O género Beat’ em up tem perdido cadência de forma avassaladora com o passar dos anos. No entanto, apesar de ser considerado um género cadavérico há uma mão cheia de anos, têm surgido uns quantos títulos que saciam o vazio preenchido: Streets of Rage 4, Battletoads (2020) e mais recentemente Scott Pilgrim vs. the World: The Game (novamente).

“Poucos mas bons” é a expressão popular que melhor caracteriza este grupito, um do qual Shing!, infelizmente, não faz parte. Não interpretem erroneamente as palavras cruelmente proferidas. Shing! Não é um mau jogo, apesar de vir ser criticado nesta análise, mas também não é tão bom.

Não ser bom não impede que, de uma forma ou outra, não seja possível apreciá-lo. A jogabilidade encontrada em Shing!, ao longo de sete níveis, repletos de inimigos e apresentada com uma surpreendente variedade artística, é sólida e coesa o suficiente para bombear adrenalina no nosso corpo sem parar. Porém mentira seria dizer que tudo o resto vale o preço de admissão; salva-se mesmo só o combate. No entanto, análise que é análise disseca tudo para ser possível argumentar, outrora seria escrever malignamente por escrever.

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Sob o controlo intermitente de quatro heróis a narrativa desdobra-se ao longo dos referidos sete níveis. Estas instâncias dividem-se, frequentemente, em três fases: o nível em si, onde a maior parte da ação frenética decorre; pequenos desafios com o intuito de testar a capacidade de, por exemplo, sobreviver uma investida inimiga sem ser atingido e, por último, uma pequena trégua onde as personagens dialogam entre si.

Enquanto que as duas últimas menções são meras ocasiões opcionais divertidas de explorar, é no próprio nível onde o grosso da questão se encontra: maltratar sem dó nem piedade todos os inimigos à nossa frente. É neste campo onde Shing! não falha. A ação é visceral, rápida e brutal. Os ataques, assim como as trocas repentinas de personagem por entre combinações, encadeiam na perfeição uns com os outros, permitindo que o combate seja divertido apesar de um pouco repetitivo. Critica-se, no entanto, a opção de colocar todos os ataques sob o analógico direito, algo que foi desligado mal passaram cinco minutos. É incómodo, mal-implementado e não funciona. Nada como a via tradicional dos botões.

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Estranho são as personagens, apesar de artisticamente diferentes, serem tão semelhantes em execução. Por um lado transmite uma sensação de familiaridade e isso ajuda com a execução dos ataques, por outro as diferenças são muito mínimas; uma personagem é um pouco mais lenta do que a outra, por exemplo, mas mais complexo do que isso não existe. As combinações de ataque, os bloqueios, as esquivas e até o combate aéreo é semelhante entre cada um, ficando por perceber se é uma ideia intencional ou mal executada.

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Fora esse pequeno reparo o que destaca Shing! dos restantes congéneres é um sistema de power-ups acoplados com os inimigos. Perto da barra de vida de cada um pode estar um pequeno círculo com uma cor; verde para recuperar vida ou branco para atacar mais rápido (entre outros). Quando são derrotados pequenas esferas colecionáveis aparecem, proporcionando o benefício respetivo anteriormente referido. Porém, para meu conhecimento, isto não é algo que o título ensina previamente, sendo necessário experimentar várias vezes até entender o que certas melhorias realmente fazem. É nestas alturas que um pequeno guia de consulta no menu principal, por exemplo, resultaria em maravilhas.

Um aspeto que achei particularmente positivo foi a variedade encontrada nos adversários. Vários títulos tentam incansavelmente incorporar todas as mecânicas de jogabilidade na aventura, mas Shing! é um dos poucos casos de sucesso. Existem vários inimigos que exigem uma utilização pronta e rápida de um bloqueio ou esquiva, outrora é quase impossível derrubá-los. Estas situações acontecem esporadicamente, mas nunca atrasam o ritmo do combate, sendo quase orgânico em execução.

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Narrativamente falando é certo que a equipa de Mass Creation tem uma certa apetência por um tipo de humor grosseiro e tosco. Uma infeliz situação é larga parte do diálogo conter várias insinuações sexuais e pejorativas relacionadas com o corpo masculino e feminino; são brincadeiras inofensivas, mas crassas na sua execução. Ainda assim os melhores momentos surgem durante os tête-à-tête entre o grupo, as tais tréguas sobreditas. São pequenas conversas em grupo sobre pequenos factos curiosos da sua personalidade ou motivações que os trouxeram até ao momento.

Apesar do género Beat’ em up não ser conhecido pela sua execução de uma boa história, esta servindo só para justificar mais enchuvalhos em mauzões, Shing! é especialmente paupérrimo em conteúdo nesta vertente e não faz por tentar ser diferente, onde até o clímax encontrado após o boss final do sétimo nível é bastante anticlimático. É de lamentar pois fora o humor ordinário as personagens dispõem de carisma suficiente para carregar a narrativa às costas.

Outra questão a apontar é o aspeto rudimentar e imperfeito da interface gráfica. Reconheço que o preço de admissão não é a mão cheia de um título triplo A, nem ele é categorizado como tal; é um indie, mas ainda assim tudo desde o menu principal até às simples barras de vida são a perfeita representação da expressão “funciona? Não mexe mais.”. Poderia ter sido dado uma maior atenção; uma animação ali, um contorno acolá, mas é quase tudo caixa preta texto branco.

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Pelo menos a nível de desempenho não existe nada para apontar. Analisado na Xbox Series S (através de retrocompatibilidade (sem Quick Resume!)) Shing! Funciona sempre a 60 fotogramas por segundo sem quedas, mantendo a ação rápida e voraz, essencial para um Beat’ em up moderno.

CONCLUSÃO
Dá para safar
6
Desde muito cedo um confesso apaixonado pelos mundos da PlayStation e consolas Nintendo. No entanto a vida dá muitas voltas e agora o seu amor foca-se nas novas Xbox Series. Nada como paixão à primeira vista, não é verdade?
shing-analiseCom poucas qualidades redentoras Shing! salta, por um triz, para fora da mediocridade graças ao seu sistema de combate divertido. Apesar de ser reconhecido como um título indie, não serve de carta branca para menosprezar a narrativa no geral, a interface gráfica ou até a ausência de multijogador online cooperativo. Certamente não irá surpreender ou quebrar a mente de quem o joga, mas também existem piores formas de gastar o dinheiro.