Apesar de não estar habituado a jogar muitos indies, mais além de alguns rpgs e visual novels, estou sempre aberto a novos conceitos. Ora foi isto que me foi proposto com The Bookwalker: Thief of Tales, um jogo ao estilo point and click com um transfundo bem original.

Seguimos as pisadas de Etienne Quist, um escritor que, devido a ter cometido certos crimes, foi condenado a uma sentença: ter que usar umas algemas que lhe provocam a perda da sua criatividade e capacidade de escrever. Vendo-se incapaz de pensar em fazer outra coisa a não ser escrever, o nosso protagonista arranja uma forma de sobreviver e até, talvez, contornar a sua sentença, tornando-se um bookwalker, com capacidades para saltar dentro das páginas de um livro, adentrar-se na sua história, de forma a roubar certo objeto que aí pertence. Nesta aventura não estaremos só, seremos acompanhados por Roderick, um “objeto” que perdeu a memória e que possui largos conhecimentos sobre os mundos em que entra, podendo saber onde está qualquer coisa ou pessoa do específico texto.

Estão preparados para entrar e ler esta história?

História

Um escritor é condenado por um crime – está proibido de escrever. O que mais o apaixona foi retirado. Ele poderia já não poder escrever, ter a sua imaginação, mas aqui isso não acontece. Devido às algemas que é obrigado a usar, sofre um bloqueio artístico. 

A história gira à volta da realização de encargos pelo nosso protagonista, Etienne, para conseguir reduzir esse castigo e ganhar um dinheirinho extra. Para isso, é-nos entregue um equipamento para entrarmos na história de cada mundo e puder interagir com ele de forma a encontrar o objeto pretendido.

O enredo em si não é particularmente destacável, mas torna-se interessante conhecer o que cada livro oferece e o quão diferentes são uns dos outros – as suas diferentes ambientações, personagens e história própria. Gostei pessoalmente do livro sobre a academia mágica (uma clara referência a Harry Potter) com as diferentes equipas, estudantes estranhos e alguma magia pelo meio – magia essa que está de capa caída.

Temos diversas escolhas nos diálogos: alguns inconsequentes e outros que afetam como cada livro se desenrola e que, inclusive, pode chegar a afetar o estado do protagonista. 

Um dos grandes mistérios com que nos deparamos é na identidade do nosso colega Roderick, que perdeu as memórias e está a tentar recuperá-las. Além disso, estamos sempre trocando ideias e impressões com ele, estando constantemente a julgar as decisões que efetuamos em cada um destes mundos. Não apreciei muito a dinâmica entre ambos.

Textos em português são bem-vindos para melhor se adentrar nestes mundos, para quem assim o deseje

Achei a história geral interessante, mas acho que devia haver mais influências das decisões e menos escolhas insubstanciais. Achei que o jogo podia ter explorado muito mais essas mini histórias dos livros. Termina deixando de lado diversos argumentos bem interessantes e poderia ter apostado na qualidade em vez da quantidade.

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A história tem uma duração em torno das 7/8 horas de jogo.

O jogo possui legendas em diversos idiomas, incluindo o português do Brasil. Contudo, no meu caso, prefiro jogar com elas em espanhol.

Jogabilidade

The Bookwalker: Thief of Tales segue uma jogabilidade ao estilo point and click com alguns escassos combates por turnos. Ao entrar em cada livro, temos como objetivo o encontrar certo objeto que nos foi pedido “roubar”. Para isso, teremos que encontrar diversas pistas e objetos de apoio, resolver certos puzzles e enfrentar uma ou outra batalha. Deslocamo-nos de forma isométrica (com a câmara por cima do personagem) e iremos interagindo com diversos “pontos” no mapa para avançar. 

Teremos diversas situações e diálogos onde podemos interagir. Costumam existir diversas respostas, mas com mais que menos frequência, são meramente decorativas já que apenas uma nos permitirá seguir em frente. Às vezes, teremos que ter certas ferramentas, as quais podemos ter a sorte de encontrar ou então fabricar, de forma a usar a adequada (podendo inclusiva partir-se se usarmos a incorreta). 

Temos também a tinta, que permite “reescrever” certas cenas dos livros, para “superar” certas situações de uma forma mais fácil e é também o que nos permitirá usar as ações no combate. Esta tinta pode ser conseguida convertendo certos objetos que encontremos nos cenários ou roubemos aos inimigos na batalha. Apesar de ser possível roubar esta tinta aos inimigos, para combater com eles também é necessário usá-la, pelo que é necessário saber o que priorizar. 

A existência de um sistema de combate é muito bem-vinda

Os combates são bastante simples, mas dão um ar fresco à aventura. Começamos o jogo com três habilidades e a possibilidade de usar objetos. Mais tarde, podemos ter acesso a certas melhorias. Novamente, tudo muito simples e apesar de eu ter gostado deste sistema de batalha, consigo perceber alguém que não entenda o porquê sequer de ter um. Obriga a explorar melhor os cenários de forma a conseguir recursos para conseguir enfrentar qualquer inimigo.

Uma mecânica que não estava à espera mas que resultou divertida.

Por vezes, temos que voltar ao mundo real para conseguir alguma ferramenta que nos permita continuar. É, também, neste mundo onde depositamos o objeto encontrado e o entregamos ao nosso cliente, onde posteriormente nos será dado as novas instruções. O nosso colega Roderick também nos dará certas pistas.

Achei as escolhas nas conversas muitas vezes sem qualquer efeito ou consequência; poderia ter sido melhor aproveitado. O mesmo posso dizer dos puzzles, por norma fáceis, sendo apenas necessário investigar um pouco os cenários. Algo que tenho que admitir é que eu adoro investigar todos os cantinhos ao jogar um videojogo, este inclusive; por isso, ao entrar numa nova área ando sempre a vasculhar tudo. Com isto quero dizer que, se calhar, alguém que vá mais direto ao assunto pode ter mais dificuldades porque pode não encontrar determinado objeto.

Algo que não fiquei fã foi o jogo apenas possuir save automático e apenas um slot para o fazer. Ainda para mais, depois de qualquer decisão ou ao entrarmos em qualquer nova sala, o jogo é guardado. Para mim, que adoro experimentar diversas possibilidades, foi um pesadelo não poder ver mais opções e ter que seguir com as escolhas/consequências, exceto caso comece um novo jogo, sem poder reiniciar noutro ponto de guardado que possa ter feito.

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Apanhei um ou outro bug: em certos momentos, não deixava interagir com a pessoa/objeto, tendo que estar a carregar diversas vezes. O pior foi um objeto para um objetivo secundário em que não aparecia a opção para o colocar, impedindo inclusive que saltasse o troféu.


Visuais e som

O jogo apresenta dois tipos de visuais bem diferenciados: o do mundo real e o do mundo dos livros. No mundo real, estamos perante uma perspetiva em primeira pessoa, em que tudo é bem “comum”, sem nada a destacar a nível artístico, sendo um cenário bem limitado no seu tamanho. Certas texturas, ao perto, são de baixa qualidade. 

Não é no mundo real onde o jogo quer que estejamos, mas sim no mundo dos livros, com uma perspetiva isométrica. Aqui, tudo é detalhado, com cenários inteligentemente únicos e com uma arte e ambientação fantástica. Dependendo do livro em que entremos, teremos uma ou outra ambientação, todas bem diferenciadas como, por exemplo, cenários nevados, masmorra de uma prisão, nave espacial, entre outras.

Existem algumas quedas de framerate, mas nada de especial que afete o jogo.

Um apartado audiovisual muito bem conseguido que me capturou do início ao fim

Ao nível sonoro cumpre mais que de sobra. No mundo real é muito à base dos sons diários que se ouvem num apartamento de uma grande cidade, daqueles de paredes bem finas, numa vizinhança em constante movimento. O som dos vizinhos a discutir e a fazer o seu dia a dia, o micro-ondas a apitar, objetos a cair, passadas nos pisos de madeira, gatos a miar, alguém a tomar banho, os transportes a passarem… Ou seja, são capazes de complementar, de forma exemplar, os visuais tão secos deste mundo com estes sons tão comuns. 

No mundo dos livros, temos constantes músicas de ambiente – cada livro com a sua própria – que nos permitem mergulhar em cheio na acção. Em situações mais stressantes e em combate, temos uma música mais intensa. 

Tenho a dizer que achei a combinação entre as ambientações e a música de cada livro bastante absorventes. Enquanto jogava, uma estranha sensação de calma/relaxamento apoderava-se sempre de mim, quase como se estivesse a ver um estranho vídeo de ASMR.

O jogo não conta com qualquer voice acting, à exceção de uns sons que tendem a imitar as vozes dos personagens.

São os seus pontos positivos suficientes? Para começar, tem um robô acariciando um gato – logo aí ganha imenso!

The Bookwalker: Thief of Tales está disponível para PlayStation 5, PlayStation 4, Microsoft Windows na Steam e Epic Games Store, Xbox Series X/Series S e Xbox One.

CONCLUSÃO
Imersivo
7.2
Bruno Cavaco
Grande apaixonado pelo mundo dos videojogos, destacando a sua predileção por RPGs e jogos japoneses no geral. Licenciado em Gestão de Marketing, continua a planear o caminho que deve seguir. Um fã da Eurovisão dos pés à cabeça.
the-bookwalker-thief-of-tales-analise-ps5The Bookwalker não é um jogo para todos - um jogo muito de nicho que não irá apelar às massas. Uma fantástica combinação entre os seus visuais e banda sonora são o seu principal destaque, complementando na perfeição as pequenas histórias de cada livro que, apesar de interessantes e com bastante potencial, podiam ter dado lugar a muito mais. Sinto que este indie tentou abarcar muito mais do que realmente conseguia fazer. Tenho a dizer que, para um jogo indie com um preço base de 15 euros, fizeram um grande trabalho e recomendo, especialmente para umas tranquilas tardes de fim de semana, ou melhor, umas tardes chuvosas onde o som das pingas contra a vossa janela se misturem com todo o trabalho audiovisual desta obra.