O meu primeiro contacto com Mission: Impossible antecede a sua vida cinematográfica.

Estávamos na primeira metade dos anos 90 e a RTP2 retransmitia ao final da tarde os episódios das séries de 66 e 88 e, lá por casa, era quase ritual assistir-se diariamente às aventuras da equipa da IMF. Como já referi, a vertente televisiva de Mission: Impossible teve duas vidas: a primeira com 171 episódios transmitidos originalmente entre 1966 e 1973 e, posteriormente, teve direito à sequela de 35 episódios entre 1988 e 1990.

Na primeira temporada, a equipa era liderada por Dan Briggs, interpretado por Steven Hill, mas logo a partir da segunda temporada foi Jim Phelps, interpretado por Peter Graves, a figura maior da equipa da IMF. No entanto, também os secundários eram de relevo e actores como Greg Morris, Martin Landau, Leonard Nimoy, Barbara Bain, Peter Lupus e Sam Elliott integraram a equipa da IMF em múltiplos episódios.

As séries tinham um formato puramente episódico que não exigiam que o espectador tivesse conhecimento dos eventos anteriores, já que tinham um enredo que era apresentado, desenvolvido e resolvido no mesmo episódio, mas as histórias eram sempre interessantes e com qualidade e, a verdade, é que ainda fico colado ao ecrã sempre que apanho a série em reposição na RTP Memória.

Depois, em 1996, Brian De Palma pegou na série e trouxe-a para o grande ecrã com um filme que até nem tem envelhecido mal, mas que, à data, não só teve reviews mistas como acabou por enfurecer grande parte dos fãs da série pelo tratamento que dava a Jim Phelps, interpretado no filme por Jon Voight depois de Peter Graves ter recusado o papel precisamente por discordar do rumo que pretendiam dar ao personagem.

Mas depois de várias décadas do Jim Phelps de Peter Graves a ser a figura maior da IMF na televisão, este filme marcava o lançamento do Ethan Hunt de Tom Cruise como o grande herói da IMF para o cinema. E a verdade é que, actualmente, tanto personagem como especialmente o actor são completamente indissociáveis da franquia Mission: Impossible e não raras vezes surgem dúvidas onde acaba o actor e começa a personagem e vice-versa.

Francamente, acho que para tal muito contribuiu M:I-2, a sequela realizada por John Woo que teve estreia em 2000 que marcou o assumir completo do personagem por parte de Tom Cruise num filme que, apesar de não ter sido particularmente bem recebido pela crítica e de continuar a ser o filme da saga com a classificação mais baixa nos sites da especialidade, continua a ter um lugar especial na minha memória, de tal forma que, não fosse o facto de eu odiar a expressão, poderia facilmente rotulá-lo de guilty pleasure. Mas não o faço pois sou defensor que um tipo ou bem que gosta ou bem que não gosta e não há cá qualquer sentido de culpa nisso.

A John Woo seguiu-se J.J. Abrams em 2006 com aquele que para mim é a entrada menos interessante da franquia e depois em 2011 Brad Bird remodelava ligeiramente a fórmula e dava já um salto qualitativo à saga com Ghost Protocol.

Até que, em 2015, Tom Cruise encontrou em Christopher McQuarrie o parceiro indicado para a realização dos filmes da saga e, honestamente, parece-me que a qualidade dos filmes tem vindo a melhorar significativamente. Rogue Nation era melhor que Ghost Protocol e, por sua vez, Fallout foi melhor que Rogue Nation. E assim chegamos a este Dead Reckoning – Part One que, vou dizê-lo já, é melhor que Fallout e podemos, até, estar perante o melhor filme da saga.

O enredo deste Dead Reckoning não podia ser mais actual, já que roda em torno de uma inteligência artificial experimental chamada Entity, que tinha sido originalmente concebida para sabotar sistemas digitais, mas que ganhou senciência e passou a agir por conta própria, infiltrando-se nos principais sistemas militares e redes de inteligência e absorvendo conhecimento e criando todo o tipo de desinformação que sirva os seus interesses.

Sem surpresa, as maiores potências mundiais iniciam uma corrida para obter o controlo da Entidade e assim se estabelecerem como a força dominante de uma nova ordem mundial e o próprio ex-director do IMF, o regressado Eugene Kittridge (Henry Czerny), dá intruções a Ethan Hunt (Tom Cuise) para que ganhe o controlo da Entidade. No entanto, Hunt está convencido que a Entidade é demasiado poderosa para ser controlada por quem quer que seja e decide aniquilá-la, mesmo que isso signifique rebelar-se mais uma vez contra a sua organização e o seu governo.

Assim, Hunt reúne a sua equipa, com os regressos de Luther Stickell (Ving Rhames) Benji Dunn (Simon Pegg) e Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), e parte em busca do MacGuffin deste filme, que aqui assume a forma de uma chave dividida em duas metades, que, quando completa, poderá permitir o controlo, ou a destruição, da inteligência artificial. Pela frente terá a oposição de dois agentes norte-americanos, Jasper Briggs (Shea Whigham) e Degas (Greg Tarzan Davis), e de Gabriel (Esai Morales), um terrorista com ligação ao passado de Ethan que serve de agente no terreno da Entity.

Tudo isto decorre a um ritmo absolutamente frenético que cola o espectador à cadeira de tal forma que as duas horas e quarenta e três minutos de duração do filme, o mais longo da saga até ao momento, nem se sentem e passam num fósforo. Mas isto não significa que o filme seja unidimensional ou apressado ou mesmo que lhe falte elementos narrativos, que garantidamente não faltam. Há drama, há humor, chega até a haver tragédia e, claro, há acção, muita acção, muito movimento, muitas acrobacias, muitas perseguições, muitas lutas bem coreografadas e tudo isto, como aliás, Tom Cruise já nos habituou, sem soar a plastificado.

É que Tom Cruise até pode ter as suas taras e manias e até é legitimo que se diga que faz destes filmes o seu parque de diversões privado, mas é completamente indesmentível que se entrega totalmente a este papel e que compreende como poucos o showbiz e mais ainda o que o espectador alvo deste tipo de filmes procura. E a verdade é que cumpre e entrega ao espectador o resultado mais realista possível, sem abusos de panos verdes e CGI e apostando o máximo possível nos efeitos práticos em detrimento do facilitismo dos efeitos digitais. O que no panorama actual só pode ser aplaudido e valorizado.

Mas nem só de Tom Cruise vive este filme – Ving Rhames, Simon Pegg e Rebecca Ferguson continuam em altíssimo nível e Hayley Atwell faz uma interessante estreia na pele da ambígua Grace. Também Shea Whigham e Greg Tarzan Davis cumprem com distinção o papel e Vanessa Kirby continua a mostrar que tem ainda muito mais para dar assim lhe dêem a oportunidade.

Do lado dos vilões, Pom Klementieff vai muito bem na pele da reservada assassina francesa Paris e Esai Morales está praticamente irrepreensível na pele de Gabriel, dando-lhe a presença e o carisma necessários para vincar o perigo que representa. Referir também os cameos de Charles Parnell, Rob Delaney, Indira Varma e Mark Gatiss que, embora curtos, são de altíssimo nível.

Mencionar ainda a banda sonora, que esteve novamente a cargo de Lorne Balfe e que, uma vez mais, envolve muito bem o filme e tem sempre o cuidado de ir incorporando as sonoridades clássicas que já associamos à saga. E já que falei de música deixar também um comentário para o som e respectivos efeitos sonoros que estão absolutamente fantásticos e que também ajudam a manter o espectador pregado à cadeira nas sequências de acção.

Nota menos positiva apenas para alguma insistência em certos lugares comuns da franquia que começam a parecer demasiado repetitivos. O filme vai usando alguns clichés clássicos do género, o que, francamente, me parece normalíssimo, mas a utilização de engenhos de argumento que já foram explorados em filmes anteriores, como por exemplo, a equipa ver-se obrigada a trabalhar à margem da instituição que representa em defesa do bem maior, ou a sacana da máquina das famosas “máscaras” que avaria sempre no momento mais inoportuno e obriga a que se repense o plano original, acabam por fazer alguma mossa a um argumento que, no geral, até está bem polido para o género em causa e merecia algo novo, algo diferente e não esta repetição de conceitos já explorados.

Mas, obviamente, Dead Reckoning não quer ser nenhum Nobel da literatura ou tratado de filosofia. O seu objectivo é ser um fantástico e vertiginoso filme de acção e, honestamente, consegue-o. Aliás, na minha modesta opinião, Dead Reckoning – Part One arrisca-se a ser o melhor filme da franquia Mission: Impossible até ao momento, mesmo que o arco que nos pretende contar ainda só vá a meio. E assim, resta-nos desfrutar desta primeira parte numa boa sala de cinema e depois ir para a fila e esperar pela segunda parte que chegará em Junho de 2024.

CONCLUSÃO
Excelente!
9
mission-impossible-dead-reckoning-part-one-analiseDead Reckoning - Part One é um excelente filme de acção que nos prende à cadeira do início ao fim e que mantém o crescendo de qualidade que a saga Mission: Impossible tem vindo a apresentar nas últimas entradas. É para ver numa boa sala de cinema!