Nunca percebia porque é que os idosos ficavam parados a ver obras… até jogar Roadcraft. De repente, dou por mim a pesquisar por retroescavadoras a alinhar blocos de alcatrão com a mesma atenção que vejo uma luta de MMA ou um jogo de futebol. Percebo agora a magia da nobre arte de ficar parado de mãos atrás das costas a observar uma construção de larga escala. Talvez seja meditação sentir o cheiro a alcatrão quente, quase como uma terapia urbana e barata. O que é certo, é que durante mais de 30 horas (e muitas mais virão para terminar) joguei Roadcraft como uma espécie de meditação, imerso e sem conseguir pensar em mais nada enquanto estava de comando na mão.
Joguei Mudrunner através do Xbox Game Pass, e Snowrunner através da Playstation Plus. São ambos títulos da Saber Interactive. O Mudrunner, achei um pouco menos convidativo que o Snowrunner, e ainda assim consegui colocar menos de meia dúzia de horas nos dois títulos juntos, talvez pelo efeito dos jogos em serviço que me faz consumir os jogos muitas vezes em estilo fast-food. Em Roadcraft foi diferente. Diferente, porque o jogo consegue convidar-te a experimentar as mecânicas de forma menos agressiva, sem te colocar imediatamente a explorar caminhos extremamente desafiantes e atirar-te aos leões. Para os puristas – principalmente de Snowrunner -, poderá não ser uma experiência como tanto procuram, mas para quem busca por máquinas mais destinadas à construção, terão aqui dezenas e até centenas de horas de conteúdo.
O que era o foco nas viagens difíceis off-road transportando cargas em terrenos desafiantes, passou a centrar-se na reconstrução de infraestruturas após desastres naturais, incluindo limpeza de destroços, reconstrução de estradas e pontes, agora com uma componente de gestão logística mais pronunciada. Em Roadcraft assumimos o comando de uma empresa de construção, com a especialidade em realizar trabalhos extremos em locais remotos do mundo. São mais de 40 veículos de construção, incluindo bulldozers, gruas, veículos de reconhecimento de terreno e pavimentadoras, cada um com comportamentos únicos, a serem utilizados em tarefas específicas, com missões principais, e actividades extra no mapa. Os mapas extensos estão de volta, com 8 novas regiões, ambientados em locais industriais devastados por desastres, como fábricas abandonadas e barragens submersas.
Fiquei encantado com o level design imediatamente após os primeiros serviços. Os mapas são detalhados, cheios de rotas por explorar e recursos para armazenar. Como já é habitual desta série, as físicas são muito bem implementadas, e será preciso utilizares não só ferramentas próprias dos veículos, como te aproveitares do próprio terreno. Joguei pouco dos antecessores, mas era muitas vezes a minha rotina acompanhar um vídeo de youtube de uma jornada antes de adormecer, e em Roadcraft as missões evoluíram significativamente em relação aos títulos anteriores da Saber. Agora, não se trata apenas de conduzir de um ponto A a um ponto B; o jogo exige uma abordagem mais estratégica e multifacetada, ainda que menos desafiante. A construção em RoadCraft vai além da simples pavimentação de estradas. Os jogadores podem ser encarregados de erguer pontes, reconstruir barragens e reactivar fábricas conectando-as à rede elétrica. Cada uma dessas tarefas requer o uso de diferentes veículos e equipamentos, como guindastes para levantar estruturas pesadas ou pavimentadoras para aplicar asfalto.
Além disso, o jogo introduz um sistema de logística robusto. É possível traçar rotas para que camiões de transporte, controlados pela IA, entreguem materiais automaticamente, permitindo que te foques em outras tarefas. Essa automação é complementada por um sistema de gestão de recursos, onde é necessário garantir que as fábricas e pedreiras estejam constantemente abastecidas para manter a produção de materiais de construção. Este é um dos pecados do jogo. A IA leva mesmo a rota às letras, não se desviando de nada. Se traças de A a C, é esse trajecto que o transporte irá ter, não passando pelo ponto B por mera vontade e facilitismo. Tive várias situações em que os camiões ficam a bater nos portões de entrada, só porque não ajustei uma pequena curva como o deveria ter feito. Certamente será algo a corrigir nos próximos updates.

Os gráficos de RoadCraft representam um avanço na série, mas não muito significativo. A experiência visual continua imersiva e detalhada, e apresenta cenários únicos, cheio de atenção aos detalhes. Remover árvores ou nivelar o solo torna as alterações visíveis durante imenso tempo, refletindo as mudanças feitas por nós, e isso dá uma imensa imersão à experiência. Os veículos têm todos os cockpit detalhados, ainda que em 3ª pessoa deixe a desejar, já que a nossa personagem não se movimenta com as mãos. Mas o interior é de facto incrível, desde os camiões com o seu assustador volante, as gruas que em 1ª pessoa nos faz sentir uma estranheza bizarra tal é a noção de perspectiva enquanto se trabalha. Alguns detalhes são um mimo de tão caprichados. É satisfatório ligar o carro e ver a água a pingar do tubo de escape antes do arranque, ou a lama aos poucos a invadir as laterais. São detalhes que nos fazem sentir muito vivos naquele mundo.
O jogo foi desenvolvido para aproveitar ao máximo as capacidades das plataformas da última geração, como PS5, Xbox Series e Computadores de última geração. Quanto à Xbox Series X, plataforma em que o jogo foi testado, existem os clássicos modo de qualidade e modo de desempenho. O jogo tem boa performance em ambos os modos, mas prefiro sempre optar pelos 60 quadros a uma resolução mais elevada e preso nos 30 quadros por segundo.
Quanto à componente sonora do jogo, as viaturas não parecem de todo terem sons únicos, pelo menos foi algo que reparei. Já quanto à banda sonora presente no jogo, é algo subtil e atmosférico, mas já do que joguei dos anteriores; assim o era. É uma pequena soundtrack ideal e projectada para não se sobrepor os sons ambientais e das máquinas, ajudando até na concentração, enquanto se mescla no complemento do quesito visual.
Um agradecimento especial à Ecoplay pela cedência de uma cópia digital para Xbox Series.


































