Há jogos que nos prendem pela história, outros pela jogabilidade, outros pela execução do conceito que é a sua ideia base. Quarantine Zone: The Last Check encaixa claramente nesta última categoria, mas felizmente não se fica só por aí. A proposta é simples e ao mesmo tempo refrescante: em vez de sermos mais um sobrevivente num apocalipse de zombies, assumimos o papel de inspector de saúde num posto de controlo militar. Cabe-nos analisar sobreviventes, identificar sintomas, decidir quem passa e quem fica, e viver com as consequências.

A inspiração em Papers, Please é evidente, mas aqui a tensão é elevada ao máximo graças ao constante receio de deixar entrar alguém infectado. A sensação de que uma decisão errada pode comprometer toda a base está sempre presente, e sim, já deixei zombies entrarem por puro descuido. Mais do que uma mecânica, isso transforma-se numa experiência emocional. Cada rosto que aparece à nossa frente pode esconder um problema, e a pressão é real.

Um dos maiores pontos positivos para mim foi o quão viciante o jogo se torna. Há sempre aquela sensação de de que um dia a mais não faz mal a ninguém, e quando damos por nós já passou umas valentes horas. O facto de existirem várias tarefas e pequenas variações na jogabilidade ajuda bastante a manter o ritmo dinâmico. Não estamos apenas a carimbar decisões: há momentos de gestão, pequenas sequências mais viradas para ação e até elementos de construção de base que quebram a rotina.

Claro que, com o avançar das horas, alguma repetição acaba por surgir. A estrutura base do jogo é relativamente rígida e, embora as variações ajudem, não conseguem evitar por completo essa sensação. Ainda assim, a experiência nunca se torna aborrecida ao ponto de perder interesse. Muito pelo contrário, a constante tensão e o risco de falhar mantêm o jogador envolvido.

Um detalhe que me conquistou foi o cuidado na caracterização das personagens. Nota-se que os desenvolvedores não se limitaram a criar modelos genéricos: há variedade nas roupas, nos visuais e na identidade de cada sobrevivente. Não são todos iguais, e isso ajuda bastante à imersão. Achei particularmente engraçado ver algumas personagens a usar merch do próprio jogo, um toque extra que mostra sentido de humor e atenção ao detalhe. Gostei particularmente da colaboração com Dead by Daylight. Ver personagens desse universo integradas aqui foi uma surpresa agradável e uma excelente forma de enriquecer o jogo. Este tipo de crossover mostra ambição e criatividade por parte do estúdio, além de agradar aos fãs de ambos os títulos. É um extra que não era obrigatório, mas que acrescenta personalidade. Espero que continuem com estes crossovers dinâmicos.

Outro aspecto que valorizo bastante é o suporte contínuo. Nota-se que o jogo é acompanhado pelos desenvolvedores, com actualizações temáticas como o evento mais recente do Dia dos Namorados (14 de Fevereiro). Este cuidado dá a sensação de que não estamos perante um projecto abandonado após o lançamento. Há atenção ao detalhe, há vontade de manter a comunidade envolvida, e isso conta muito.

No entanto, nem tudo é perfeito. A nível técnico, o jogo é funcional, mas não impressiona. O mapeamento de comandos para quem joga com comando (em vez de teclado e rato) que é o meu caso, não está totalmente optimizado. Existem momentos em que os botões simplesmente não respondem como deviam, ou em que a navegação se torna um pouco confusa. Nada que impeça de jogar, mas suficiente para causar frustração ocasional.

Outro ponto menos conseguido são algumas side quests. Por vezes, não é totalmente claro o que o jogo espera de nós. Falta alguma orientação ou clareza nos objetivos, o que pode quebrar o ritmo e gerar momentos de tentativa e erro desnecessários. Num jogo que vive tanto da precisão e da decisão consciente, essa falta de clareza acaba por destoar.

Ainda assim, é importante contextualizar: pelas minhas pesquisas, estamos perante o primeiro projeto do estúdio, e isso nota-se tanto nas arestas por limar como no potencial demonstrado. Há aqui uma base muito sólida, uma ideia original e, acima de tudo, emoção. Quarantine Zone: The Last Check pode não ser profundo em todas as suas mecânicas, nem tecnicamente irrepreensível, mas entrega algo fundamental, a vontade de continuar a jogar.

Para quem gosta de jogos de simulação e aprecia a temática zombie com uma abordagem diferente, este é um título a ter debaixo de olho. Não reinventa completamente o género, mas dá-lhe uma perspectiva fresca e suficientemente envolvente para se destacar.

Agradecemos à Cosmocover pela cedência de uma cópia digital deste título para análise.

CONCLUSÃO
Viciante
8.5
quarantine-zone-the-last-check-analiseQuarantine zone entrega-nos um conceito forte, boas ideias e uma experiência tensa e viciante que, apesar de algumas falhas técnicas, vale claramente a pena experimentar, e é essencial para os fãs de mortos-vivos.