Por muitos géneros que me passem pela mão, nenhum me diverte tanto como os immersive sim. Não digo isto com uma óptica de qualidade em mente mas antes nas quase infinitas possibilidades que jogos como Dishonored, Deus Ex ou Kingdom Come: Deliverance apresentam, e por isso, não podia deixar passar a oportunidade de falar sobre Shadows of Doubt.

Shadows of Doubt é, na sua essência, um jogo de investigação. Imergimo-nos num drama policial neo-noir situado nos anos 80 e assumimos o papel de um investigador privado que vive num apartamento em ruínas. De forma a conseguirmos pagar as contas, aceitamos então casos que aguardam a nossa resolução. Através da procura de pistas e diálogos com suspeitos, vamos fazendo vários “pins” às informações relevantes, de forma a conseguirmos determinar o que realmente aconteceu.

A ideia e parte da execução acertam na mouche, o problema é que o resto da execução perde-se entre imensos detalhes irrelevantes. Estes acabam por preencher o ecrã, deixando-nos com uma quantidade absurda de informações que acabam por não especificar ninguém, nem sequer assistir na procura do nosso alvo.

Shadows of Doubt aproveita o espaço limitado para se conseguir reinventar. A ação decorre toda num só quarteirão, o que nos permite abordar os objectivos como melhor entendermos. Não só numa óptica de resolução de casos, até mesmo ações como entrar num apartamento pode ter várias opções, desde arrombar uma porta a entrar pela conduta. Dada a aleatoriedade dos mundos criados, muitas vezes acabamos por receber informações genéricas, como estarmos à procura de uma pessoa com olhos castanhos e que usa um casaco verde. Isto era útil se vivêssemos em Narnia, e ainda assim…

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Não obstante, não retiro valor ao objetivo de Shadows of Doubt, e este cumpre-o de forma bastante realista. Claro que os dados aleatórios acabam por disparar um ou dois cartuchos vazios, mas isso não quer dizer que de seguida não venha uma boa bala, e claro, vem.

Perdi a conta às horas que passei debaixo da cama de pessoas que desconhecia por completo depois de escapar pela conduta de um apartamento onde estive a recolher pistas, ou a analisar informações para tentar resolver o caso de forma lógica. Estas horas são das melhores que passei nos últimos tempos no mundo dos videojogos, e é um dos motivos pelo qual adoro Immersive Sims, apontam à realidade, e a realidade é muitas vezes imprevisível.

Embora imprevisível, certas ações acabam por cair na rotina, mais concretamente as conversas que temos com os NPCs. Podemos dar muitas voltas mas acabamos por denotar as semelhanças no discurso, ou até mesmo as repetições de falas. Isto sucede-se pois mesmo as personalidades acabam por ser repetitivas, mas mantenho as expectativas realistas pois falamos de uma equipa de um só homem num produto em desenvolvimento.

A atmosfera conta imenso neste tipo de jogos, e Cole (fundador da ColePowered) não desiludiu. As apresentam-se num estilo voxel que quase transmite o ambiente húmido e intrigante que o mistério cria. Para além disto, a imersão prolonga-se nas ações derivadas do estado do mundo. Desde sentarmo-nos a ler o jornal ou a abrigarmo-nos da chuva, o tempo neste jogo passa num ápice, deixando-nos com a sensação que tanto fizemos e pouco alcançámos.

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Claro que o foco em detalhes acaba por comprometer em alguma parte o produto geral. Encontrei alguns bugs, inofensivos na sua maioria, mas também tive o jogo a não gostar do que estava acontecer e fechar-se do nada. Claro que Shadows of Doubt é um produto em Early Access portanto terá aqui imensa margem para melhorias.

Shadows of Doubt é o exemplo perfeito de um Immersive Sim, significando que as ações lógicas que realizamos tanto podem correr exactamente como esperamos, ou podem simplesmente despoletar uma cadeia de acontecimentos que terminam com a terceira guerra mundial (exagero, mas percebem a ideia). É sem dúvida um título promissor, e com um dev que ouve atentamente o feedback da comunidade, tendo todas as bases para se tornar num título de culto.