Durante a minha adolescência Megaman Battle Network foi uma das sagas de Megaman que mais me surpreendeu e agarrou ao meu já velhinho Game Boy Advance. Um jogo que combina o conceito RPG com estratégia de ação em tempo real numa grelha de 6×3 e ainda o conceito de trading card game. Isto dentro de um mundo futurístico de redes informáticas e de assistentes virtuais que nos ajudam com as tarefas do dia-a-dia e a combater o cibercrime. Esta foi uma saga que trouxe algo novo e refrescante a quem procurava algo mais fora da caixa, resultando em 6 jogos principais, entre outros títulos spinoff.

Em pequeno resumo, Lan, um jovem do 5º ano escolar e o seu NetNavi Megaman EXE vivem uma vida intensa quando são envolvidos em batalhas contra organizações de cibercriminosos. Um dos grandes antagonistas é Dr. Willy, que quer dominar todo o ciberespaço. Ao longo da jornada vão surgindo outras entidades perigosas, segredos desvendados, novas amizades e lugares por explorar. Contudo, Lan não está sozinho, os seus amigos não ficam de braços cruzados, sendo que instintivamente se juntam à bronca, tornando-se mais uma força aliada na defesa da Internet.

Esta emocionante jornada, composta por 6 títulos principais, criou sentimentos e memórias que permanecerão eternamente, como os momentos mais preciosos da minha adolescência.

Cerca de 9 anos atrás, na altura da Nintendo Wii U, revisitei alguns dos títulos lançados na Virtual Console, que me despertaram novamente alguns momentos nostálgicos. Porém, senti em certa parte que estava a jogar numa plataforma fixa, sem poder levar para fora de casa. Gostava mesmo de um dia, com um hardware novo e portátil, jogar os jogos de Battle Network onde quisesse, sem ter que recorrer à pirataria ou a algum hardware manhoso.

Foi então que a Capcom decidiu então lançar aquela que supostamente seria a derradeira compilação de uma saga com mais de 20 anos, titulada de Megaman Battle Network Legacy Collection, para 3 plataformas distintas: Nintendo Switch, PlayStation 4 e Steam PC. Infelizmente a Xbox não fez parte dos planos da Capcom.

Agora com os jogos todos num só, e com a liberdade de poder jogar onde, quando e como quiser, graças à Nintendo Switch, não haverá mais barreiras; ou será que há? Bem, para perceberes tudo, convido-te a leres a minha extensa análise que segue depois do trailer!

Uma compilação retro-nostálgica

Megaman Battle Network Legacy Collection é composto por 10 jogos que definiram a saga Megaman Battle Network, conhecida também no japão por Rockman EXE. Esta é dividida em dois Volumes, sendo que o primeiro é constituído pelos 3 primeiros jogos, onde no último temos direito às duas versões White e Blue, e no segundo este vem com a 4ª (Sun/Moon), 5ª (Team Colonel/Team Protoman) e 6ª (Gregar/Falzar) entrada na saga. Cada volume é adquirido em separado através de aquisição digital, ou em conjunto, se comprares a versão física. Contudo, para grande frustração minha, as versões físicas de Megaman Battle Network Legacy Collection apenas estão disponíveis de momento na América e Ásia, ficando a Europa excluída da equação. Devido a isto, para referência, a minha análise baseia-se na versão digital do jogo para a Nintendo Switch.

Uma coisa interessante que reparei logo foi que estas versões são baseadas nas versões originais japonesas, que possuem uma animação diferente quando entramos na rede (jack-in). Outra curiosidade aqui é que, de acordo com uma entrevista feita ao director de Battle Network, Masakazu Eguchi, estes jogos foram completamente rescritos, não se tratando apenas de uma compilação de ROMs importados para a consola. Devido à necessidade de implementação do sistema de trocas e batalha e de alguns extras, os desenvolvedores foram obrigados a soprar o pó do velho código dos jogos e reescrevê-lo de novo, aplicando as mudanças e modernizando-o, mas não ao ponto de este perder a essência nostálgica que até hoje possui. 

Uma dessas melhorias que mais se destacou foi a aplicação de uma fonte de texto com melhor legibilidade. No entanto, propositadamente ou não, achei muito estranho não terem corrigido os erros/gafes que ainda residem nos jogos. Mas mais estranho foi terem mexido no texto de alguns NPCs, nomeadamente os responsáveis pelos time trials, que nos alertam que os nossos recordes de tempo não podem ser registados quando utilizamos o modo Buster MAX. Enfim… Não é por isto que o jogo fica “injogável”, mas se tiveram tanto trabalho em reescrever os jogos, no mínimo reviam e rectificavam os textos.

Falando no Buster MAX, esta ferramenta age como uma espécie de código de batota, que faz com que os disparos de Megaman causem 100x mais dano que o normal. Isto ajuda o jogador a passar alguns inimigos mais fortes ou a fazer algum grinding no jogo, de forma a podermos desfrutar da história sem muitas barreiras. Confesso que tenho utilizado esta ferramenta em alguns casos em particular, em especial quando me sentia aborrecido com tanto vírus inimigo que aparecia repetitivamente. No entanto isto não deixa invencível. Um exemplo perfeito são navis com uma mobilidade e defesa grandes, como por exemplo o QuickMan (aquele maldito!), que podem acabar contigo sem que consigas causar um único dano. Por isso tudo depende também das tuas habilidades de escapar de ataques e a fazeres a tua estratégia adequadamente.

Em adição, de forma a podermos completar os jogos, temos também a possibilidade de descarregar alguns battlechips exclusivos, que só eram possíveis de obter em alguns eventos presenciais. E como se não bastasse, temos também a possibilidade de utilizar as preciosas cartas modificadoras (Patch Cards). Estas cartas têm a capacidade de fazer algumas modificações ao Megaman, como mais HP, mais poder de ataque ou até mesmo acesso a battlechips exclusivos ou cross souls permanentes. Originalmente as cartas só poderiam ser obtidas em formato físico no Japão, sendo ainda necessário o leitor e-Reader para o Game Boy Advance para as ler. Com esta nova ferramenta, temos disponíveis todas as cartas em formato digital, podendo estas ser aplicadas a qualquer momento. Sem dúvida uma das melhores adições a esta colectânea!

Num pequeno a parte, um dos principais problemas que tenho com esta coletânea é com o facto de não termos saves do jogo que sejam partilhados entre outras plataformas (Cross-save). Ou seja, gostaria de jogar este jogo na minha Nintendo Switch em viagem e, quando chegasse a casa, poder também jogar noutra plataforma, como no PC, via Steam. Infelizmente isso não acontece e faz com que tenhas que pensar muito bem onde investir as suas horas de jogo.

Um modo online que fragmenta a comunidade de fãs

Em Megaman Battle Network Legacy Collection, os jogadores podem realizar trocas e batalhas, através da rede local sem fios da Nintendo Switch, ou via online. Contudo, há algo que na minha opinião não tem qualquer desculpa: a falta de crossplay entre as várias plataformas. Não sei que ideia a Capcom tinha na cabeça quando planeou o modo online. Como cada plataforma tem o seu próprio servidor “fechado”, não é possível jogadores com jogadores que tenham o jogo numa plataforma diferente da tua. Ora isto não só divide o público pelas três plataformas diferentes (Switch, PS4 e PC), como também torna extremamente difícil encontrar um oponente para fazer batalhas, sem falar dos filtros de região e das 10 versões diferentes que temos disponíveis, fragmentando ainda mais a comunidade. Nas minhas tentativas de tentar jogar online com alguém, apenas consegui encontrar 1 jogador (na versão Megaman Battle Network 6 Gregar). Foi assim que cheguei à conclusão que jogar online assiduamente só é possível se te juntares a um servidor Discord de fãs ou a grupo de Facebook. Com isto, mais uma vez reitero a importância de escolheres a plataforma que vais jogar, perguntando aos teus amigos ou à tua comunidade qual é a plataforma predominante utilizada por eles/esta.

Se a Capcom ou as comunidades quiserem realizar eventos/torneios do jogo, como vai ser? Qual será a plataforma Standard para o modelo competitivo?

Mais do que um pacote de jogos

Quando acedemos ao menu do jogo, somos cumprimentados pelo Megaman EXE, que age como o nosso Net Navi pessoal. As suas animações e a sua aparência estão no ponto, e o mais engraçado são as interações que este têm connosco. Por exemplo, se tu entrares no jogo à noite, ele fala que já é um pouco tarde e até boceja, se abanares a consola por uns segundos ele vai revelar-se tonto, ou se simplesmente não fizeres nada, ele começa a trabalhar num painel flutuante. São pequenos pormenores que dão esta característica meio realista ao Megaman EXE, desejando espetar-lhe com um modelo Chat GPT e transportá-lo para todo o lado. Ando a sonhar alto eu sei. Infelizmente, no que toca ao áudio da fala de Megaman EXE, apesar de este ter ambas as vozes em inglês e japonês, não é possível trocar a voz sem mudar a linguagem toda do jogo. Uma triste restrição, já que sempre me habituei a ouvir a voz original japonesa do herói azul.

Seguindo com os extras, podemos contar com uma secção de galeria, constituída por várias peças artísticas da saga. Estas vão desde artes originais até à arte conceptual, onde algumas nunca tinha posto os olhos em cima. Contudo, houve algo que ficou a faltar, que para mim é importante: a arte dos battlechips. É irónico que na verdade essa artwork exista, mas só é possível ver quando realizas trocas com outros jogadores. E isto caso tenhas esse battlechip no jogo. Este “problema” poderá ser resolvido facilmente com um update do jogo, mas isso se a Capcom se importar/lembrar de o fazer.

Para dar um desafio à malta, temos também direito a troféus in game, que estão presentes na seção principal. Representados com uma pequena arte ilustrativa, cada um é desbloqueado à medida que completas um objectivo específico, como derrotar um certo Navi ou ganhares uma determinada quantia de Zennys (moeda do jogo). No fundo isto motiva-te a completar os jogos todos, algo que já se verifica com os troféus de jogos da PlayStation, Xbox ou Steam.

No que toca à música, Megaman Battle Network Legacy Collection não mexe nas suas peças musicais, deixando-as como estão, como se fossem umas peças de museu eternamente preservadas. Estas são o combustível que te vai reacender as memórias dos velhos tempos. Mesmo para aqueles que nunca jogaram um jogo de Megaman Battle Network, acredito que não ficarão desapontados. Para desfrutar por completo de toda a obra musical, tens ainda acesso a um leitor de música que te dá acesso a todas as músicas dos jogos.

Para além disto, em cada um dos dois Volumes, somos brindados com mais duas músicas que nos enchem o coração, totalmente reinventadas, que deixam uma ideia de como seria bom termos mais uma entrada moderna na saga(Estas apenas estão disponíveis caso tivesses feito a pré compra do jogo).

Performance

Todos os jogos de Battle Network correm impecavelmente sem qualquer paragem ou quebra de frames. Estes jogos contam com um filtro próprio que tenta suavizar os pixeis numa tentativa pouco sucedida de dar um visual mais “moderno” ao jogo. Pessoalmente não é a melhor nem pior coisa do mundo. Contudo, a Capcom poderia também ter apostado nos filtros de grelha de píxeis para dar a ilusão de que estamos a jogar no antigo hardware portátil.

O jogo também tem a opção de scaling, permitindo jogar com o ecrã reduzido ou maximizado, caso sejas aqueles com pouca fobia a píxeis grandes. Em complemento, para compensar o facto de o jogo ter um aspect ratio de 4:3, temos um wallpaper a preencher o que sobra do ecrã. Estes backgrounds podem ser alterados entre uma pequena lista disponível nas definições do jogo. Porém, por incrível que pareça, não há opção de remover os wallpapers, não dando para colocar o fundo a preto. Isto é algo picuinhas da minha parte mas penso que haja mais pessoas com o mesmo sentimento negativo que eu.

O que gostaria ainda de ver num futuro próximo

Mesmo tendo os 10 jogos principais da saga Megaman Battle Network, senti a falta de 2 jogos em particular que não foram selecionados para esta coletânea. Falo de Megaman Battle Chip Challenge e de Rockman EXE 4.5. O último tratou-se de um lançamento que só ficou disponível no Japão, nunca tendo saído da região. Seria uma boa oportunidade de terem lançado o jogo finalmente traduzido, pois seria a única forma oficial (sem traduções de fã) de jogá-lo.

Existem ainda outros títulos para outras plataformas, como Megaman Network Transmission para a Game Cube, Rockman EXE: Phantom of Network e Rockman EXE: Legend of Network que saíram para os telemóveis do Japão. Seria um enorme gosto estes jogos verem a luz do dia numa plataforma moderna, mas entendo o investimento e o licenciamento que isto envolveria. Fica aqui o meu o desejo para um Volume 3.

Megaman Battle Network Legacy Collection já se encontra disponível para as plataformas Nintendo Switch, PlayStation 4 e Steam PC, via formato digital. Se quiseres a versão física dos jogos, terás que importar de uma loja americana ou japonesa.

CONCLUSÃO
Quase quase completo!
8
Bruno Dores
Um fanático por Nintendo, de nome "Nintendista", que procura mostrar ao mundo o lado mágico da empresa que o acompanhou durante toda a vida.
megaman-battle-network-legacy-collection-analiseMegaman Battle Network Legacy Collection trouxe aos fãs a mais atualizada e finalizada coletânea dos principais jogos da saga Megaman Battle Network. Com a inclusão de extras como a galeria, reprodutor de música e ainda as Patch Cards, este pacote torna-se mais do que um aglomerado de jogos. Apesar do grande problema da ausência de Cross-play entre plataformas, creio que esta é a coleção que todo o fã de Megaman deve ter guardado consigo.