Numa altura em que vivemos as consequências de uma pandemia mundial, despertada por um novo vírus, o Covid-19 ou SARS-CoV-2, nem parece coincidência que The Complex acabe de aterrar a pés juntos nas plataformas! De facto, o timing deste lançamento não podia ser mais “perfeito”, dada a temática desta obra… Marketing?

Esta é uma experiência que te coloca no papel de Amy, uma cientista que acaba de desenvolver um novo composto químico com o propósito de trazer algo de benéfico para a humanidade. Mas que, naturalmente, tudo acaba por correr mal com o seu projecto!

O objectivo do novo composto químico era permitir a reconstrução da estrutura óssea e reparar possíveis fracturas no corpo humano. No entanto, o que se verifica é precisamente o contrário. E porquê? Bem, é algo que vais ter de descobrir por ti mesmo, mas acho que já podes prever a palavra-chave aqui presente: lobbies. 

The Complex

O que The Complex mais tem de complexo, na minha opinião, é a sua produção. Isto porque o conceito de obras cinematográficas em que o espectador intervém na direcção do enredo, Full Motion Video, implica malabarismos rigorosos e o dobro do trabalho para manter o esqueleto da mensagem, sem nos desviarmos demasiado do foco.

E com isto quero já salientar que, oficialmente, The Complex promove possuir nove finais alternativos. Contudo, na minha óptica, não podemos realmente contar com um número tão redondo.

The Complex

Passo a explicar: algo que me aborreceu um bocado nesta experiência é o facto de, em situações pontuais e algo específicas, teres em mãos diversas opções num momento, e independentemente da escolha, a consequência ser a mesma sequência de acontecimentos.

Acho que para uma experiência interactiva, neste ponto, The Complex falha por em alguns momentos da sua história ao reaproveitar a mesma footage para todas as escolhas. Pode até haver um truque de edição para alterar num momento ou outro a ordem dos planos, das acções, mas o desfecho é exactamente o mesmo.

E isto verifica-se, também, com os diferentes finais alternativos onde, a bem dizer, foram feitas cinco sequências que, em parte, são reaproveitadas para as restantes escolhas.

The Complex

Fora destes “pontos fixos”, em que na realidade não temos escolha absolutamente nenhuma a tomar, e do reaproveitamento de footage dos finais, The Complex brinda-nos com uma mecânica que nos permite rodar as engrenagens nesta história, como se o jogador fosse uma espécie de dado cuja face vai manipulando ao longo do enredo.

Um dado cujas faces que mostramos definem as relações que estabelecemos com as personagens secundárias. Relações essas que, realmente, têm um impacto crucial em desbloquear sequências-chave para entender a verdadeira história a ser aqui contada, e que só conquistarás detendo a confiança das personagens em questão. 

The Complex

Algo que também me surpreendeu bastante no meio disto tudo, foi a direcção de Paul Raschid e a qualidade fotográfica deste filme interactivo. Com cores expressivas, composições equilibradas, e uma paleta de tons reconfortantes e bem estabelecidos, esta é uma experiência, no mínimo, eye candy para quem gosta de apreciar uma boa fotografia.

Já no contexto do guião, devo dizer que a minha opinião divide-se por duas forças opostas, apesar de estarmos a falar do trabalho de Lynn Renee Maxcy (A Handmaid’s Tale). Em primeiro lugar, o argumento surpreendeu-me por não ser tão previsível quanto pensei que fosse. Em boa verdade, dei por mim já a meio da experiência a fazer deduções em relação às intenções de certas personagens.

Deduções essas que saíram erradas, uma vez que The Complex se desvia um pouco dos clichés para nos entregar algo impecavelmente simples mas muito bem trabalhado. Especialmente no que toca ao desenvolvimento das personagens. 

The Complex

Contudo, e devido à repetição de footage, o guião também não possui grandes diferenças entre as várias escolhas que fazes. Podes mesmo escolher entre duas opções opostas, e as falas das personagens serão as mesmas. Entendo que seja uma táctica para poupar trabalho mas, especialmente no que toca a um guião, pessoalmente acho que poupar nunca é solução.

The Complex também é uma experiência interessante pelas prestações competentes que vemos em cena. Aliás, alguns dos actores presentes até que dispensam apresentações, como por exemplo Kate Dickie (Prometeus, Guerra dos Tronos) que aqui desempenha o papel de roubar completamente os protagonismos na pele de Nathalie Kensington.

Al Weaver (Colette, Doom – Extinção) desempenha aqui o papel de Rees Wakefield que, para mim, é uma das personagens mais genuínas e melhor trabalhadas da produção inteira.

The Complex

Este contracena com Michelle Mylett (Bad Blood, Natal em El Camino) que veste a pele da personagem principal desta experiência interactiva, a Dra. Amy Tennant. Por sermos nós a controlar as suas decisões, a coerência do seu papel fica nas tuas mãos.

Outra prestação sólida foi a de Kim Adis como Clare, que nos deixa um pouco aflitos com a sua condição, e inclusive, em certo caminho, deixa-nos escapar um leve sorriso quando a vemos empunhar as suas cores até ao seu último momento.

The Complex já está disponível para PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch e na Steam para PC e Mac.

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