Nunca joguei The Legend of Heroes. Muito menos a saga Trails.

Mas isso mudou e sou agora um fã convertido.

Se começaste o texto como eu, então passo a explicar: The Legend of Heroes (Eiyū Densetsu), RPGs desenvolvidos pela Nihon Falcom, são para jogadores o que o universo cinemático da Marvel é para cinéfilos: várias estórias interligadas entre si, presas por múltiplas referências e pela continuidade. The Legend of Heroes sempre se destacou como um mundo lindo e vasto, com alguns spin-offs na algibeira e muito enredo por trilhar, mas para jogar dentro do contexto da análise só incidirei sobre a saga Trails (Kiseki). Esta inicia-se com a trilogia Trails in the Sky, seguido por Trails in the Sky SC e culminando com Trails in the Sky the 3rd.

Após este, entra o título em epígrafe Trails from Zero, cujo término narrativo encontra-se em Trails to Azure (em inglês oficialmente algures em 2023). A estória continua com os títulos já lançados mundialmente Trails of Cold Steel, II, III, IV e prossegue com o epílogo Trails into Reverie (em inglês algures em 2023). Kuro no Kiseki e Kuro no Kiseki II – Crimson Sin são a próximas estórias ainda carecentes de uma localização ocidental confirmada (embora na PlayStation só consigas desfrutar dos Cold Steel até à data).

Existe uma panóplia de detalhes referentes a este título da Nihon Falcom: inicialmente lançado em 2010 no Japão para a PSP, Trails from Zero renasce com Kai no título para a PS4 e Vita em 2020. A NIS America pegou no conteúdo dessa versão nipónica, trabalhou com um grupo de fãs chamado Geofront e desenvolveu esta versão ocidental. O elefante na sala é que as versões Switch e PC foram trabalhadas pelo estúdio PH3, resultando num jogo mais bonito e polido comparado com a oferta para os fãs da Sony (leiam atualizações sobre esse assunto aqui e posteriormente aqui). Tudo o resto mantém-se igual, sendo a versão da análise recomendável apenas a quem carece de acesso às outras restantes. Estou, no entanto, a colocar a carroça na frente dos bois.

Ainda que cada título na saga centre a narrativa em torno de personagens diferentes, começar esta odisseia por Trails from Zero não é completamente recomendável apesar de, spoiler alert, ser um bom videojogo. Essa foi a minha vivência e quando bebi da fonte proíbida dos spoilers nesta nuvem ciberespacial, rapidamente constatei que este ponto de transição entre Trails in the Sky the 3rd e Trails of Cold Steel é uma mina perdida de referências melhor aproveitada quando os vários contextos estão presentes em mente.

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A estória é, contudo, ainda bastante completa como oferta singular, oferecendo temáticas políticas e outros fios narrativos pessoais sobre o quarteto principal de agentes policiais da cidade de Crossbell, com cada capítulo a ultrapassar o anterior em tensão e reviravoltas. Ao contrário da variada oferta RPG que por aí caminha, Trails from Zero beneficia da paciência do jogador quando este decide explorar o conteúdo opcional, recompensando-o com excelente world building e até a ocasionalmente interessante conversa aleatória com um NPC.

Caso não estejas a par da norma, aviso de antemão que Trails from Zero (ou qualquer Trails) atira com imenso diálogo que, para o ávido fã de videojogos RPG japoneses, não constitui novidade da mais alta casta. No entanto, hoje em dia, com a modernização de várias características, torna-se difícil relembrar que outrora os títulos RPG não dispunham de várias atualizações Q.O.L. (Quality of Life) e outras mecânicas atualizadas.

Um desses exemplos são as léguas de texto que irás ler durante as várias sequências expositivas com elementos quase estáticos, um verdadeiro marco do seu tempo (e a versão PS4 sem um histórico de texto!). Isto, em conjunto com algumas demandas secundárias medíocres (em execução apenas, muitas têm boas recompensas e excelente enredo) abranda demasiado o ritmo e cadência dos capítulos iniciais. Contudo, assim que reta final da estória principal se aproxima, sentes uma lufada de ar fresco que desperta e prende-te na cadeira até ao desenrolar dos créditos finais.

Outra área enveredada pelo título em epígrafe com sucesso é a exploração que ocorre entre tempos mortos e combates. Conforme referi há pouco, Trails from Zero é um videojogo que recompensa um jogador paciente e aquele que conseguir explorar além da área de Crossbell encontrará não só vistas lindíssimas, mas também tesouros com itens úteis para a aventura. Vou mais longe e afirmo que tanto pescar como cozinhar, atividades extra-curriculares, são extremamente úteis com as suas recompensas, servindo um propósito maior do que meras distrações da trama principal. Dito isso e não obstante um sistema de fast travel tardio e paupérrimo, partir à descoberta de cada canto é tão divertido e cativante como os RPGs nipónicos mais antigos, algo enaltecido mais ainda pela espetacular banda sonora.

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Chegas, então, ao verdadeiro durame da crítica: combate. Este sistema empregue em Trails from Zero existe fora do niche comum encontrado em JRPGs típicos e subsequentes combates aleatórios, popularmente perpetuados por sucessos comerciais como Final Fantasy e Dragon Quest. Invés disso todos os inimigos encontram-se à vista do jogador, suscetíveis de um ataque surpresa pelas costas para benefício da equipa no início do verdadeiro conflito, onde a ordem do dia reconhece-se pelo seu sistema por turnos. Ao contrário de outros títulos onde as personagens encontram-se estáticas, Trails from Zero sobe patamares estratégicos ao optar por proporcionar mobilização a cada membro da equipa, permitindo que cada um lute conforme o espaço físico que tem à sua volta.


A dificuldade também se faz sentir ao longo da aventura em Trails from Zero. As batalhas iniciais, como em todos os bons JRPGs, servem de introdução às mecânicas inerentes à jogabilidade em combate, progressivamente complicando as mesmas não só com inimigos mais hostis, mas também com a introdução de sistemas que jogam em torno de orbments e quartzes, itens importantes para imbutir as personagens com ganhos estatísticos passivos e habilidades especiais como feitiços de diversos elementos. Estas opções ofensivas tendem a expandir mediante a crescente raridade do quartz adquirido e nível subido em cada um dos heróis principais, exigindo tirar partido da fraqueza elemental de cada inimigo, em especial os bosses.

Devido a essa razão sempre senti que grande parte das lutas foram divertidas. Não obstante as batalhas contra bosses, em especial as últimas, serem mais satisfatoriamente inventivas a necessitar de um pensamento mais estratégico que o comum, todas as outras entretêm devido às mecânicas de jogabilidade. Todas as habilidades especiais têm especificidades que segue a tão habitual linha de pensamento neste género: “utilizo um ataque por forma a atingir todos ao mesmo tempo, ou foco todo o meu dano naquele inimigo mais irritante?” “Dou prioridade à força vital do boss, ou presto mais atenção aos buffs e debuffs?”.

É esta cadeia de pensamento em combate que Trails from Zero acomoda de uma ponta à outra da narrativa, sem nunca tornar as batalhas demasiado incomodativas ou excessivas. Estes elementos estratégicos atingem também os anteriormente referidos orbments, onde este sistema em específico permite um novo leque de opções utilizáveis em combate.

CONCLUSÃO
Fantástico
8.0
Ulisses Domingues
Desde muito cedo um confesso apaixonado pelos mundos da PlayStation e consolas Nintendo. No entanto a vida dá muitas voltas e agora o seu amor foca-se nas novas Xbox Series. Nada como paixão à primeira vista, não é verdade?
the-legend-of-heroes-trails-from-zero-ps4-analiseFeitas as contas, The Legend of Heroes: Trails from Zero é um JRPG suficientemente bom para ser desfrutado sozinho, mas cuja narrativa e enredo ganham outro peso quando existe o contexto da saga Sky e Cold Steel por trás. Ainda assim, o foco da narrativa numa escala pequena permite vender um mundo muito pessoal e intrigante, com a banda sonora, jogabilidade e grafismo mais ‘retro’ a ajudar à eufonia. Não deixa de ser genuinamente triste existirem duas versões visualmente diferentes entre PS4, Switch e PC, porém esta é uma aventura que merece ser vivida para os fãs do género independentemente da plataforma de escolha.