Blacksad é uma banda desenhada de capa dura criada por Juan Diaz Canales (escrita) e Juanjo Guarnido (arte). Uma dupla de nuestros hermanos que já tinha vindo a arrecadar alguns prémios Angoulême pelo seu trabalho em Artic-Nation, e que recebeu mais alguns com o seu trabalho em Blacksad, sendo que esta obra valeu a Guarnido o seu primeiro Eisner. Esta banda desenhada conta já com 5 álbuns e é editado em Portugal pelas Edições Asa. Com um ambiente à la filme noir, passado-se nos anos 50 na América, esta obra tem como protagonista John BlackSad, um detective privado felino e esquivo.

Blacksad

Com aguarelas ricas e detalhadas, Juanjo Guarnido pinta um universo que explora bem a metáfora do antropomorfismo, em que por exemplo, temos um inspector da polícia que é representado por um pastor alemão, o presidente dos Estados Unidos da América representado convenientemente por uma águia, ou até mesmo elementos da supremacia da raça branca, representados por raposas brancas, corujas das neves e até fuinhas.

São todas escolhas inteligentes, que criam não só camadas sub entendidas de história, em que se vê de imediato a personalidade da personagem à primeira vista, como também por vezes, funciona muito bem como sátira. O próprio protagonista é reflexo disso, tendo em si características felinas, sendo que não tem medo de meter as garras (armas) de fora quando é preciso.

A acompanhar uma série de personagens bem caracterizadas, temos os cenários. Esses são tão bem detalhados que por vezes parecem quase postais de época, com fundos panorâmicos e dinâmicos, nos transportando para uma Las Vegas ou Nova York dos anos 50. Todo o ambiente, os carros, a maneira das pessoas andarem pelas ruas e até mesmo os edifícios, criam todo um mundo imersivo e bem contextualizado que serve de cenário para os mais variados temas que a obra explora.

A escrita interessante de Juan Diaz Canales, que explora temas sociais da época, como o racismo e a disparidade sócio económica, apresentados em histórias com personagens de época bem contextualizadas. Contudo, apesar de haver personagens marcantes, há algumas personagens femininas que poderiam ter mais agência nas histórias, sendo que acabam por se tornar apenas num interesse romântico, quando claramente, há mais potencial na personalidade dessas personagens do que isso.

 

Apesar disso, os autores conseguem criar um universo vivo e imersivo, onde certas personagens e arcos de história, me deixaram agarrada até à ultima página. Onde sentimos pena por personagens inocentes sofrerem pelas escolhas de outras, onde nos rimos pelas mais pequenas e parvas coisas, onde vemos que o universo de Blacksad nos mostra que podemos coexistir com a dor, e mesmo assim, continuar em frente, até com um sorriso na face.