“Eu posso parar de viajar assim que quiser”, é uma frase proferida por Kino, a protagonista deste anime na conversa inicial com a sua motorrad, Hermes. Proferido com o tom de alguém que sabe que está viciado numa coisa mas que não o admite em voz alta. Bem-vindos a Kino’s Journey, um anime sobre uma viajante que passa por vários países ao longo da sua jornada para, apenas viajar e conhecer o mundo. Ao longo deste anime, seguimos maioritariamente o ponto de vista de Kino, uma jovem mulher que viaja por vários países para, entre outras razões, conhecer e aprender mais sobre o mundo e as pessoas que conhece nas suas viagens juntamente com a sua “motorrad” Hermes.

Conforme dito acima, este anime é maioritariamente episódico, em que cada episódio corresponde a um país, uma viagem, uma situação, um contexto absolutamente novos que Kino e Hermes devem aprender, se adaptar e vivenciar. Escolhendo ficar normalmente não mais do que três dias em cada país, a nossa protagonista consegue experienciar o cerne da cultura e dos problemas escondidos à superfície em cada situação. Um anime mais reflexivo, que nos faz pensar sobre o que é certo em cada cultura e tradição, pondo-nos na perspetiva de uma passageira que só fica três dias em cada destino e sai pronta para uma nova aventura.

Kino é uma rapariga calma, que conforme dito acima gosta de vivenciar e interagir com novas culturas e pessoas, mas isso não quer dizer que não possua um sentido moral ou algo semelhante, e normalmente tenta não interferir muito nos países por onde passa, e simplesmente vivencia as coisas sem julgar, isto se algo não a ameace diretamente. No entanto, é interessante ver quando as coisas vão longe demais e ela se força a interferir mesmo mudando as suas regras próprias, por exemplo o contraste dos episódios um e dois em que numa situação ela esperou para ver como as próprias pessoas lidam com a questão de como o país funciona, e no segundo episódio ficou ativamente mais tempo no país para de fato interferir e mudar alguma coisa pois as suas emoções o diziam.

A história às vezes muda de ponto de vista narrativo, ou seja não acompanhamos sempre Kino e Hermes. Ás vezes acompanhamos Shizu, um príncipe fugitivo, Riku, um cão que fala e Tii, uma criança órfã que ele encontrou num dos destinos por onde passou; e outras vezes acompanhamos a mestre de Kino e o seu aprendiz. É interessante ver como a narrativa e as perspetivas mudam consoante o personagem de ponto de vista. Ao passo que Kino quer aprender e vivenciar cada cultura do mundo gigante e bonito, Shizu quer encontrar um local para parar de viajar e habitar. Sendo que Kino normalmente tem uma perspetiva curiosa sobre as regras do país mas sempre tentando entender e se adaptar na qualidade de viajante, Shizu tem outras preocupações como a relação do povo com imigrantes e este acaba sempre por encontrar lados mais negros dos países onde tenta entrar. Já a mestre de Kino é uma narrativa do passado, normalmente com alguma revolução e serve para mostrar as fundações de Kino ou contrastar o sítio onde estamos com uma narrativa passada.

Sendo um anime episódico, alguns episódios acabam por ser mais impactantes e mais marcantes que outros. O início, por exemplo, é muito forte, com a história de um país onde é permitido por lei matar pessoas, e o segundo episódio com um país que força viajante a ser gladiadores lutando pelo prémio da cidadania e de adicionar uma nova lei à constituição desse país. Já outros episódios como o episódio quatro e o episódio seis foram menos marcantes para mim pelas histórias que foram contando ou pelos momentos mortos de rotina diária dos personagens nesse país, que oferecem uma vibe mais chill e mais tranquila para quem gosta desse tipo de ritmo.

A animação é bastante bonita, na paleta de cores e nota-se que existe carinho por trás do projeto pela parte do estúdio Lerche, que nos deu Danganronpa e Toilet-Bound Hanako-kun. Principalmente as cenas que envolvem foco em tiroteios, têm uma direção para captar a atenção do espectador para a tensão no ecrã. Única coisa estranha foi a questão estilística para a paleta de cores dos olhos e cabelo da protagonista. Há episódios em que são verdes, há episódios em que são azuis, e há um episódio em que são violeta. Não é algo que quebre a imersão ou estrague sequer a identificação da personagem, mas foi estranha esta escolha numa série que não tenta ser bizarra na sua escolha de tons volantes. Mesmo no vídeo de abertura, conseguimos ver as várias cores de cabelo da protagonista, o que ainda chama mais a atenção para esta escolha.

A música de abertura “Here and There“, é uma música melódica e calma e pop-y que evoca sentimentos nostálgicos e de apreciar a beleza à nossa volta, algo como parar e cheirar as flores. A música é sempre atmosférica e acompanha bem os sentimentos as serem transmitidos pelas cenas em causa, sendo elas mais fofinhas, ou mais desesperantes.

O “world building” no sentido de porque é que a tecnologia e as coisas são assim não existe, a série prefere ter um ambiente de misticismo de não sabermos o que vamos encontrar a seguir em cada aventura, então cada país evolui ao seu próprio ritmo sem afetar os demais, são países pequenos e insulares que é possível vivenciar em três dias. Independentemente de um país ser um tanque blindado com lasers capazes de obliterar qualquer coisa, e outro ter um coliseu medieval. Também não sabemos porque as motorrads falam, sendo que não é apenas Hermes a única “motorrad”, nem a única que fala. Sempre foi assim, sentimos que as “motorrads” refletem o espirito de aventura dos donos, mas elas sempre falaram até com estranhos. Simplesmente são seres simbióticos com humanos pois precisam deles para se equilibrar. As questões mais técnicas e esses “porquês” de séries e mundos maiores também não são o objetivo do anime. O objetivo é a história de cada país e a reflexão que ela traz. Como tal vai sempre haver histórias que vão ressoar pessoalmente mais connosco que outras.

Nem todos os episódios foram para mim, alguns estava mesmo fora da vibe que estava a tentar ser transmitida e certas questões de neutralidade são díficeis de não tomar lados, às vezes tomamos lados quando a Kino não toma e vice versa, mas é isso que a torna uma personagem diferente de nós. Ainda assim, não sei se foi também por rotinas diárias em animes de fantasia me aborrecerem pessoalmente, mas quando não estamo no ponto do país ou nalguma conquista ou prova emocional dos protagonistas, acaba por nada se tornar mais interessante. No entanto, esta é a minha opinião e eu noto que eu tenho um limiar mais curto para rotinas diárias em fantasia do que a maioria das pessoas portanto peço que tenham a vossa pois há para qualquer pessoa uma lição ou reflexão a tirar deste anime. Mas dentro do género acho que é o que faz mais com as coisas que não são rotina diária e trabalha melhor os temas de cada episódio na nossa jornada do que outras séries do género portanto fica a recomendação.

Uma coisa que achei fora do comum com o que eu esperaria de um anime de viagem numa grande jornada é o facto dos personagens (pelo menos nos 12 episódios adaptados) serem de arco estático. Ou seja, nenhum dos personagens após a sua apresentação vai mudar a sua maneira de ver ou pensar. Normalmente o foco não é no crescimento dos personagens, mas sim na interação deles com a sociedade que os recebe. Passando a reflexão para o espectador e não mudando a maneira de pensar do personagem depois disso.

O anime é uma adaptação de uma light novel que está em pubicação e existe outra animação de 2003 que conta algumas das mesmas histórias de maneira diferente. Esta análise foi apenas da versão de 2017.

CONCLUSÃO
Vamos viajar. Os traumas são bónus.
8
kinos-journey-the-beautiful-world-2017-analiseUma viagem inesquecível em que cada paragem vemos um país novo e isolado em todo o seu esplendor com conflitos emocionais fortes que reflete parte da nossa sociedade.