desse facto. Temos elementos como o cooking system à antiga, com o Wonder Chef, mais fantasia e mais humor. Temos o “regresso” das Magic lens, Colectors e Monster Books, e temos finalmente, também o bom e velho mapa-mundo! Não sei qual a vossa opinião, mas eu, ao invés de percorrer corredores vazios como os de Tales of Graces f ou Tales of Xillia, prefiro voar pelo mapa-mundo abordo de um barco puxado por uma Baleia-Dragão.

Tales Of Vesperia Definitive Edition já está disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e na Steam para PC.

Conclusão da Crítica
Um clássico instantâneo
8.7