Tu sabes que esta nova Era da tecnologia VR está para ficar, não sendo mais uma moda passageira como antigamente e inúmeras vezes foi, quando a liberdade criativa para nos fazerem viver histórias consegue finalmente transportar “fisicamente” o utilizador para um mundo que se sente cheio de vida, e o envolve num papel a desempenhar na sua aventura. Quando falamos deste feito, inevitavelmente rola-nos na língua o título da Polyarc, que serve quase de estandarte a esta conquista tecnológica da humanidade. Moss, é hoje o nosso título em análise no PlayStation VR, e um dos mais prestigiados jogos que podes jogar em realidade virtual, mas à sombra da chegada da análise da sua sequela vamos perceber o porquê de assim o ser.

Não acho desprovido referir desde logo o peso da alma e do coração, que se faz sentir e com que a Polyarc se dedicou a desenhar e a explorar o caminho para nos contar esta história. Moss reflete uma enorme integridade de mensagem, de identidade, de propósito, que é muito possível devido à simplicidade da premissa da sua história. Estando esta definida, é muito fácil erguer um mundo à sua volta e debruçarmo-nos sobre o que queremos espelhar nela. Acho que foi esse o segredo do seu sucesso, e de onde provém o efeito de sombra que se veio a espalhar e a inspirar novos títulos que já analisámos anteriormente aqui na Squared Potato como Down the Rabbit Hole

Temos toda uma nova forma de viver e contar histórias, e o estúdio foi ainda um pouco mais longe e quis dar ao utilizador também um papel para justificar a sua presença física, no meio deste enredo que de outra forma seria apenas vivido na terceira pessoa. Nesta história fantástica e de inspiração medieval, temos uma espécie de reinvenção da lenda do Rei Artur, onde a personagem principal é Quill, uma jovem ratinha com um espírito bravo e aventureiro, e com uma queda para arranjar problemas.

Moss-Vr-3  

No entanto, quando os problemas lhe batem à porta, e o seu tio Angus desaparece, Quill pede-nos ajuda. Ela pede ajuda a nós que só ali estávamos presentes como que a ler sobre a sua história numa bela biblioteca, à luz de uma vela, e a foliar um livro sobre a sua aventura. Somos interpelados pela personagem principal, que nos apelida de Reader (leitor), e logo apercebemo-nos da nossa presença física ali mesmo, naquele mundo. O nosso elo entre Reader e Quill é aí criado, e nunca mais quebrado. É enquanto jogava esta parte, que não conseguia deixar de imaginar como seria a derradeira adaptação do livro Never Ending Story de Michael Ende que já muito nos fez sonhar no cinema, mas esta breve passagem deixa à imaginação se este fosse adaptado para a realidade virtual.

Lê mais:  Virtuoso | Análise

A história do mundo que envolve Quill, é bastante trágica. Onde antes havia paz, e um reino próspero, agora há apenas terror, o terror de Arcane! Toda a população teve de abandonar as posses de uma vida, e se abrigar numa floresta escondida num recanto do mundo para fugir às suas garras. O temível Arcane impera agora sobre o castelo abandonado e decrépito que ficou para trás, em busca de obter o poder de controlar o King’s Glass, um poder enorme que noutra era fora repartido por diferentes territórios para precaver maiores desgraças.

moss-vr-2  

Quill calhou a tropeçar num estilhaço de King’s Glass, enterrado no lugar onde caiu o último grande herói, e a profecia previu que a pessoa que o encontrasse novamente, na companhia de um Reader, iria se tornar o grande herói da nova Era. Dotado nas artes da espada, e aposentado da escolta do antigo Rei, o seu tio Angus não consegue aceitar que Quill seja arrastada para o meio desta batalha, e por isso decide tentar resolver o assunto com as suas próprias mãos. No entanto este tarda em regressar, e é então que Quill nos pede ajuda, ajuda para salvarmos o seu tio Angus e traze-lo de volta. Partimos, no verdadeiro início desta aventura.

É de frisar a solitude desta demanda, onde apesar de Quill não se sentir sozinha por saber que um Reader está ali a fazer-lhe de companhia, do nosso lado, uma vez que a controlamos, a situação é diferente. A verdade é que contamos pelos dedos de uma mão as personagens secundárias que iremos encontrar no nosso percurso, e que deixam uma certa impressão em nós de que poderíamos vê-las mais vezes. Algumas nem sabemos ao certo se são nossos amigos ou inimigos, o que alimenta ainda mais a intriga em nos cruzarmos de novo nas 4/6 horas que temos de jogo.

moss-reader-2  

Com controlos simples mas muito eficazes, conseguimos que Quill salte, ataque e se mova por cada secção do jogo. A forma como navegamos nesta aventura, é por pequenos cenários que transitam de uns para os outros, dando a sensação de estarmos a saltar no espaço, dado que fisicamente não nos mexemos enquanto uma alma omnisciente que é o Reader. 

Estes cenários, repletos de natureza e de apontamentos de civilizações, revelam detalhes mágicos e vão muito além de serem só vegetação. Estes exploram mecânicas de platforming e obrigam-nos a resolver puzzles para chegarmos ao ponto B. Enquanto Reader podemos interagir com alguns tipos de objetos e mecanismos que Quill nunca conseguiria manipular, mas não só! Se tocarmos e agarramos em Quill, conseguimos que a vida desta recupere, dado que três golpes é o quanto basta para a perdermos.

Lê mais:  Drums Rock VR | Análise

A dificuldade de controlarmos o Reader, enquanto uma extensão dos nossos próprios movimentos, é um bocado uma dor de cabeça por causa do tracking. Sendo que aqui utilizamos o DualShock 4 com o PlayStation VR, este chega a se deslocar sozinho, a ir para todo o lado menos para onde estás a tentar chegar com as mãos, e por vezes dá aquela sensação de barreira que por mais que tentes chegar com o comando a um certo sítio, a representação da nossa mão foge para todos os sítios menos aí. Isto não é muito comum, mas fico em constante alerta para este tipo de bugs, onde no passado me impossibilitou totalmente de jogar o FNAF: Help Wanted.

moss-vr-4  

Os tipos diferentes de inimigos existentes são igualmente proporcionais às personagens secundária que mencionei ao de leve, ou seja, pouco menos que um punhado, mas chegam-nos para entreter e sentirmos que há vida para além de nós no jogo. Temos também 2 personagens que se consideram como bosses e até fazem os pelos do pescoço arrepiarem um pouco enquanto queremos despachá-los.

Algo que quero mesmo partilhar e sublinhar, é que a animação vai do adorável até a um momento do mais especial e mais precioso que pode existir num videojogo, onde vemos Quill aninhada a dormir junto a uma fogueira. Se jogares, saberás do que estou a falar! Bate aquela emoção e só nos apetece colocar as nossas mãos à volta dela e trazê-la para junto do nosso coração. Isto muito graças ao elo que vamos construindo com a personagem. Não é só os cycles serem fluídos, estes refletem bem a agilidade e também a dificuldade de Quill a se mover sobre obstáculos. A personagem também tenta ser um pouco comunicativa utilizando uma linguagem gestual para nos dar ideias ou dicas para atravessar. Além disto, temos do mais especial também aqueles momentos em que superamos juntos um desafio e ela vira-se para nós a pedir um dá cá mais cinco que vai evoluindo de várias formas sem nunca se tornar repetitivo quando estes momentos acontecem. Vai ser interessante ver esta interação e este elo evoluir ainda mais na sequela.

Com um toque místico muito leve e medieval, Jason Graves compôs a banda sonora. Um feito onde é de realçar a ligação perfeita com os cenários, a atmosfera e o tom épico desta aventura. Vale sem dúvida alguma a pena escutarmos os seus trechos que nos inspiram a seguir.

Moss está disponível para PlayStation VR, Meta Quest e Steam VR.

CONCLUSÃO
Obrigatório
10
Apaixonada pelo mundo do cinema e dos videojogos. A ficção agarrou-me e não me largou mais! A vida levou-me pelo caminho da Pós-Produção, do Marketing e da organização de Eventos de cultura pop, mas o meu tempo livre, dedico-o a ti e à Squared Potato.
moss-analiseUma aventura que liga o jogador à personagem principal, num elo que quando feito nunca mais é quebrado. Desde a animação brilhante e interações entre jogador e personagem, à oferta de uma aventura platforming com puzzles e doses saudáveis de desafio e magia, é simplesmente impossível não ficarmos de coração cheio.